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“Temos que definir prioridades para o nosso desenvolvimento”

Reagindo ao apelo do Governo sobre a necessidade de aumento de produtividade,  o vice-presidente do pelouro do agronegócio na Confederação das Associações Económicas (CTA), Arnaldo Ribeiro, disse ser algo possível, mas complexo para a implementação no sector da agricultura em Moçambique.

No seu entender, cinco anos (de mandato do Governo) são poucos para alcançar o objectivo, principalmente enquanto não existirem programas de apoio claros do Executivo. Para explicar a sua posição, recorreu a exemplos de alguns países tidos como casos de sucesso.

“O Vietnam teve uma estratégia baseada na agricultura e nos seus produtos tradicionais, nomeadamente o arroz, e definiu programas claros e concretos de apoio ao sector do arroz e hoje tem produtividades acima de seis a sete toneladas por hectare”, exemplificou.

Tal produtividade a que se refere é média nacional e não de três a quatro empresas, como por vezes diz confundir-se em Moçambique. Fala ainda do Chile que deixou de produzir trigo, apesar de ser um produto-base para a alimentação daquele país.

“O Chile chegou à conclusão que não era competitivo na produção do trigo face aos seus vizinhos, nomeadamente, a Argentina e o Brasil. Deixou de fazer o trigo e canalizou seus esforços para frutos, vinhos, depois da decisão do Governo em investir nessas áreas”, disse.

Ribeiro é também presidente da associação de macadâmia e investidor em uma empresa que exporta bananas para a África do Sul e abastece o mercado interno. Com a experiência que carrega, sugere que o Governo procure definir prioridades para o desenvolvimento do país. 

“Dizemos que o arroz é prioridade. O senhor ministro da Agricultura diz isso, já ouvimos o Presidente da República dar o exemplo dos 500 milhões de dólares que anualmente despendemos na importação, mas depois não desenhamos programas concretos”, desabafa.

Os referidos programas, segundo o empresário, deviam ir desde a garantia do mercado nacional para o arroz produzido no país até a investigação agronómica, passando pela formação, pelo apoio ao empresariado existente e pelo apoio dos novos empresários.

Na qualidade de investidor privado, Ribeiro explica que pode investir no aumento da produtividade do arroz, mas quando chega ao mercado deve vender o arroz ao preço similar ao arroz importado que provém de países onde os produtores são subsidiados e apoiados.

“Então, põe-se aqui um dilema e é preciso uma decisão política. Será a política do país a produção de arroz ou é para nós deixarmos de fazer arroz e dedicarmo-nos a outras coisas como a macadâmia, abacate, banana, etc., para depois exportarmos e com o dinheiro das exportações a gente comprar o arroz que o país precisa?”, perguntou Arnaldo Ribeiro.

Ribeiro falava, quarta-feira, no arranque da 20ª edição do fórum de diálogo público privado, CASP, que discute os avanços e recuos no ambiente de negócios em Moçambique. Na qualidade de orador, o Ministro da Planificação e Desenvolvimento, Salim Valá, respondeu que seria difícil apostar em certos sectores, numa economia que precisa de diversificação. 

“O amigo Arnaldo Ribeiro ali referiu-se à questão das prioridades, que foi referido também pelo colega dos portos. Aqui, é importante deixar uma ideia: é que com a estrutura da nossa economia, seria muito complexo só apostar numa área. Só agricultura, só logistica”, rebateu.

Para Salim Valá, seria muito difícil apostar apenas em determinados sectores porque a economia moçambicana está muito interligada, de certa forma que ela fica forte quando se diversifica. Porém, o governante desafia os empresários a apostarem em ectividades vitais.

“Indústrias de materiais de construção são vitais. Nós precisamos de indústrias de aço e ferro para o desenvolvimento e para a industrialização e isso não é algo que só faz o Estado ou o sector privado. Temos que fazer um pacto entre nós”, considerou o ministro da Planificação.

Outra área que merece investimento urgente é a de fertilizantes, segundo Valá, para viabilizar a agricultura. Por outro lado, defende a aposta na indústria dos plásticos e na tecnologia. “Temos de pegar nalguns desses eixos, porque vão ter efeito multiplicador nas outras áreas”.

Por seu turno, Clávio Macuácua, da empresa Corredor Logístico de Maputo, defende a aposta nas formas de ligação do país para alavancar a economia. Diz ainda que o problema de divisas que o país enfrenta é por não possuir prioridades nos sectores de importação.

“Se nós definirmos que no país somente iremos importar para defesa, saúde e todos outros sectores serão de produção nacional (…), isso nos tornará menos dependente em relação ao dólar. É ainda importante frisar que se apostarmos na conectividade, (…) podemos ter a solução para todos outros problemas”, defendeu Clávio Macuácua

Para o antigo ministro dos Transportes e Comunicações, Gabriel Muthisse, que estava num painel de debate da CASP teve a moderação de Basílio Muhate, ministro da Economia, as propostas apresentadas são importantes e só poderão surtir efeito se existir paz no país. 

“Todas as reformas que foram aqui sugeridas e reiteradas são muito importantes e podem de facto contribuir para catalisar e relançar a nossa economia, mas elas devem estar ligadas a um esforço permanente de toda a sociedade por desenvolver e praticar um discurso e uma narrativa de tranquilidade e de paz e essa responsabilidade cabe sobretudo aos partidos políticos e todos os actores sociais”, disse o antigo ministro dos Transportes e Comunicações.

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