Luís Figo acusa Gianni Infantino de “forçar alterações significativas apenas para se enriquecer e aos amigos”, num artigo de opinião no qual diz ser “tarde demais para salvar a dignidade” do presidente da FIFA, “mas não para salvar o futebol”.
Luís Figo assina um extenso e arrasador artigo de opinião na edição desta quarta-feira do jornal britânico Daily Mail, no qual não poupa nas críticas tecidas a Gianni Infantino, na sequência da fracassada proposta de criação da FIFA Forward Enterprise (FFE), subsidiária que seria aberta a investimento privado e que teria como objectivo concentrar as operações comerciais das provas organizadas pelo organismo (entre elas, o Mundial).
“Podia escrever 10 mil palavras sobre os problemas da FIFA. Mas a solução precisa apenas de três: Infantino deve sair. Amei o futebol durante toda a minha vida. Fui jogador profissional durante 20 anos. E, acreditem em mim, deparei-me com alguns bandidos, no meu tempo na modalidade. Mas aquilo que vi exposto, nos dez últimos anos, é o mais baixo, mais enganador e mais cobarde comportamento de interesse próprio que alguma vez testemunhei”, começou por escrever.
“O homem que daria isso – o homem que tentaria forçar alterações tão significativas apenas para se enriquecer e aos amigos – é uma relíquia do passado da modalidade, e não deveria ter lugar no seu futuro. Se fosse uma ideia tão boa, por que não dizer aos teus membros, quando os tiveste todos numa sala, antes da final do Mundial? Se era um plano tão robusto, por que não contar aos teus membros os riscos, assim como aquilo que descreves como benefícios?”, prosseguiu.
“Se o esquema era simples, por que não ser honesto com o facto de que te daria um emprego de 30 milhões de dólares por ano, no final? Mas nada disto foi feito, porque não era uma boa ideia. Não é robusto quando não és transparente sobre os retornos incapacitantes que os investidores privados iriam procurar. Não é ousado quando não explicas que, ao venderes a tua parte, vai-se para sempre e deserdaste os teus sucessores de deterem o Mundial”, completou.
O antigo internacional português acusou, ainda, o advogado ítalo-suíço de não ser “honesto”, por não ter mencionado que, depois de “ter entregue o grosso do Mundial numa bandeja aos companheiros, em Washington DC”, teria direito a um “emprego que valeria cinco vezes mais do que o salário atual”.
NEM DONALD TRUMP ESCAPA À IRA DE FIGO
No entanto, Luís Figo (que chegou a apresentar uma candidatura à presidência da FIFA, em 2015, antes de desistir da mesma, por dúvidas relacionadas com a natureza democráticas das eleições) não ficou por aqui: “Nada disto é uma surpresa quando consideremos a litania de abusos que ele infligiu na reputação do futebol; desde suspender e reverter decisões disciplinares a violar as leis do jogo por um espectáculo ao intervalo, nada o impede de agradar aos amigos”.
“Também não é uma surpresa quando lês os comentários de Prince Ali [o presidente da Federação de Futebol da Jordânia] sobre o comportamento similar ao da máfia da FIFA de Infantino; obstruindo o seu trabalho e financiamento na federação, de maneira a garantir uma carta de apoio para que o reino de terrível interesse próprio possa continuar. O futebol precisa, sim, de uma discussão sobre dinheiro. Mas não do dinheiro que pode ir para fora da modalidade, para investidores ou salários inflacionados de administradores”, atira.
“Comecemos pelos cinco mil milhões de dólares das reservas da FIFA. Quantas ações poderia isso comprar nesta trama suja e dissimulada? Todas! Por isso, não é preciso investimento externo, afinal. Este plano – tal como o da Superliga [Europeia] que o antecedeu – foi cilindrado pela comunicação social, que expôs contornos desonestos, antes de os seus defensores alinharem o discurso. E graças a Deus que assim foi”, acrescenta.
“Infantino devassou o escritório do presidente da FIFA que prometeu elevar. Mentiu, enganou e tentou subir às custas da modalidade que é suposto servir. Ele perdeu o apoio dos seus principais funcionários, dos mais próximos conselheiros, da vasta maioria das pessoas que dedicaram as vidas a este desporto, e, parece, até, do vencedor do Prémio de Paz da FIFA [Donald Trump]. É demasiado tarde para salvar a sua dignidade, mas não é demasiado tarde para salvar o futebol. Ele tem de sair. Já”, conclui.