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Mortes causadas por chuvas separam famílias em Xai-Xai

Cinco pessoas morreram durante as cheias que afectaram 15 mil pessoas e forçaram o isolamento de outras 14 mil no posto de Anguluzane, no distrito de Xai-Xai, na província de Gaza.

A trágica situação que está a abalar o mês do amor não resulta de um desgaste emocional ou dos corações, mas da fúria das águas que se abraçou ao vento e embateu forte na embarcação em que seguia o casal Malawene, para mais um dia de pesca na baixa de Inhamissa, na cidade de Xai-Xai, província de Gaza.

Foi tão trágico que, num piscar de olhos, o movimento em falso projectou o marido de Amélia Malawene para fora da embarcação artesanal, na baixa de Inhamissa.

Amélia ainda segurou a mão do esposo com a força de quem segura o único chão que lhe restava, mas nada impediu a separação naquele dia e naquele local.

“Eles tinham tudo, tinham salva-vidas, tinham bóias, mas tudo foi esquecido naquele dia”, conta a filha do malogrado, que revela que quem sempre ia a pesca era a mãe, “mas naquele dia que foi seu primeiro e último dia lá. Desapareceu um herói”, referindo-se ao pai.

Helena Tsamba, mãe do finado, confirma a história e diz que, “quando chegaram ao meio, um sopro de vento derrubou o barco, e a esposa não conseguiu segurá-lo, e, após três tentativas, perderam-se”.

Foram mais de 10 horas de busca, sem sucesso, e, quando a esperança de encontrar o corpo já desmoronava, Francisco António decidiu desafiar a força das águas nos arredores da torre eléctrica que está debaixo das águas do Inhamissa.

“Meti-me debaixo das bananeiras, e, dois por três, apareceu o tio daqui do nosso lado. Vimos aqui da cabeça, depois meti a corda e amarrei o tio. Depois ligamos para informar as pessoas que o tio já tínhamos encontrado”, contou Francisco António.

As feridas provocadas pela perda continuam abertas. A viúva e suas cinco filhas dizem estar a ser alvo de julgamento popular.

“De um ou de outro jeito, isso machuca muito o coração da família, e pedimos muita força, muito apoio, muito amparo neste momento, especialmente para a minha mãe, que é a que vivenciou este acidente”, apela a filha do malogrado.

No entanto, esta não é a única narrativa dolorosa e trágica provocada pela força imparável da natureza em Xai-Xai. Maria Comé, residente na baixa de Xai-Xai, conta que outras duas pessoas terão sido arrastadas pelas águas.

“Há duas senhoras que vinham de Fenicelene. Uma tinha bebé. As duas foram arrastadas pelas águas. Ouvi que só encontraram um corpo. Não sei se a outra, que tinha bebé, foi encontrada”, conta.

O governo distrital de Xai-Xai confirma apenas cinco mortes por afogamento pelas águas que encheram quase toda a extensão de terra da cidade capital de Gaza.

“Nós queremo-nos solidarizar com esta família que perdeu os seus entes queridos, no posto administrativo de Inhamissa. Estaremos próximos desta família. Nós temos cinco casos que, como Governo, temos confirmado, mas este trabalho continua. Não temos ainda a situação completamente controlada”, anunciou Argelência Chissano, administradora de Xai-Xai.

Enquanto isso, do outro lado do posto administrativo de Nguluzane, cinco comunidades continuam sitiadas e as populações enfrentam várias dificuldades. A população local diz que ainda não teve nenhum apoio das autoridades governamentais.

“Não vimos nenhuma ajuda do Governo, não estamos a ver nada. Estamos isolados mesmo, estamos sem comida. Estamos sem nada. Estamos a sofrer mesmo, de verdade, e estamos a pedir uma grande ajuda para quem está a ver-nos neste exacto momento. Estamos a pedir muita ajuda mesmo, perdemos muita coisa mesmo, muita coisa mesmo”, lamenta Daniel Mugabe.

Argelência Chissano admite que o posto de Nguluzane tem mantimentos para oito dias e que autoridades continuam a monitorizar a situação. “É verdade que não é apoio alimentar que vai suportar um período longo, mas é um apoio alimentar que vai suportar pelo menos oito a nove dias. É uma população estimada em cerca de 14 mil pessoas. Estamos a falar de uma povoação praticamente agrícola e pesqueira”, confirmou Argelência Chissano, administradora de Xai-Xai.

Ainda nesta semana, arranca o processo de distribuição de kits de retorno que vão culminar com a desactivação gradual de cerca de 42 centros de acomodação activos na província de Gaza, na sequência das cheias e inundações que afectaram mais de 400 mil pessoas na província de Gaza.

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