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Quatro anos depois: a guerra que redesenhou a Europa e o mundo

Quatro anos após o início da guerra entre a Ucrânia e a Rússia, o conflito continua a produzir consequências que ultrapassam largamente o campo de batalha. A Europa foi forçada a rever a sua arquitectura de segurança, os mercados globais sofreram choques sucessivos e o Sul Global ressentiu-se do aumento do custo de vida e da volatilidade dos preços da energia e dos bens alimentares.

Em Setembro de 2025, integrei a equipa de profissionais de comunicação social da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa que realizou uma visita de trabalho à Ucrânia. Durante quase duas semanas, mantivemos encontros com membros do Governo, parlamentares, académicos, representantes de organizações da sociedade civil e cidadãos directamente afectados pela guerra. Tivemos igualmente reuniões com representantes da União Europeia e com líderes de países vizinhos.

O que se observa no terreno vai além da dimensão militar. Trata-se de um conflito sustentado por narrativas concorrentes. Para Kiev, a guerra representa a defesa da soberania, da integridade territorial e do direito à autodeterminação, princípios consagrados na Carta das Nações Unidas. Para Moscovo, o discurso centra-se na segurança estratégica, na oposição à expansão da NATO e na protecção de populações russófonas.

Estas narrativas não apenas legitimam posições internas, como também mobilizam apoios externos, tornando o conflito mais complexo e prolongado. O resultado é uma guerra que, embora territorialmente localizada, tem implicações sistémicas: reconfiguração das cadeias de abastecimento, aumento das despesas militares na Europa e intensificação da rivalidade entre potências globais.

Perante este cenário, a busca de um cessar-fogo sustentável exige uma abordagem multidimensional, assente, entre outros, nos seguintes eixos:

  • Reforço de uma mediação internacional credível, envolvendo organizações multilaterais, como as Nações Unidas, bem como actores regionais e Estados com posicionamento diplomático equilibrado;

  • Construção de medidas de confiança capazes de reduzir o risco de escalada e de promover canais permanentes de comunicação;

  • Desescalada discursiva e combate às narrativas de ódio, que alimentam a polarização e dificultam compromissos;

  • Negociação faseada e pragmática, privilegiando um processo gradual em detrimento de soluções maximalistas imediatas;

  • Plano de reconstrução e integração económica, cuja perspectiva de apoio financeiro internacional e de mecanismos de supervisão transparentes possa funcionar como incentivo adicional à cessação das hostilidades.

A paz, contudo, não será alcançada exclusivamente pela superioridade militar. Exigirá mediação internacional credível, medidas de construção de confiança, desescalada discursiva e um processo negocial faseado e pragmático. Igualmente determinante será a perspectiva de reconstrução pós-guerra, apoiada por financiamento internacional transparente e por garantias de segurança duradouras.

A experiência no terreno reforçou uma convicção essencial: a resolução do conflito dependerá da capacidade política de transformar narrativas de confronto em narrativas de coexistência. Quatro anos depois, a pergunta central mantém-se, não apenas no sentido de saber quem vencerá a guerra, mas que tipo de paz será possível construir.

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