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O auditor mostrou cartão amarelo: o projecto Moma ainda se aguenta?

Os números de 2025 da Kenmare Resources levantam questões que vão além de um mau ano no mercado. No mundo do investimento mineiro, há um sinal mais grave do que um prejuízo: quando o auditor inclui no relatório uma nota sobre incerteza material quanto à continuidade das operações.

Foi o que aconteceu com a Kenmare Resources em 2025. A própria empresa admite que a opinião da KPMG incluirá muito provavelmente essa referência. Em linguagem directa: existem dúvidas reais sobre se a empresa consegue continuar a funcionar. Três fios, todos sob tensão. O destino da Kenmare depende, neste momento, de três variáveis críticas, e nenhuma delas está resolvida.

A primeira é o Acordo de Implementação. Os direitos e benefícios fiscais expiraram em Dezembro de 2024. O Governo aprovou uma resolução interna com novas condições, incluindo royalties, IVA, direitos aduaneiros e impostos sobre o rendimento. A Kenmare considera que, se aplicadas na íntegra, estas condições terão um impacto material na sua liquidez.

A segunda é o financiamento. A empresa negoceia com quatro bancos a revisão dos covenants da sua linha de crédito. O relatório reconhece que estas alterações podem não ser acordadas atempadamente.  O rácio dívida líquida/EBITDA já atingiu 2,72 vezes, a um passo do limite de 3,0.

A terceira é o mercado. Os preços da ilmenite continuam a descer no primeiro trimestre de 2026 e ainda não tocaram os mínimos históricos. Qualquer queda adicional comprime directamente a geração de caixa. Qualquer um destes fios, isoladamente, já seria preocupante. Os três em tensão simultânea, é esse o cenário actual.

Os números falam por si: a dívida líquida passou de 25 milhões de dólares no final de 2024 para 158,8 milhões no final de 2025, multiplicou-se por mais de seis. A causa principal: o pico de investimento na modernização da WCP A, que consumiu cerca de 156 milhões num único ano, precisamente quando o mercado entrava em queda.

Na operação, a trajectória é igualmente desfavorável. O custo por tonelada de ilmenite, líquido de co-produtos, triplicou desde 2022 — de 62 para 187 dólares. A produção desceu de 1,12 milhões de toneladas em 2021 para 842 mil em 2025. Para 2026, a meta é ainda mais baixa: pouco acima de 800 mil toneladas. A margem de EBITDA ajustado caiu de 51% em 2021 para 19% em 2025. 

Em valor absoluto, passou de 214 milhões para 58 milhões de dólares. Custos a subir, produção a descer, margens a encolher. Se esta trajectória não se inverter, o modelo económico do projecto torna-se cada vez mais frágil. Um projecto que vale cada vez menos no papel

No teste de imparidade, a Kenmare descontou os fluxos de caixa futuros a 13% ao longo de 40 anos. Mesmo assim, o valor recuperável ficou 301 milhões abaixo do valor contabilístico.

A sensibilidade é reveladora: mais um ponto na taxa de desconto reduz o valor em 77 milhões; uma queda de 5% nos preços médios reduz em 159 milhões. Se o mercado continuar a deteriorar-se ou se o novo IA agravar a carga fiscal, outra ronda de imparidades é perfeitamente possível. O que deve Moçambique reter?

Há quem diga que, se a Kenmare não aguentar, Moçambique também perde.

O argumento tem lógica, mas só parcialmente.Os nove mil milhões de toneladas de recursos minerais não desaparecem com as dificuldades de um operador. Se a Kenmare não conseguir manter a operação, o que muda é quem explora, por aquisição, reestruturação ou novo concurso. 

Em 2025, aliás, a empresa já recebeu uma proposta de compra de um consórcio liderado pelo antigo Director-Geral Michael Carvill, rejeitada pelo Conselho de Administração por considerar que subavaliava a empresa.

O que esta crise revela é mais importante do que a crise em si: o enquadramento anterior do IA permitiu que o operador devolvesse mais de 300 milhões de dólares aos accionistas internacionais, sem acumular reservas suficientes para resistir a um ciclo desfavorável. Mal o mercado virou, a empresa ficou à beira do precipício financeiro. Essa fragilidade é um problema da Kenmare, não de Moçambique.

Na próxima ronda de negociações, a questão não é apenas qual a taxa de imposto. A questão de fundo é estrutural: garantir que, nos ciclos favoráveis, o projecto acumule retornos locais e capacidade de resistência, em vez de enviar todos os excedentes para o exterior e, quando o vento muda, pedir ao Estado que partilhe o custo.

O auditor já levantou o cartão amarelo. Os problemas da Kenmare são reais. Mas os recursos de Moçambique também o são. Quem precisa mais de quem, a resposta pode não ser aquela que a Kenmare gostaria que Moçambique acreditasse.

Com base no relatório 2025 Preliminary Results Announcement da Kenmare Resources (25 de Março de 2026). Dados e declarações citados provêm de documentos públicos da empresa.

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