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Mais de 400 regressados da África do Sul após ataques xenófobos já em Gaza

Mais de 400 cidadãos moçambicanos repatriados da África do Sul começaram a chegar à província de Gaza, fugindo de uma nova vaga de violência xenófoba que, segundo relatos das vítimas, provocou mortes, feridos e a destruição de bens de estrangeiros em várias localidades sul-africanas.

Entre lágrimas, ferimentos e poucas bagagens, os repatriados descrevem dias de terror marcados por perseguições, agressões físicas e incêndios. Muitos afirmam ter abandonado os seus locais de residência apenas com a roupa que traziam no corpo, deixando para trás casas, negócios e outros bens acumulados ao longo de vários anos de trabalho.

Uma das vítimas, Lídia Pedro, relatou ter perdido seis familiares durante os ataques. Segundo contou, quatro morreram no primeiro dia da violência e outros dois perderam a vida nas horas seguintes.

“Vivemos coisas muito tristes. Pessoas foram queimadas, outras mortas. Eu, o meu bebé e o meu marido também poderíamos não estar vivos neste momento”, afirmou.

Outro repatriado, identificado apenas por Comé, contou que a sua esposa foi brutalmente agredida durante os confrontos. Segundo relatou, tentou defendê-la, mas acabou também atacado.

“Bateram-me até deixar o meu braço neste estado. A minha esposa ficou com ferimentos internos. Conheço pelo menos seis pessoas que foram queimadas vivas”, disse.

Os testemunhos apontam para uma situação mais grave do que aquela que tem sido oficialmente reportada. Algumas vítimas afirmam que muitos casos de morte e desaparecimento ainda não foram contabilizados pelas autoridades.

Um dos regressados relatou ter perdido um familiar que continua numa casa mortuária na África do Sul, após ter sido atingido com golpes de arma branca e apedrejado durante os ataques.

Além das perdas humanas, muitos moçambicanos regressaram sem qualquer património. Um dos repatriados contou ter deixado para trás um veículo avaliado em cerca de 40 mil dólares, além de outros bens que não conseguiu recuperar.

Face ao aumento do número de regressados, as autoridades moçambicanas activaram mecanismos de assistência humanitária para apoiar as famílias afectadas. O Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD) transformou o distrito de Bilene num ponto de acolhimento e assistência aos cidadãos provenientes da África do Sul.

Segundo o porta-voz do INGD em Gaza, Bonifácio Cardoso, “cada agregado familiar está a receber um kit alimentar de emergência destinado a garantir o sustento durante os primeiros dias após o regresso ao País”.

“Os kits incluem farinha de milho, arroz, feijão, açúcar e óleo alimentar”, disse Bonifácio Cardoso, explicando ainda que “as autoridades estão a proceder ao registo e triagem dos repatriados para determinar o número exacto de pessoas afectadas” e garantir o encaminhamento da ajuda para os respectivos distritos de origem.

As projecções apontam para cerca de 400 cidadãos moçambicanos já identificados, mas o número poderá aumentar nos próximos dias. “As autoridades moçambicanas na África do Sul alertaram que novos grupos de compatriotas continuam a manifestar intenção de regressar ao País, devido ao agravamento da situação de insegurança”, disse o representante do INGD.

Enquanto aguardam apoio para recomeçar a vida em Moçambique, muitos dos repatriados deixam um apelo às autoridades nacionais para a criação de mais oportunidades de emprego e geração de rendimento, afirmando que a falta de trabalho foi a principal razão que os levou a procurar melhores condições de vida na África do Sul.

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