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Elevados custos dos combustíveis “asfixiam” produtores agrícolas em Gaza

A crise de combustíveis prossegue e agora, para além das viaturas particulares, agrava a pressão sobre a agricultura, já de rastos após três vagas de inundações em Gaza. Os agricultores denunciam a subida dos custos de produção e exigem medidas estruturantes para aliviar o sector do sufoco.

Os preços dos combustíveis estão cada vez mais insuportáveis para quase todos os sectores de actividade. Os produtores agrícolas engrossam as estatísticas das vítimas da subida dos preços dos combustíveis nos distritos de Xai-Xai, Guijá e Chókwè, na província de Gaza.

“É um sofrimento. Tentamos produzir sem sucesso. Afinal, aonde vamos com este sofrimento? Até quando, não se sabe. Talvez eles [o Governo] possam saber”, questionou uma produtora do distrito de Chókwè.

Por sua vez, Estevão Mugabe, de 65 anos de idade e produtor há mais de 30 anos, considerou que, além do agravamento dos preços dos combustíveis, a persistência da indisponibilidade do gasóleo nos postos de abastecimento agrava a pressão sobre a agricultura no chamado “celeiro da nação”.

“Tenho mais de 10 hectares que esperam por intervenção. Além disto, trabalho com quatro associações agrícolas. Mas estamos há quase um mês à procura de gasóleo sem êxito”, lamentou.

E porque há um mês se perde mais tempo à procura de combustíveis, os prejuízos não param de aumentar.

“Estou a perder receitas na ordem dos 30 a 40 mil meticais. Pedimos pelo menos 20 ou 40 litros por dia”, concluiu.

Na sequência das mexidas em alta dos preços do gasóleo, cultivar os campos agrícolas com recurso a tractor ficou mais caro. Os operadores de tractores passaram a cobrar entre 4.500 e 5.000 meticais por hora, contra os anteriores 3.000 meticais. A isto somam-se outros custos, incluindo sementes, denunciou Miguel Lopes, líder de uma associação agrícola do Guijá.

“Estamos perante uma guerra sem solução. Estamos desesperados. Não há comida, produção, gado, nem tractores. Temos sementes, mas como iremos relançar a produção?”

Com mais de 40 rombos nos diques de defesa nos distritos de Chókwè e Xai-Xai, os produtores destacam que a inoperacionalidade das motobombas faz com que os agricultores acumulem ainda mais prejuízos.

“Preocupa-me como alimentar-me. Não temos motobomba para puxar a água das machambas para as valas. Não há produção e toda a baixa está cheia de água, incluindo a minha machamba, onde já estão a pescar”, considerou outro produtor.

Além disso, o assoreamento das valas após as cheias é também apontado pelos produtores de Xai-Xai como entrave para um sector com potencial para aliviar a inevitável subida dos preços dos alimentos nos mercados locais.

“Já não era necessário vivermos dependentes de Chókwè, de Maputo ou da Boane. Na época fresca, esta machamba poderia abastecer todo o Xai-Xai em produtos agrícolas, mas nada está a ser feito, porque as valas não estão limpas”, disse a líder de uma associação agrícola de Xai-Xai, Rita Amade.

Além de sementes, os agricultores pedem uma intervenção estruturante do Governo para tirar o sector agrícola do sufoco.

“Aqui nós semeamos milho, hortícolas, feijão e cebola, mas tudo isso está a ser devastado. Mesmo que precisemos dessa ajuda, quando há inundações nada pode ser feito. Portanto, não há como alguém poder desbravar a sua machamba”, apelou Mário Mavaie, líder comunitário de Xai-Xai.

Refira-se que a conjugação das três vagas de inundações deixou prejuízos avaliados em quatro mil milhões de meticais no sector e mais de 160 mil produtores em risco de fome.

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