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SMM perde mais de 700 milhões de meticais após queda de 35% nas vendas em 2025

A Sociedade Moçambicana de Medicamentos (SMM) terminou 2025 com um prejuízo consolidado de 74,6 milhões de meticais, depois de ter registado um lucro de 639,9 milhões no ano anterior. A empresa viu as vendas recuarem 35,5% e reconhece que o facto gera uma exposição crescente aos riscos de crédito e liquidez.

A Sociedade Moçambicana de Medicamentos (SMM), empresa detida a 100% pelo Instituto de Gestão das Participações do Estado (IGEPE), fechou o exercício económico de 2025 com uma forte deterioração dos seus resultados financeiros, passando de um lucro consolidado de 639,9 milhões de meticais, em 2024, para um prejuízo de 74,6 milhões, no ano passado.

Os dados constam do relatório e contas da empresa, referente ao exercício findo em 31 de Dezembro de 2025, disponibilizado pelo IGEPE, e revelam uma inversão de cerca de 714,5 milhões de meticais no resultado anual.

A principal pressão sobre o desempenho da empresa veio da redução das vendas. As receitas consolidadas provenientes da venda de bens e serviços caíram de 340,7 milhões de meticais, em 2024, para 219,8 milhões em 2025, uma redução de 120,9 milhões, equivalente a 35,5%.

A queda da facturação ocorreu num período em que a empresa continuou a suportar custos operacionais significativos. Os gastos com pessoal aumentaram de 33,6 milhões para 35,5 milhões de meticais, enquanto os fornecimentos e serviços de terceiros passaram de 28,2 milhões para 44,2 milhões.

As amortizações foram uma das rubricas que mais pressionaram as contas, tendo subido de 41,7 milhões para 89,2 milhões de meticais.

O efeito conjugado da redução das receitas com o aumento de vários custos levou o resultado operacional consolidado a aprofundar-se no vermelho. Em 2025, o Grupo SMM registou um resultado operacional negativo de 65,8 milhões de meticais, contra 30,7 milhões negativos no exercício anterior.

Apesar do prejuízo registado pelo grupo, a Sociedade Moçambicana de Medicamentos, individualmente, terminou 2025 com um resultado positivo de 10,1 milhões de meticais. O valor, contudo, representa uma quebra de aproximadamente 98,5% face aos 674,7 milhões de meticais de lucro registados em 2024.

O relatório recomenda, por isso, cautela na comparação directa dos resultados dos dois exercícios. Em 2024, tanto o Grupo como a SMM individual beneficiaram de um resultado extraordinário de 667,4 milhões de meticais.

Segundo o documento, os resultados extraordinários daquele exercício decorreram, essencialmente, da valorização da participação financeira da SMM na Indústria Farmacêutica de Moçambique, Lda.

Essa operação não se repetiu em 2025, deixando a empresa mais dependente do desempenho da sua actividade corrente. Assim, a passagem de um lucro excepcionalmente elevado para um resultado negativo resulta da combinação entre a ausência daquele ganho extraordinário e a deterioração dos indicadores operacionais.

Para além da queda das vendas, as contas revelam pressão sobre a tesouraria da empresa. A caixa e os depósitos bancários do Grupo terminaram 2025 em cerca de 10,1 milhões de meticais, contra 46,9 milhões no fim de 2024, uma redução superior a 36 milhões de meticais.

É, contudo, na gestão dos riscos que o relatório apresenta alguns dos sinais mais relevantes para a situação financeira da empresa.

Ao analisar o risco de crédito, observa-se no documento que “a SMM tem um risco significativo de crédito porquanto as suas vendas são realizadas a crédito”.

A exposição máxima a este risco aumentou de 137,4 milhões de meticais, em 2024, para 157,6 milhões em 2025. Do total, 87,2 milhões correspondiam a valores de clientes e 70,3 milhões a devedores diversos.

Ou seja, num ano em que a empresa vendeu menos 35,5%, aumentou simultaneamente o montante exposto ao risco de não cobrança. A capacidade de transformar vendas em dinheiro disponível passa, assim, a assumir maior importância para a sustentabilidade financeira da SMM.

O relatório também chama a atenção para o risco de liquidez, particularmente relevante num contexto de redução da caixa e manutenção de compromissos financeiros.

“O risco de liquidez é o risco de a empresa não ter capacidade financeira para satisfazer os seus compromissos associados a instrumentos financeiros quando estes vencem”, lê-se no documento.

Para fazer face a este risco, a administração explica que acompanha os prazos dos activos e passivos e projecta os fluxos de caixa futuros. A estratégia passa por “manter o equilíbrio entre a continuidade do financiamento e a flexibilidade”, recorrendo, entre outros mecanismos, a descontos bancários, locações financeiras e à cobrança das vendas e prestações de serviços.

A necessidade de reforçar a liquidez ganha peso tendo em conta que o Grupo apresentava, no fim de 2025, empréstimos obtidos de 358,3 milhões de meticais. Deste montante, 284,5 milhões correspondiam a financiamento de médio e longo prazo associado à PHARMATECH FZCO.

O relatório esclarece, entretanto, que a classificação desse financiamento foi corrigida, sem impacto no total dos passivos, no capital próprio ou nos resultados apresentados.

As contas identificam ainda uma retribuição contingente de 48,6 milhões de meticais decorrente de um acordo extrajudicial celebrado com o Banco Nacional de Investimentos, em Outubro de 2024.

Apesar da deterioração dos resultados, os auditores independentes não identificaram matéria que os levasse a pôr em causa as demonstrações financeiras apresentadas pela empresa.

Na sua opinião, as demonstrações financeiras consolidadas e individuais apresentam “de forma apropriada, em todos os aspectos materiais”, a posição financeira da SMM a 31 de Dezembro de 2025, assim como o seu desempenho financeiro e os fluxos de caixa do exercício.

A administração, por sua vez, afirma ter preparado as demonstrações financeiras com base no pressuposto da continuidade das operações e declara não ter conhecimento de qualquer situação que possa colocar em causa a continuidade da empresa num futuro previsível.

O prejuízo de 74,6 milhões de meticais não significa, por si só, que a SMM esteja em situação de insolvência ou tenha interrompido as suas operações. A empresa continua a apresentar activos relevantes e mantém uma participação de 49% na Indústria Farmacêutica de Moçambique, avaliada em 1,176 mil milhões de meticais.

Ainda assim, os resultados de 2025 expõem uma deterioração que vai além da simples queda do lucro. A empresa vendeu menos, agravou o resultado operacional, terminou o exercício com uma disponibilidade de caixa significativamente inferior e aumentou a exposição ao risco de crédito.

Para uma empresa pública considerada estratégica no sector farmacêutico, a recuperação dependerá agora da capacidade de aumentar as vendas, acelerar a cobrança de valores em dívida, controlar os custos e melhorar a geração de caixa.

Depois de um 2024 impulsionado por um ganho extraordinário superior a 667 milhões de meticais, a SMM encerra 2025 numa posição que exige maior desempenho da actividade operacional. O desafio passa por transformar a capacidade produtiva e os activos que ainda detém em receitas recorrentes e liquidez suficiente para sustentar as suas operações.

 

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