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Porque Moçambique não pode esperar?

Iniciamos um novo ano e, com ele, renascem esperanças e projectos. No entanto, por entre expectativas e promessas, é fundamental ter presente uma verdade incontornável: Moçambique não pode esperar.

Há momentos na história de uma nação em que esperar deixa de ser prudência e passa a ser negligência. Moçambique vive hoje um desses momentos. Continuar a adiar decisões estruturais, fingindo estabilidade enquanto a realidade social se degrada, é um luxo que o país já não pode suportar.

Não podemos esperar quando mais de metade da população é jovem, mas o futuro que lhe oferecemos é feito de desemprego, informalidade e frustração. Não podemos esperar quando o sistema educativo forma, mas não integra; quando o mérito raramente é critério e a sobrevivência depende mais de ligações do que de talento.

Não podemos esperar quando o custo de vida aumenta, os salários estagnam e as famílias lutam diariamente para garantir o básico. Não podemos esperar quando a corrupção deixa de chocar e passa a ser tolerada como parte do sistema, corroendo silenciosamente a confiança nas instituições públicas.

Não podemos esperar quando Cabo Delgado continua a sangrar, não apenas pela violência armada, mas pela ausência de respostas sociais profundas e sustentáveis. A paz não se constrói apenas com forças no terreno; constrói-se com inclusão, oportunidades e justiça social — e isso exige decisões agora, não amanhã.

Não podemos esperar quando profissionais se perpetuam nas lideranças, criando raízes e transformando instituições públicas, partidos políticos, associações e organizações da sociedade civil em espaços fechados, impermeáveis à renovação e ao mérito. Não podemos esperar quando pessoas com mais de 65 anos continuam a ocupar cargos centrais de decisão, recusando a inovação, desprezando a ciência e bloqueando a circulação de novas ideias.

Em Moçambique, tanto no sector privado como no sector público, a legislação é clara: a idade normal de reforma é de 60 anos. No sector público, esta norma encontra-se consagrada no Estatuto Geral dos Funcionários e Agentes do Estado (EGFAE) e diplomas complementares da Administração Pública, estabelecendo a reforma como um acto administrativo normal, automático e não punitivo. O objectivo é garantir a renovação dos quadros, a eficiência institucional e a justiça intergeracional.

No sector privado, a mesma racionalidade orienta o regime de segurança social obrigatória (INSS). Estas normas não existem para descartar pessoas, mas para organizar racionalmente o ciclo de vida profissional. Defender a reforma não significa prescindir do saber acumulado. Pelo contrário, o país perde quando empurra os mais velhos para a irrelevância. A experiência deve ser reaproveitada através de funções de aconselhamento, mentoria, formação e consultoria estratégica, libertando os cargos executivos e políticos para novas gerações.

A contradição surge quando instituições públicas, empresas estatais, partidos políticos e organizações da sociedade civil são lideradas por pessoas que, à luz da lei, já deveriam estar reformadas. Esta prática fragiliza o princípio da legalidade, cria desigualdades e transmite a mensagem perigosa de que a lei é flexível para quem detém poder. As excepções devem ser claras, temporárias e justificadas pelo interesse público, limitando-se essencialmente às carreiras de professores e médicos, onde a escassez de quadros altamente especializados o exige.

A mesma lógica deve ser aplicada às lideranças dos partidos políticos. A introdução de limites etários e temporais estimula os cidadãos a investirem seriamente nas suas carreiras profissionais, interiorizando que a política é missão e não profissão. Obriga ainda cada líder a prever o seu ciclo político, a preparar sucessores e a criar espaço para que novas ideias e novas elites políticas ocupem a esfera pública. O resultado é vitalidade democrática, e não instabilidade.

Quando o ego e os interesses pessoais se sobrepõem à pátria, o resultado é a paralisia do Estado e o empobrecimento das instituições.

Entre as decisões que travam o país estão a manutenção de orçamentos ineficientes, a resistência a reformas institucionais, a priorização de interesses pessoais em detrimento do bem comum, a demora na implementação de políticas de inclusão social, o subaproveitamento do talento jovem e a ausência de uma aposta séria na inovação e na ciência.

Não podemos esperar quando se normaliza a falta de respeito pelos profissionais que sustentam a ordem e o funcionamento do país — a polícia, os professores e os profissionais de saúde. Um Estado que não protege nem dignifica quem o serve perde autoridade moral e funcional.

Não podemos esperar quando a indisciplina cívica se torna rotina: atravessar fora da passadeira, desrespeitar regras básicas de convivência, tratar a lei como sugestão. Estes pequenos gestos de desordem quotidiana refletem um problema maior — a erosão da cultura de responsabilidade e cidadania.

É tempo, ao nível da família, de sentar com os mais velhos e convidá-los a deixar os mais jovens liderar os processos de mudança. A experiência deve servir para aconselhar, preparar e proteger, não para bloquear. Política não é profissão; é missão. Um ciclo político saudável não deve ultrapassar 10 anos, tempo suficiente para renovar ideias e elites. O poder prolongado corrói, gera resistências e medo da mudança.

O Estado moçambicano foi construído por jovens entre os 18 e os 30 anos. Porque razão os jovens de hoje, mais formados e mais expostos ao mundo, estariam incapacitados para transformar o país? É tempo de os mais velhos, por amor à pátria, afastarem-se do centro de decisão. É tempo de quem tem 50 anos interiorizar que dispõe apenas de uma década para mudar o status quo e, por livre iniciativa, passar o testemunho a jovens de 30 anos. Não somos eternos — e o Estado não pode ser refém dessa ilusão.

Não podemos esperar quando o sector privado continua a ser visto apenas como fonte de impostos e não como parceiro estratégico do desenvolvimento. Um sector privado forte, competitivo e ético é essencial para criar emprego digno, absorver jovens qualificados, fomentar inovação e reduzir a dependência do Estado. Melhorar o ambiente de negócios, garantir segurança jurídica, facilitar o acesso ao crédito e combater a concorrência desleal não são favores ao empresariado — são condições para o desenvolvimento nacional.

Esperar tem sido, demasiadas vezes, a estratégia de quem governa para gerir o presente sem enfrentar o futuro. Mas o preço dessa espera é pago nas periferias urbanas, nas zonas rurais esquecidas, nas salas de aula sobrelotadas e nos centros de saúde sem condições.

Moçambique não pode esperar porque o tempo não joga a nosso favor. A demografia pressiona, a economia fragiliza-se e a paciência social esgota-se. Reformar o Estado, moralizar a gestão pública, apostar seriamente na educação, na saúde e no emprego jovem não são promessas eleitorais — são imperativos nacionais.

Não podemos esperar porque liderar é decidir. É romper com práticas herdadas que já não servem o país. É enfrentar interesses instalados, mesmo quando isso custa conforto político. A história não será generosa com quem escolheu adiar quando era preciso agir.

O futuro de Moçambique não se constrói com discursos repetidos nem com planos adiados. Constrói-se com coragem política, ética pública e sentido de urgência. Não podemos esperar porque cada dia perdido aprofunda desigualdades e alimenta a descrença.

Que cada família reflita sobre o país que queremos. Que cada um de nós tenha coragem de dizer ao pai, ao tio, ao avô: não podemos esperar. Todos somos actores relevantes na construção de um Moçambique melhor do que ontem e mais justo do que hoje.

Moçambique não pode esperar. Que, independentemente do credo, origem ou ideologia, nos levantemos com determinação, coragem e fé na nossa pátria. O momento de agir é agora — e esse momento é nosso.

Que 2026 seja mais do que a passagem de um calendário: que seja o ano da coragem, da verdade e da acção. Um ano em que cada moçambicano tenha a ousadia de dizer, decidir e agir guiado pelo princípio inegociável de que Moçambique não pode esperar — nem por conveniência, nem por medo, nem por interesses instalados. Que este novo ano nos encontre de pé, conscientes do nosso papel na história e determinados a transformar a esperança em obra concreta.

A palavra do Senhor em Tiago 1:22 diz: sede praticantes da palavra, e não somente ouvintes, enganando-vos a vós mesmos.

Feliz Ano Novo de 2026. Que seja o ano em que a mudança deixe de ser promessa e passe a ser atitude.

 

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