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EXPECTATIVISMO: CRÓNICA DE UM ESCRITOR QUE APENAS ESCOLHEU SER LIVRE

Sou escritor, com vista a explorar ao máximo o meu talento, resolvi dedicar-me a tempo inteiro ao ofício de escrever. Depois de uma inadaptabilidade como professor de química, profissionalmente, já no início da minha carreira literária, colaborei no Semanário Savana, na sua Página Juvenil, ao mesmo tempo que escrevia para o cultural do mesmo jornal. Nessa linha, outras ocupações tive e, transcorridas mais de três décadas, sem bajulações à academia ou aos escritores anteriormente consagrados, que praticamente controlam os mecanismos institucionais de afirmação literária, consegui publicar um conjunto de livros que, por si, conseguiram captar favoravelmente a atenção da crítica, quer a nível nacional, quer internacional.

Nas ocupações profissionais mantidas por mim ao longo desse período, nunca foi minha preocupação o facto de me pagarem miseravelmente, conquanto me deixassem com a maior parte do tempo para dedicar-me à literatura. Ao mesmo tempo que lia e escrevia, dedic(o)ava-me à observação do comportamento humano. Nisso o meu desinteresse pela busca de ocupações que pudessem atolar-me em jornadas laborais, possivelmente com melhores remunerações, manteve-me sempre imune ao espírito bajulador e à hipocrisia. Conservei sempre a liberdade de me expressar, sem temores que mantêm a mente da maioria dos homens agrilhoada. Desde cedo compreendi que a fome saciável pelos bens materiais empurra os homens para morar numa espécie de gaiola de ouro. A minha fome buscou sempre satisfazer-se pela criação literária, garantindo apenas o básico para manter-me biologicamente vivo.

Nessa observação do comportamento humano, principalmente entre aqueles que se apegam obstinadamente aos cargos administrativos, percebi como a vida pode tornar-se uma constante alienação pela capacidade de consumo, muitas vezes a revelar-se uma ratoeira para quem tem por vocação pensar e escrever com a devida honestidade intelectual.

Paradoxalmente, os seres que sacrificaram essa liberdade, porque aprisionados no interminável ciclo de desejos e frustrações, vivem convencidos de que todo o espírito humano busca a satisfação no modelo de vida que abraçaram, ao mesmo tempo que desenvolvem uma incompreensível antipatia por aqueles que dedicam a vida à criação artística e literária, e se mostram realizados e satisfeitos com o que a vida lhes pode dar, sem quaisquer necessidades de alienação.

Na literatura moçambicana, como já fiz referência num artigo por mim publicado em jornal, na década inicial da independência nacional, razões históricas ligadas ao surgimento da primeira vaga de escritores, contribuíram para a formação de um campo literário marcado por dinâmicas específicas de legitimação e reconhecimento. Esses escritores, profundamente influenciados pelo contexto político e ideológico do período, acabaram por ocupar, de forma quase incontornável, os espaços institucionais de validação literária.

Com o passar do tempo, essa posição, já consolidada, transformou-se, em muitos casos, num mecanismo de controlo simbólico, onde o reconhecimento de novas vozes nem sempre depende do mérito literário, mas também da conformidade com determinadas expectativas ou redes de influência. Tal realidade cria obstáculos subtis, porém significativos, para escritores que optam ou optaram por caminhos de pensar de modo independente, afastados da lógica de alinhamento de ideias ou de validação institucional.

Ao entendermos a expectativa como o “acto ou estado de aguardar um acontecimento futuro, baseado em probabilidades ou no desejo por algo positivo“, encontramos a manifestação de um fenómeno cuja descrição, em língua portuguesa, não encaixa exactamente em nenhuma das palavras por mim conhecidas nesse idioma: o acto de aguardar um acontecimento futuro baseado em probabilidades desajustadas às expectativas de quem escolhe enveredar por caminhos independentes, afastados da lógica de alinhamento ideológico ou de validação institucional.

Porque, no caso da literatura moçambicana, tais obstáculos subtis são frequentemente mobilizados como tentativa de quebrantar os espíritos alérgicos à idolatria dos escritores consagrados na primeira república, ao mesmo tempo que o espectro do fracasso literário atemoriza muitos dos que buscam reconhecimento nos espaços institucionais de validação literária, e nunca pela capacidade criativa. Deste modo, no lugar de qualquer empenho intelectual, apenas delega-se a própria capacidade de pensar a um limitado grupo de quatro ou cinco escritores, que prescrevem ao rebanho o que deve ser visto como certo ou errado no panorama literário, facto que, ao longo dos anos, vem lançando para a inocuidade intelectual à maioria dos escritores, feridos pela aversão (?) ao pensamento próprio, temerosos do risco de rejeição dentro da manada. O risco de rejeição, ao mesmo tempo que usado por aqueles como instrumento domador, não deixa de funcionar como mera mordaça, cuja consequência imediata no individuo é a autocensura: nada inteligente nesse silêncio vende a ideia de ser-se amigo de todos. 

A nós outros, a quem calha corrermos tal risco, para além de enfrentar os obstáculos subtis, cercas um certo “expectativismo”, termo aqui cunhado no lugar do que se entenderia por “expectativa”. Por expectativismo entenda-se o acto ou estado de aguardar um acontecimento negativo na vida de quem não delega a sua capacidade de pensar aos quatro ou cinco guardiões da manada literária. Tal expectativismo baseia-se numa descartável probabilidade de que todos os escritores se ancoram às mesmas demandas, para sentirem-se realizados a nível pessoal: ser aceite num determinado grupo ou exercer algum cargo político-administrativo e respectivas benesses.

Nessa resultante, contra a minha pessoal aversão a citações, ocorre-me aqui José Alberto Gueiros: “Os medíocres são mais obstinados na conquista de posições. Sabem ocupar os espaços vazios deixados pelos talentosos displicentes que não revelam apetite pelo poder. Mas é preciso considerar que esses medíocres ladinos, oportunistas e ambiciosos têm o hábito de salvaguardar as suas posições conquistadas com verdadeiras muralhas de granito por onde talentosos não conseguem passar.

Na maioria das vezes, conquistado o poder no nosso meio literário, a sua manutenção valer-se-á de um granito quimicamente materializável através da manipulação, da mentira e da fofoca, buscando assim iludir aos incautos, aos degeladores de pensamentos e outros tantos logros intelectuais da concretizada desse expectativismo: Vejam o fulano f*deu, vive isolado, está a passar necessidades, pensava que isto ou aquilo não havia de acabar, etc, etc, etc. E nesse ápice, me ocorre assalta-me o cântico negro de José Régio: 

“Vem por aqui” – dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui!”
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
– Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: “vem por aqui!”?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios…
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
– Sei que não vou por aí!

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