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Economia nacional financiada por poupança de outros países

O governador do Banco de Moçambique alerta que Moçambique continua a depender da poupança dos outros países para financiar a sua economia. O alerta foi lançado na última quarta-feira na província de Cabo Delgado.

De acordo com Rogério Zandamela, as transacções entre o país e o resto do mundo tiveram um agravamento de 3,1% no défice da conta corrente no primeiro semestre do presente ano, face a igual período de 2024.

Zandamela fez essas abordagens na quarta-feira durante o Conselho Consultivo do Banco de Moçambique, evento que discute até hoje os desafios do sistema financeiro nacional e da economia em geral.

Para melhor perceber sobre os dizeres do governador, o “O País Económico” ouviu alguns economistas nacionais. Egas Daniel começa por dizer que o alerta mostra que o país continua dependente do sector externo nas três dimensões mais importantes de financiamento à economia. 

Uma das dimensões é o financiamento público, já que, segundo refere, as despesas não totalmente as receitas, o que torna o país dependente de fontes externas, como dívida, para cobrir o seu défice orçamental. 

“Por isso que estou a falar da dívida pública externa que nós sabemos que está em níveis elevados neste momento”, conclui e arrola a produção como sendo a segunda dimensão do financiamento à economia.

Egas lembra ainda que o país produz pouco para satisfazer as suas próprias necessidades e que o dinheiro que consegue das exportações de produtos não cobre as importações. “Logo, estamos dependentes ainda da poupança externa para financiar e cobrir o défice da balança comercial”, conclui.

Para compensar a referida diferença, ou seja, para cobrir o défice da balança comercial, Egas diz que muitas vezes o país recorre ao financiamento externo, tornando-se assim cada vez mais dependente.

Chamado também a comentar sobre os pronunciamentos de Rogério Zandamela, o economista Júlio Saramala salientou que as constatações evidenciam um problema estrutural na economia moçambicana. 

“O país ainda não consegue gerar internamente os recursos necessários para sustentar o seu próprio crescimento”, disse. 

Júlio Saramala entende ainda que a dependência limita a autonomia das políticas económica, fiscal e cambial, e deixa expostos a choques externos e a pressões sobre as reservas que o país possui. 

O economista defende que o agravamento do défice da conta corrente descrito pelo governador do banco central confirma que o país gasta mais em importações do que arrecada nas suas vendas ao mundo e rendimentos externos, um sinal claro de fragilidade da sua balança de pagamentos.

Para reverter o cenário, Saramala diz que mais do que discursos sobre diversificação da economia, é necessário mobilizar a poupança interna de forma inteligente e canalizá-la para o investimento produtivo. 

“O país precisa dinamizar o Fundo de Desenvolvimento Local (FDEL), o Fundo de Garantia Mútua e, de forma estratégica, o Fundo Soberano, para que deixem de ser apenas estruturas institucionais e passem a ser motores reais de financiamento à economia”, sugere Júlio Saramala. 

Em paralelo, Saramala diz que a política cambial deve ser mais previsível e orientada à competitividade, reduzindo a volatilidade e garantindo que o acesso às divisas seja compatível com as necessidades do sector produtivo.

“A elevada dívida pública precisa ser renegociada para libertar espaço fiscal e dar oxigénio ao sector privado e às famílias. Uma economia não cresce se o Estado absorve toda a liquidez do sistema. O Governo deve trabalhar com o sistema financeiro para melhorar o acesso ao crédito bancário, sobretudo para pequenas e médias empresas, reduzindo o custo de financiamento e ampliando a intermediação financeira”, sugere. 

De acordo com Saramala, se o Estado combinar a gestão responsável da dívida, a estabilidade cambial e o estímulo à poupança e ao crédito produtivo, ajudaria o país a reduzir a dependência de capitais externos e a construir um crescimento mais sólido, sustentado por recursos internos.

Zandamela prevê recuperação económica em 2026

O Banco de Moçambique é optimista quanto à recuperação da economia nacional no próximo ano. Nas suas perspectivas para os próximos anos, o regulador do sistema financeiro nacional fala de recuperação gradual.

“Antevemos uma recuperação gradual da actividade económica, sustentada pela implementação de projectos estruturantes em áreas estratégicas e pela melhoria das condições internas de produção”, prevê.

No tocante ao custo de vida, as projecções do Banco de Moçambique para a subida do nível geral de preços  apontam para a manutenção abaixo de 10% nos próximos anos. Porém, alerta que persistem desafios relevantes.

“A nível interno, destaca-se o contínuo agravamento do risco fiscal, o ambiente de negócios desafiante, os choques climáticos e a necessidade de reformas estruturais profundas”, descreveu o governador do banco central.

No mundo, o governador do banco central sublinha que constituem desafios a desaceleração da actividade económica, a persistência da subida generalizada do nível geral de preços e elevados níveis de incerteza.

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