O rei de Marrocos nomeou, na terça-feira, Fátima Ezzahra El Mansouri, presidente da Câmara Municipal de Marraquexe, para o cargo de primeira-ministra, tornando-a a primeira mulher a assumir a chefia do Governo marroquino.
A nomeação ocorreu depois de o Partido da Autenticidade e Modernidade (PAM), de centro-direita, ter vencido as eleições legislativas realizadas na semana passada, conquistando 97 dos 395 lugares da Câmara dos Representantes, mais 31 do que o segundo partido mais votado. Segundo o Gabinete Real, o rei Mohammed VI incumbiu El Mansouri, de 50 anos e antiga ministra da Habitação, de formar o novo Governo.
Após a nomeação, a nova primeira-ministra considerou a decisão “verdadeiramente histórica”, destacando o facto de ser a primeira mulher a assumir a liderança do Governo de Marrocos.
“Pela primeira vez na história do nosso país, uma mulher assume a responsabilidade de liderar o Governo”, afirmou El Mansouri, acrescentando que a nomeação constitui motivo de orgulho para todas as mulheres marroquinas. Sem maioria absoluta no Parlamento, o PAM terá de estabelecer uma coligação com outros partidos para formar o Governo. Apesar disso, o rei mantém amplos poderes sobre as principais orientações políticas do país. “O trabalho começa hoje”, declarou El Mansouri, que anunciou consultas internas no partido antes de iniciar negociações com as restantes forças políticas.
El Mansouri aderiu ao PAM em 2008, ano da fundação do partido pelo actual conselheiro real Fouad Ali El Himma. Em 2009, tornou-se a primeira mulher a exercer o cargo de presidente da Câmara Municipal de Marraquexe. Perdeu o cargo seis anos depois, mas regressou à presidência do município em 2021.
DESEMPREGO E CUSTO DE VIDA ENTRE OS DESAFIOS
O novo Governo terá pela frente desafios relacionados com o desemprego, o custo de vida e as desigualdades sociais, que afectam particularmente a população jovem.
As eleições legislativas ocorreram poucas semanas depois de dezenas de milhares de migrantes, na sua maioria jovens marroquinos, terem entrado no enclave espanhol de Ceuta, numa crise que evidenciou as dificuldades socioeconómicas enfrentadas pela juventude.
O processo eleitoral decorreu também um ano depois de manifestações protagonizadas pela chamada Geração Z, que exigiu melhorias nos sectores da saúde e da educação. El Mansouri reconheceu que o novo Governo enfrentará grandes expectativas por parte da população, sobretudo dos jovens. “Estamos plenamente conscientes de que este período será significativo e marcado por grandes expectativas dos marroquinos, em particular dos jovens”, afirmou, prometendo apresentar “soluções concretas e realistas” para as preocupações dos cidadãos.
Durante a campanha, o PAM prometeu alcançar um crescimento económico médio anual de cinco por cento, manter a inflação nos dois por cento e criar pelo menos um milhão de novos empregos ao longo dos cinco anos de mandato. Nas eleições, o PAM foi seguido pelo Reagrupamento Nacional dos Independentes (RNI), que liderava a anterior coligação governamental e conquistou 66 lugares. O partido de direita Istiqlal ficou em terceiro lugar, com 65 lugares. Já o Partido da Justiça e Desenvolvimento (PJD), de oposição e de orientação islamista, conquistou 54 lugares, registando uma recuperação significativa face às eleições de 2021, quando obteve apenas 13 assentos.
O PJD centrou parte da sua campanha no combate à corrupção. O seu líder e antigo primeiro-ministro, Abdelilah Benkirane, classificou os resultados como uma “vitória”, mas afastou a possibilidade de integrar uma coligação liderada pelo PAM, partido que acusou de estar “manchado por fraudes”, sem apresentar detalhes sobre as alegações.