Os agentes económicos dizem que a falta de uma relação saudável entre o sector público e o privado pode ser um dos principais problemas que dificultam o acesso ao financiamento pelas empresas nacionais. Os pronunciamentos foram feitos nesta quinta-feira, durante a divulgação das métricas empresariais da FUNDEC.
As dificuldades de acesso ao financiamento do sector empresarial no País não são de hoje, mas continuam a tirar o sono ao sector privado.
Durante os painéis de discussão promovidos pela FUNDEC, nesta quinta-feira, os empresários voltaram a sentar-se à mesa para debater as razões da persistência das dificuldades de acesso ao financiamento, apesar da disponibilidade de verbas por parte das instituições financeiras internacionais. Os agentes económicos dizem que a falta de uma relação saudável entre o sector público e o privado pode ser um dos principais problemas que dificultam o acesso ao financiamento das empresas no País.
A solução para o financiamento das empresas e para a empregabilidade depende do investimento público, com a promoção de grandes projectos. Outras soluções passam pela gestão dos riscos. A curto e médio prazo, defende-se que o Estado deverá trabalhar para a redução dos riscos sistémicos.
Inocêncio Paulino | Presidente Honorário da APME
Eu acredito que esta relação pouco saudável entre o sector privado e o sector público também pode estar a contribuir negativamente. Por vezes, é necessário um no objection ou uma aceitação por parte do Estado ou, por exemplo, de um determinado sector a nível distrital. Imaginemos que seja no sector da energia: o ministério competente, por vezes, tem de reconhecer que determinado projecto é relevante, importante e que contribui para a melhoria das condições de vida da população em várias dimensões.
Mas, como não existe esta troca de informação nem complementaridade de esforços, estas linhas de financiamento destinadas às PME podem acabar por ficar comprometidas. Basta olhar para o custo do dinheiro. Estamos a falar de taxas acima dos 20%. É muito difícil, em Moçambique, encontrar um negócio que gere mais de 30% de lucro.
Se olharmos para todo o ambiente de negócios, para as suas complexidades e até para a questão das comissões informais que acabam por existir, torna-se muito difícil justificar, junto da banca, que um projecto é viável, porque os bancos analisam os números e concluem que não existem margens de lucro suficientemente confortáveis.
Roberto Tibana | Economista
O crescimento económico de Moçambique acelerou em vários momentos, sobretudo em períodos de grandes obras de reconstrução pós-desastre ou de construção de novas infra-estruturas. Refiro isto porque estas obras criam um ambiente favorável à actividade económica, sobretudo numa altura em que a economia enfrenta diversos choques.
As grandes infra-estruturas, sejam elas novas ou de reconstrução, são fundamentais. Se olharmos para 1995, 2006 e 2010, verificamos taxas de crescimento próximas dos 6%. Recordamo-nos das grandes obras que decorriam, particularmente em Maputo, mas também noutras regiões, com construção de estradas, pontes e outras infra-estruturas.
O que quero demonstrar é o papel do Estado na criação de um ambiente empresarial favorável, que não passa apenas pelo crédito, mas também pelas estradas, pelas pontes e pela redução do risco operacional enfrentado pelas empresas. As empresas terão de actuar com muita prudência, e o Estado terá de investir fortemente na redução dos riscos operacionais, o que implica mais investimento público e um forte investimento na formação.
Falamos de 40 anos de crescimento económico e, ainda assim, as empresas continuam a queixar-se da falta de mão-de-obra qualificada. Formar mão-de-obra qualificada exige uma geração inteira. Actualmente, o índice de capital humano de Moçambique ronda os 40%. Isto significa que uma criança que nasce hoje, quando atingir a idade produtiva, terá apenas cerca de 40% do potencial que teria caso crescesse com um sistema de saúde, educação e formação de qualidade.
Se continuarmos a tratar as nossas crianças da forma como temos tratado, daqui a 24 anos a produtividade da nossa força de trabalho continuará muito abaixo do seu potencial.
Singapura apresenta um índice de capital humano na ordem dos 93%. Assim, hoje não temos qualquer hipótese de competir com esse país, apesar de termos portos que podem constituir uma base importante para o desenvolvimento da nossa economia e do nosso sistema financeiro.
Santos Magaia | Administrador Executivo da EMOSE
Verificamos que a transformação económica de Moçambique exige que as PME cresçam e se formalizem. Uma empresa segurada tem maior probabilidade de sobreviver a uma crise e de competir a nível nacional e regional. Sem seguros, o tecido empresarial permanece frágil e vulnerável aos choques externos.
A competitividade empresarial começa com uma gestão profissional do risco, porque o risco está sempre presente quando as empresas investem. Por isso, é fundamental que exista uma componente de seguro para proteger esse investimento. Na apresentação anterior falou-se das pequenas e médias empresas e das garantias exigidas para a obtenção de financiamento. É precisamente aí que está uma das chaves para o sucesso no acesso ao crédito.
Normalmente, os bancos comerciais consideram as pequenas e médias empresas entidades de elevado risco, porque não dispõem de colaterais líquidos que facilitem o acesso ao crédito. Como consequência, verifica-se um acesso difícil ao crédito bancário, a aplicação de taxas de juro elevadas e, muitas vezes, a concessão de financiamentos com prazos muito curtos.
A ferramenta do seguro é essencial para apoiar as PME no acesso ao crédito e ao financiamento.