O País – A verdade como notícia

Virem as vossas armas. No dia 14, saio com o jornalismo

Jaime Inácio – Jornalista e académico

Neste dia, desde o episódio protagonizado pelo padre São Valentim, anualmente, todos os amores e amantes do mundo se desdobram para fazer algo diferente, oferecendo até o que não possuem para agraciar quem lhes habita o coração.

Também quero fazer o mesmo. E ainda bem que, neste ano, a efeméride calha num fim-de-semana. Vou aproveitar o dia para levar o jornalismo para beber uma água de coco, numa das melhores praias de Maputo.

Sou de poucas confissões, mas hoje arrisco uma. Amo o jornalismo e sou profundamente apaixonado por ele. A emoção não se esgota, a vontade com que me entrego não esmorece. Confesso: ando fora de mim, mas não quero abandonar isto tão cedo.

Por estas e outras experiências vividas diariamente ao lado do que considero o melhor dos ofícios, quero sair para celebrar. Quero, com o coração no peito, reconhecer fragilidades, admitir falhas e, porque não, selar de forma definitiva o compromisso com a causa.

Vou dedicar o ambiente dos amores e, entre rosas e pétalas, afagar os cabelos do jornalismo com um leve tom de provocação. Vou abraçá-lo com firmeza e extrair o melhor do que já sei. Quero jurar fidelidade, rigor e isenção, mas também preencher o vazio que ainda me separa de uma relação plena e do domínio total deste ofício.

É importante dizê-lo: o jornalismo vive de vários momentos de actuação, e a interacção com as fontes é o mais elevado de todos. O microfone transforma-se num íman recolhedor de factos, sem os quais o jornalismo não sobrevive. E é isto que assusta alguns.

No tal dia 14, deixarei o egoísmo de lado e colocar-me-ei à disposição para aprender. Quero sair limpo, puro e com uma caneta inquestionável. Nesse dia, quero entregar-me às técnicas, aceitar o processo e alcançar o clímax que todo o escriba sonha.

No dia 14, quero sonhar com uma imprensa livre, consciência crítica e voz independente, sem perseguições. E nem pensem em me cadanguear.

Falando em sonhos, o mais difícil é acreditar na concretização de tantos que me atravessam a mente, porque já não durmo,  ou melhor, ando sem sono desde que as armas passaram a cuspir balas na minha direcção, numa tentativa clara de assassinar as palavras. Há quem queira sabotar a nossa caminhada. Há sem-vergonhas que, dia e noite, procuram expedientes frágeis e cobardes para silenciar-me, a mim e à nobre missão de informar a sociedade.

Que os donos das armas deixem as munições em casa. Que percam a vontade de disparar contra servidores da verdade no verdadeiro sentido da palavra. Vamos precisar de liberdade para exercer a vigilância cívica e o direito de contar os factos.

Que os infractores não durmam tranquilos. Que os seus semblantes sejam tomados pela vergonha de acreditarem que metralhadoras conseguem calar um portador da verdade. Armas não abafam a verdade pública, não vencem a memória colectiva, nem anulam a consciência.

Virem as vossas armas para longe. No dia 14, vou sair com a verdade, com a liberdade de informar e com a responsabilidade pública.

E ninguém ouse cadanguear-me.

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