Doze pessoas foram detidas em Inhambane, indiciadas de envolvimento numa tentativa de comercialização ilegal de produtos de espécies protegidas. Na operação, o Serviço Nacional de Investigação Criminal apreendeu cinco pontas de marfim, dentes de hipopótamo, outros produtos ainda sob investigação e 13.200 rands. O SERNIC diz que o grupo procurava compradores asiáticos e admite que o número de detidos poderá aumentar à medida que as investigações avançam.
Cinco pontas de marfim, dentes de hipopótamo e 13.200 rands colocaram doze pessoas nas mãos das autoridades em Inhambane e abriram uma investigação que pode estar longe de terminar. Os suspeitos são provenientes dos distritos de Vilankulo, Inhassoro e Mabote e, segundo o Serviço Nacional de Investigação Criminal, preparavam-se para negociar ilegalmente produtos de espécies protegidas quando foram surpreendidos.
O caso ganha dimensão não apenas pela quantidade de pessoas detidas, mas pelo circuito que o SERNIC suspeita estar por detrás do material apreendido. As informações preliminares recolhidas pelos investigadores indicam que o grupo procurava cidadãos asiáticos para negociar os produtos, numa operação cuja extensão e eventuais ligações a outras pessoas estão agora a ser apuradas.
Entre os doze detidos está um homem apontado pelas autoridades como líder do grupo e que exerce medicina tradicional. O suspeito admite que as pontas de marfim foram encontradas na sua residência, mas apresenta uma explicação diferente daquela sustentada pelos investigadores.
Segundo contou, o material teria sido recuperado num local associado aos seus antepassados depois de um sonho que o levou até ao ponto onde, segundo a sua versão, os objectos permaneciam enterrados há vários anos.
“Eu, ao dormir, como sou curandeiro, sonhei. Então fui lá onde ficavam os meus avós”, relatou o suspeito, acrescentando que encontrou o material enterrado e decidiu levá-lo consigo.
O homem sustenta que desconhecia aquilo que tinha encontrado e rejeita a acusação de que estivesse envolvido numa operação destinada à venda das pontas. A versão, entretanto, não encerra as dúvidas das autoridades, que procuram estabelecer de onde saiu o marfim, há quanto tempo estaria na posse dos suspeitos e em que circunstâncias começou a alegada procura por compradores.
Outro integrante do grupo também nega participação na negociação. Afirma que acabou envolvido no caso por estar no local quando as autoridades chegaram e garante que só percebeu que havia pontas de marfim quando o material foi retirado de um plástico durante a operação.
As duas versões integram agora um processo em investigação e terão de ser confrontadas com os elementos recolhidos pelo SERNIC.
A instituição apresenta, para já, um quadro diferente. Confirma que cinco pontas de marfim e dentes de hipopótamo estavam entre os produtos apreendidos e sustenta que havia uma tentativa de encontrar compradores para o material. Na mesma operação foram encontrados 13.200 rands, valor cuja eventual ligação à transacção também deverá ser esclarecida no decurso das investigações.
As autoridades trabalham ainda para determinar a origem exacta dos produtos apreendidos. Essa resposta será determinante para perceber se o caso começou com a posse e tentativa de venda do material ou se existe uma cadeia anterior envolvendo a obtenção, transporte e circulação dos produtos.
“O processo ainda está na sua fase de investigação. É muito complexo, envolve muita gente”, explicou o SERNIC, admitindo que os elementos já recolhidos podem conduzir a novas detenções.
“Nos próximos dias pode haver mais detidos em conexão com esta actividade”, acrescentou a instituição.
É justamente a possibilidade de existirem outros intervenientes que transforma a operação numa investigação mais ampla do que a detenção das doze pessoas inicialmente encontradas. O trabalho passa agora por reconstruir o percurso do material, identificar quem o colocou em circulação e perceber quem estaria do outro lado da alegada negociação.
As informações preliminares do SERNIC apontam para compradores asiáticos. A instituição refere, inclusive, a China entre os possíveis destinos ou mercados associados à comercialização pretendida, embora reconheça que este dado ainda deverá ser consolidado pela investigação.
“Um dado não menos importante é que estes pretendiam comercializar tanto na Ásia e na China. São dados preliminares”, afirmou o SERNIC, ressalvando que será o processo a determinar com maior precisão o mercado a que os produtos se destinavam.
A cautela é relevante porque, nesta fase, as autoridades confirmam a apreensão e a detenção dos suspeitos, mas ainda procuram estabelecer toda a cadeia que estaria por detrás do negócio. Também não está esclarecido, com base nas informações disponibilizadas até agora, se os compradores já estavam identificados ou se havia apenas contactos destinados a encontrá-los.
Os suspeitos detidos são oriundos de Vilankulo, Inhassoro e Mabote, três distritos do norte da província de Inhambane. Mabote está entre as zonas da província onde ocorre presença de elefantes, um dado que deverá igualmente entrar no cruzamento de informações enquanto se procura determinar a proveniência das cinco pontas apreendidas.
A origem é uma das respostas centrais que a investigação terá de produzir. As pontas podem revelar a existência de uma cadeia que começa muito antes do momento da venda e envolve diferentes intervenientes, mas, até que as diligências sejam concluídas, não é possível estabelecer a partir da apreensão, por si só, onde e em que circunstâncias os animais terão sido mortos nem atribuir essa eventual acção aos doze detidos.
O mesmo se aplica aos dentes de hipopótamo e aos restantes produtos apreendidos, cuja proveniência e percurso permanecem sob investigação.
Para o SERNIC, a complexidade do processo resulta precisamente do número de pessoas que poderão ter participado nas diferentes etapas. As diligências deverão procurar estabelecer as relações entre os doze suspeitos, a forma como o material chegou às suas mãos, quem procurava os compradores, qual seria o valor da transacção e se os 13.200 rands encontrados durante a operação têm relação directa com o negócio investigado.
Enquanto isso, os suspeitos apresentam versões que procuram afastá-los da alegada comercialização. Um diz ter encontrado o marfim depois de um sonho e afirma desconhecer aquilo que guardava. Outro garante que apenas estava no local quando as autoridades chegaram.
Do outro lado está uma investigação criminal que sustenta ter interrompido uma tentativa de venda de produtos de espécies protegidas e que admite chegar a mais pessoas.
As cinco pontas de marfim apreendidas são, por enquanto, a parte visível do caso. O que o SERNIC procura descobrir agora é o percurso que fizeram até chegar àquele grupo — e quem mais estava nesse caminho.