“A política (em Moçambique) é uma panela. É preciso comer muito e rápido porque a colher é muito disputada e a refeição pode durar pouco.”
(Mia Couto, 2015)
Por: Egídio Chaimite & Alberto da Cruz
Em 2015, ao receber o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Politécnica de Maputo, Mia Couto recorreu à metáfora da panela para caracterizar a política moçambicana. Couto comentava uma declaração do Professor Lourenço do Rosário sobre a pretensão da Renamo de concretizar aquilo que descreveu como a lógica de que “chegou a nossa vez”. Ele questionava se quem denunciava a partidarização do Estado pretendia realmente combatê-la ou simplesmente repartir o poder e os seus benefícios. No entanto, a sua crítica ultrapassava as fronteiras partidárias e colocava em causa a ideia de Moçambique como um “quintal privado”, onde cada grupo procura assegurar a sua parcela de privilégios.
Mais de uma década depois, uma expressão popularizada pelo músico Lil Wayne de Moz, de Nampula, parece traduzir esta realidade com particular simplicidade: «É vez-vez». Na interpretação irreverente do artista, cada pessoa tem o seu momento. Ontem, outros viajavam de avião, hospedavam-se em hotéis luxuosos e desfrutavam de fama e reconhecimento. Hoje, chegou «a minha vez». Amanhã, será a de outro. A expressão provoca gargalhadas e alimenta memes nas redes sociais. Afinal, quem não gostaria de ter a sua vez?
Transportada para a política, porém, a expressão ganha um significado menos divertido. O “vez-vez” traduz a expectativa de que chegar ao poder representa também uma oportunidade de acesso à riqueza, aos privilégios e aos benefícios associados ao controlo do Estado. Os que governaram ontem tiveram a sua vez de “comer”; os que chegam hoje reclamam o mesmo direito. Nesta lógica, a sucessão política deixa de representar necessariamente uma oportunidade de mudança e transforma-se numa disputa pela substituição dos beneficiários de um sistema que permanece praticamente intacto.
Esta forma de encarar o poder ajuda a compreender uma das contradições da governação moçambicana. Ao longo de décadas, o país conheceu diferentes dirigentes, programas e promessas de transformação económica e social. Contudo, enquanto determinados círculos próximos do poder encontram oportunidades de acumulação de riqueza e melhoria das suas condições de vida, milhões de moçambicanos continuam confrontados com a pobreza, a precariedade dos serviços públicos e a falta de oportunidades. A mudança de dirigentes nem sempre se traduz numa mudança correspondente na vida dos cidadãos.
O problema ultrapassa, por isso, o comportamento individual dos governantes. Quando o acesso ao poder proporciona benefícios privados e os mecanismos de responsabilização são frágeis, podem criar-se incentivos para preservar as práticas existentes, em vez de as transformar. Instituições fortes, regras transparentes e fiscalização efectiva tornam-se inconvenientes para quem depende da influência política para obter vantagens. A fragilidade institucional pode, assim, persistir não apenas por falta de recursos ou capacidade, mas porque a sua manutenção serve determinados interesses.
É a partir desta perspectiva que procuramos compreender a lógica do “vez-vez” na política moçambicana. Recorrendo a episódios concretos da governação e às condições económicas e sociais do país, discutimos como a disputa pelo poder pode transformar-se numa disputa por oportunidades de apropriação, perpetuando privilégios sem produzir melhorias proporcionais para a maioria da população. A questão central é simples: por que razão a chegada ao poder parece oferecer a alguns a oportunidade de transformar as próprias vidas, enquanto milhões de moçambicanos continuam à espera de que a governação transforme as suas?
- Um país que empobrece, um Estado de mãos atadas
A disputa pela “vez” de beneficiar do poder torna-se mais grave quando olhamos para as condições em que vive a maioria dos moçambicanos. Segundo o Banco Mundial, moçambique é o segundo país mais pobre do Mundo. Trocando isso em quinhentas, a proporção da população abaixo da linha nacional de pobreza aumentou de 48,4%, em 2014/2015, para 62,9%, em 2022. Nesse período, o número de pessoas em situação de pobreza cresceu em cerca de sete milhões. Com o PIB per capita de USD 600, o sector informal absorve aproximadamente 95% dos trabalhadores, e pelo menos 70% desses encontram-se presos na agricultura de subsistência. População sem acesso a saneamento de padrão mínimo ronda os 77,2%. Por outras, a economia não tem conseguido transformar as suas oportunidades em melhores condições de vida para a maioria.
Ao mesmo tempo, o Estado dispõe de pouca margem financeira para responder às necessidades da população no curto prazo. Em 2025, os salários e os juros da dívida pública absorveram aproximadamente 88% das receitas fiscais, segundo o Banco Mundial. Por cada 100 meticais arrecadados em impostos, 88 ficaram comprometidos com essas duas despesas. Existem outras fontes de financiamento do Orçamento do Estado, mas esta proporção revela a pressão sobre os recursos disponíveis para assegurar serviços e investir no futuro.
A falta de margem orçamental tem consequências concretas. No primeiro semestre de 2026, a disponibilidade média de medicamentos essenciais nas unidades sanitárias ficou em 68%, abaixo da meta anual de 90% estabelecida pelo Governo. O dado consta do Balanço do Plano Económico e Social e Orçamento do Estado, divulgado pela imprensa. Para quem procura tratamento, esta insuficiência pode significar comprar medicamentos numa farmácia privada, adiar os cuidados, regressar a casa sem solução, ou nunca mais ver a luz do dia.
O Hospital Provincial de Xai-Xai mostra como essas dificuldades se acumulam. Uma reportagem da STV, publicada em Julho de 2026, dava conta de cortes frequentes de energia e da avaria do gerador central, cuja reparação estava avaliada em mais de um milhão de meticais. Num hospital, a falta de electricidade compromete o funcionamento de equipamentos e a continuidade dos cuidados. Como pode um médico monitorizar os sinais vitais de um paciente numa sala de operações sem electricidade? Aquilo que aparece no orçamento como uma despesa adiada pode tornar-se, na vida de um doente, uma urgência sem resposta.
- Austeridade para quem? As viaturas do CC e as viagens presidências
Enquanto crianças dormem com fome e faltam aspirina e luvas nos hospitais, o governo faz gastos com rubricas duvidosas. Assumindo que o comportamento é generalizado, tomemos como exemplo a adjudicação de quatro veículos por cerca de 49,5 milhões de meticais pelo Conselho Constitucional. Desse lote, uma Mercedes-Benz estava avaliada em aproximadamente 27,8 milhões e uma Hyundai Palisade em 18 milhões (mais do dobro do preço real na praça). Só estas duas viaturas representavam mais de 45 milhões de meticais. A justificação dessa escolha de gasto, quando os recursos ao escassos, é de que é legal e os dirigentes merecem conforto.
Mesmo que uma despesa cumpra os procedimentos legais, continua a ser necessário demonstrar que é necessária, proporcional e prioritária. Estar inscrita no orçamento não torna uma compra automaticamente razoável. A pergunta permanece: por que precisa uma instituição de viaturas dessa categoria e por esses valores, num país onde serviços essenciais enfrentam carências tão graves?
Um outro caso que merece a nossa atenção são os custos por detrás das viagens recorrentes do Presidente da República. Um levantamento divulgado pela Deutsche Welle (DW), em 14 de Agosto de 2026, identificou cerca de 17 deslocações internacionais do Presidente da República entre Janeiro e meados de Julho de 2026, correspondentes a aproximadamente 2,6 viagens por mês. A diplomacia pode abrir oportunidades importantes para o país, mas essas oportunidades precisam de ser acompanhadas até produzirem resultados. E o que dizer quando vidas podem ser perdidas por falta de anestesia num hospital provincial?
Por tanto, concordamos que a diplomacia é fundamental para a estabilidade e desenvolvimento do país, contudo, os gastos envolvidos merecem o nosso questionamento. Uma deslocação envolve comitivas, alojamento, ajudas de custo, segurança e logística. Por isso, contar viagens diz pouco sem conhecer os seus custos e benefícios. Segundo uma publicação do Moz24h, apenas o aluguer do avião utilizado pelo Presidente da República na visita ao Congo teria custado cerca de USD 260 mil (números por confirmar). Que resultados justificam os recursos mobilizados do Estado num contexto de uma das maiores crises fiscais que o país já viveu?
As viaturas e as viagens levantam, assim, uma questão comum: quem define as prioridades e perante quem responde por elas? Quando as justificações são insuficientes, cresce a percepção de que as necessidades dos governantes encontram resposta mais depressa do que as necessidades dos governados. É nessa distância que o “vez-vez” deixa de fazer rir.
2.2. Mudam os dirigentes, fica a lógica
Seria cómodo atribuir este problema apenas à actual governação. A história recente de Moçambique, porém, mostra que as relações entre poder político, interesses económicos e recursos públicos atravessam diferentes presidências. Durante a governação de Joaquim Chissano, os escândalos do Banco Comercial de Moçambique e do Banco Austral expuseram graves irregularidades no sistema financeiro. Os assassinatos de Carlos Cardoso, em 2000, e de António Siba-Siba Macuácua, em 2001, marcaram profundamente o debate sobre corrupção e responsabilização. Durante a presidência de Armando Guebuza, a contratação de mais de dois mil milhões de dólares em dívidas ocultas comprometeu as finanças públicas, com consequências para toda a economia. Nos ciclos seguintes, programas como o SUSTENTA e a gestão dos recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Sustentável (FNDS) continuaram a suscitar questionamentos sobre transparência e fiscalização.
Estes episódios têm naturezas e responsabilidades diferentes, mas a sua sucessão coloca uma questão fundamental: por que razão determinadas práticas encontram condições para se repetir, mesmo depois de mudarem os dirigentes e de se tornarem conhecidos os seus efeitos? Parte da resposta pode estar nos incentivos que o próprio sistema oferece. Quem chega ao poder observa como os seus antecessores acederam a contratos, negócios e privilégios, mas observa também as consequências que enfrentaram. Se os benefícios foram elevados e a responsabilização pouco provável, a experiência anterior pode funcionar como incentivo à repetição. A impunidade ensina: mostra o que se pode obter e quanto se arrisca ao fazê-lo.
O “vez-vez” ganha aqui o seu sentido político mais profundo. Quem assume um cargo pode entender que chegou para interromper práticas prejudiciais ao país ou que chegou, finalmente, para beneficiar das mesmas oportunidades que os anteriores aproveitaram. Neste segundo caso, os privilégios dos antecessores tornam-se uma justificação para os novos dirigentes: se eles tiveram acesso, por que haveriam os novos de abdicar? Esta lógica encontra condições especialmente favoráveis quando os mecanismos de fiscalização são frágeis e a proximidade ao poder oferece protecção contra a responsabilização. Assim, a sucessão política pode renovar os beneficiários sem transformar as práticas que sustentam os privilégios.
3. Quando as instituições passam a servir interesses privados
A lógica do “vez-vez” encontra paralelo na politique du ventre (política da barriga), expressão de origem camaronesa aprofundada pelo cientista político Jean-François Bayart na obra L’État en Afrique: La Politique du Ventre (1989). O conceito ultrapassa a simples ideia de corrupção ou enriquecimento dos governantes. Descreve uma forma historicamente construída de exercício do poder, na qual a acumulação e a redistribuição de riqueza, as redes de influência e as relações de dependência desempenham um papel central na organização e manutenção do poder político. No contexto moçambicano, o “vez-vez” permite explorar uma dimensão particular desta lógica: a sucessão dos grupos que procuram beneficiar das oportunidades associadas ao controlo do Estado, sem necessariamente transformar as práticas que sustentam esses benefícios.
Esta reflexão é aprofundada por Jean-François Bayart, Stephen Ellis e Béatrice Hibou na obra The Criminalization of the State in Africa (1999), na qual analisam situações em que a autoridade pública se articula com redes de acumulação privada e actividades ilícitas. Importa, contudo, distinguir os conceitos. A politique du ventre não pressupõe necessariamente ilegalidade, enquanto a criminalização do Estado envolve a integração de práticas ilícitas nas relações de poder. Por sua vez, a captura do Estado ocorre quando interesses particulares conseguem influenciar sistematicamente as regras e decisões públicas em seu benefício. Em todos estes casos, a questão central é compreender como as instituições podem passar a proteger interesses particulares em detrimento do interesse colectivo.
O caso do arroz e do trigo permite observar os riscos desta lógica na esfera da regulação económica. Através dos Diplomas Ministeriais n.º 132/2025 e n.º 31/2026, o Governo atribuiu ao Instituto de Cereais de Moçambique (ICM) um papel central na condução e autorização das importações destes produtos. A medida, oficialmente justificada pela necessidade de combater irregularidades, controlar a saída de divisas e estabilizar os preços, provocou conflitos com operadores económicos e suscitou impugnações judiciais. A insistência no modelo, perante dúvidas jurídicas ainda por resolver e sem resultados públicos suficientemente demonstrados sobre os seus benefícios económicos, levanta uma questão essencial: pretende-se corrigir falhas do mercado ou criar novas oportunidades de controlo sobre ele? É esta suspeita que encontra expressão na chamada “nhonga do arroz”, numa alusão à possibilidade de que a medida sirva menos para aumentar a eficiência económica do que para assegurar que alguns tenham também a sua vez de “comer” com a nova tarifa introduzida de USD 16/tonelada.
O problema não é o Estado regular a economia. Pelo contrário, mercados eficientes precisam de instituições capazes de assegurar a concorrência, combater irregularidades e proteger os consumidores. A questão surge quando a intervenção pública concentra poder de decisão, cria obstáculos à actividade empresarial, não demonstra benefícios proporcionais para a sociedade e muito menos se encontra dentro de parâmetros legais. Nessas circunstâncias, o controlo administrativo pode criar oportunidades para a chamada procura de rendas: a obtenção de ganhos económicos através de privilégios e decisões do poder público, em vez da produção, do investimento e da concorrência. O caso do arroz não demonstra, por si só, a existência desses privilégios, mas evidencia a importância de mecanismos transparentes e legais que impeçam a sua criação.
É também por isso que o fortalecimento das instituições pode enfrentar resistências. Uma administração profissional dificulta nomeações por conveniência; a contratação transparente reduz oportunidades de favorecimento; e uma justiça independente aumenta o risco de responsabilização. Para quem depende das fragilidades institucionais para obter vantagens, estas reformas representam uma ameaça aos benefícios conquistados. A persistência de instituições frágeis pode, portanto, resultar não apenas da falta de recursos ou capacidade, mas também dos interesses que beneficiam da sua fragilidade.
O resultado pode ser um Estado com capacidade para mobilizar recursos, criar regras e responder às necessidades de determinados grupos, mas que continua a enfrentar enormes dificuldades para assegurar serviços básicos à maioria da população. É nesta contradição que encontramos a consequência mais grave da lógica do “vez-vez”: enquanto o acesso ao poder pode abrir oportunidades de prosperidade para alguns, a sucessão de dirigentes nem sempre produz melhorias correspondentes na vida dos cidadãos.
- A vez de uns, a miséria de muitos
Os dados e os episódios apresentados ao longo deste texto revelam uma contradição profunda na governação de Moçambique. Num país onde a pobreza aumentou de 48,4% para 62,9% da população, os hospitais continuam sem medicamentos e o Estado enfrenta enormes dificuldades financeiras, encontramos instituições dispostas a adquirir viaturas de dezenas de milhões de meticais, decisões económicas que suscitam dúvidas sobre os interesses que servem e sucessivos escândalos de utilização indevida dos recursos públicos. Vistos isoladamente, estes episódios podem parecer problemas distintos. Analisados em conjunto, levantam uma questão mais profunda sobre a forma como o poder é exercido e sobre quem beneficia das decisões do Estado.
A escassez de recursos é real, mas não explica todas as escolhas. O que estes episódios colocam em evidência é a contradição entre a capacidade do Estado de mobilizar recursos e exercer autoridade em determinadas circunstâncias e a sua dificuldade persistente em responder às necessidades mais elementares da população. Não significa que cada despesa discutível resulte de corrupção ou que cada privilégio explique directamente a pobreza. Significa, porém, que as prioridades da governação nem sempre parecem corresponder à gravidade dos problemas enfrentados pelos cidadãos. Enquanto os sacrifícios são justificados pela falta de recursos, determinadas vantagens continuam a encontrar espaço nas decisões públicas.
É aqui que a lógica do “vez-vez” revela a sua consequência mais grave. Para alguns, a chegada ao poder representa uma oportunidade de ascensão económica, acesso a privilégios e melhoria das condições de vida. Para milhões de moçambicanos, porém, a sucessão de dirigentes pouco altera as dificuldades do quotidiano. Mudam os titulares dos cargos, renovam-se os círculos de influência e surgem novos beneficiários das oportunidades associadas ao Estado, mas a pobreza, a precariedade dos serviços e a falta de oportunidades permanecem. A vez de quem governa chega; a vez de quem espera por uma vida melhor parece nunca chegar.
Esta realidade ajuda também a compreender por que razão a mudança política nem sempre produz transformação económica e social. Quando o principal incentivo de quem chega ao poder é beneficiar das oportunidades que encontrou, a energia política concentra-se mais na disputa pela distribuição dessas vantagens do que na construção de instituições capazes de gerar prosperidade colectiva. O resultado é um ciclo em que os privilégios se renovam mais rapidamente do que as condições de vida da população. A riqueza e o conforto de determinados círculos contrastam com a persistência de uma pobreza que atravessa gerações.
O problema central de Moçambique não é, portanto, apenas a existência de dirigentes que procuram beneficiar do poder. É a possibilidade de um sistema de governação continuar a reproduzir oportunidades para poucos sem conseguir produzir melhorias proporcionais para a maioria. É esta a contradição que une os diferentes episódios analisados neste artigo. Ao longo dos anos, muitos tiveram a sua vez de governar e alguns encontraram nela a oportunidade de transformar as próprias vidas. O que continua por cumprir é a promessa de transformar a vida dos moçambicanos.
- A vez de governar é a vez de servir os cidadãos
Romper com o “vez-vez” exige mais do que mudar os ocupantes dos cargos. A sucessão de dirigentes é importante, mas só transforma a governação quando altera também as regras de acesso aos recursos e as condições de exercício do poder. Se tudo continuar a depender de lealdades e contactos, os novos titulares poderão ocupar os lugares dos anteriores e repetir as mesmas práticas.
A mudança começa por retirar à proximidade política o poder de decidir quem trabalha, quem ganha contratos e quem recebe serviços. Isso exige recrutamento baseado na competência, contratação pública transparente, fiscalização efectiva e responsabilização. Exige também que a justiça possa actuar sobre os titulares do poder, e que os cidadãos tenham acesso à informação necessária para acompanhar as decisões.
As prioridades de despesa devem fazer parte dessa prestação de contas. Uma instituição que propõe uma aquisição dispendiosa deve explicar por que precisa dela, que alternativas avaliou e que benefício público espera alcançar. A transparência permite discutir as escolhas antes de o dinheiro ser gasto, quando ainda é possível corrigi-las.
É igualmente necessário mudar o critério de avaliação da governação. As nomeações, cerimónias e deslocações ocupam grande parte do debate público. Mas o desempenho de um governo mede-se também por perguntas mais próximas da vida dos cidadãos: há medicamentos nas unidades sanitárias? As crianças aprendem em condições adequadas? Os processos administrativos são resolvidos sem favores? Os agricultores encontram condições para produzir e vender?
Um ministro administra recursos que pertencem à colectividade. Um governador exerce uma responsabilidade temporária sobre a província. Um dirigente público responde por um orçamento que lhe foi confiado. O cargo dá autoridade para cumprir uma função; não dá propriedade sobre a instituição.
É por isso que o debate sobre as viaturas do Conselho Constitucional ultrapassa o preço dos automóveis. Está em causa a forma como o poder estabelece prioridades e responde à sociedade. Quando o conforto de poucos recebe atenção que falta aos direitos de muitos, a confiança desgasta-se. Nenhuma autoridade pode dispensar indefinidamente essa confiança.
Regressemos, então, às expressões que abriram este artigo. A “panela” de Mia Couto traduz a disputa pelo benefício; o “quintal privado” denuncia a apropriação do que pertence a todos; o “vez-vez” explica como essa apropriação pode renovar-se a cada mudança de dirigentes. Juntas, colocam o mesmo problema: a transformação da responsabilidade de governar num direito de usufruir.
Romper com essa lógica significa recuperar a outra concepção de política evocada por Couto: servir os outros e colocar os interesses de todos acima das conveniências de alguns. Se chegou a vez de alguém governar, chegou também a sua vez de prestar contas, enfrentar as carências e responder pelos resultados.
Moçambique não é um quintal privado. O Estado não é uma panela reservada a quem segura a colher. E os direitos dos cidadãos não podem ficar à espera da sua vez.