A antiga basquetebolista Clarisse Machanguana critica a gestão do basquetebol moçambicano e aponta a falta de investimento como uma das causas do fraco desenvolvimento da modalidade. A antiga internacional, que fez história como a primeira e única moçambicana a jogar na WNBA, diz que os interesses pessoais de alguns dirigentes comprometem os objectivos desportivos.
Clarisse Machanguana foi convidada da Grande Entrevista da Stv desta semana, onde, durante uma hora, revisitou o seu percurso desportivo e a experiência adquirida nas grandes ligas mundiais, com destaque para a WNBA.
Machanguana começou por criticar a situação actual do basquetebol, que, segundo afirma, tem sido condicionada pela existência de agendas pessoais de alguns dirigentes desportivos.
“O que a Federação faz e tem feito, não está a resultar e que as pessoas que lá estão, infelizmente, têm agendas, que nem sempre a modalidade é prioridade e que às vezes comprometem o resultado da própria instituição. Mas quem tem que exigir este resultado somos nós, os moçambicanos, mas não só quem está nas lideranças, mas também os moçambicanos.”, critica Machanguana.
Para Clarisse, a sua candidatura à presidência da Federação Moçambicana de Basquetebol serviu de escola e permitiu-lhe perceber melhor os problemas que afectam a modalidade no país.
“Eu diria que o meu processo a essa candidatura foi uma das melhores escolas de aprendizagem do porquê as coisas não funcionam em Moçambique, porquê os nossos resultados vão abaixo daquilo que se pretende e porquê continuamos a repetir os mesmos erros. Foi esse o maior aprendizado e também reforçou a consciencialização minha de que não preciso de um título para fazer o bem, não preciso de um título para passar o meu conhecimento, não preciso de um título para contactar universidades ou equipas profissionais e para fazer com que um jovem que tem talento, que tem fome, que é disciplinado vá lá fora. Portanto, não preciso esperar que Moçambique acredite em mim para fazer ou que veja a necessidade de usar o meu “know-how” para passar para os jovens. Foi esse o aprendizado.”, explica a antiga basquetebolista.
A antiga atleta e actual empreendedora social critica também o actual modelo de financiamento do desporto, defendendo maior investimento nas infra-estruturas e na formação de pessoas com capacidade para liderar.
“Sem infra-estruturas faz-se um desporto com muita deficiência, faz-se um desporto em que não se pode atingir o máximo nível porque faltam elementos importantes. Mas eu comecei a jogar basquete há, se calhar, 40 anos e as infra-estruturas já não eram boas. Esse não é o único cancro que impede que os resultados que tanto sonhamos sejam conquistados. Eu diria que é a liderança, é o modelo desse núcleo, desse processo. O investimento político teria, se calhar, de ser em estudar como são eleitas essas pessoas, qual é a finalidade das pessoas que lá vão e como é que se exige resultados, como é que se avalia os resultados e como é que se substitui imediatamente quem não está a produzir. Se o cancro está na liderança, tudo o resto que vem não fará sentido”, anota.
Machanguana afastou-se do desporto para se dedicar a outras questões sociais, entre elas a problemática da qualidade da educação.
“Mas enquanto os alunos que saírem do ensino do liceu, do ensino secundário, não estarem à altura de produzir para uma sociedade melhor, significa que houve falhas no processo, seja de ensinamento, seja de falta de cadernos, seja de falta de práticas de ensino, qualquer que seja a natureza, a verdade é que o maior cancro está no que aprendemos, porque se não aprendemos, não somos capazes de ter as qualidades ideais para nós melhorarmos. A educação que bebemos e que se transforma naquilo que vemos em casa e que se transforma naquilo que queremos ser na sociedade e que parte de um primeiro professor, que se diz a palavra errada já me condiciona, tanto a educação, sem margem de dúvida.”, conclui.
A antiga basquetebolista critica ainda o que considera ser um tratamento privilegiado ao futebol, em detrimento de outras modalidades, e defende maior equilíbrio na distribuição dos investimentos no desporto.