O ministro da Saúde culpa os profissionais que estavam de serviço, na Enfermaria do Hospital Geral José Macamo, por não terem comunicado atempadamente a falta de iluminação na instituição. Ussene Isse diz que a responsabilidade de verificação das condições de trabalho não é exclusiva dos gestores hospitalares.
Não poucas vezes os utentes reportaram maus tratos, cobranças ilícitas, desaparecimento e troca de recém-nascidos, praticados por profissionais de saúde do Hospital Geral José Macamo, cujas denúncias nunca tiveram desfecho público.
O mais recente flagrante aconteceu na noite do último sábado, em que, através de um vídeo amador, uma mãe relatou a falta de iluminação numa sala de observação, tendo sido obrigada a usar a lanterna do seu celular.
No seu desabafo, clama pela intervenção do ministro da Saúde naquela unidade hospitalar.
“A enfermeira disse: senhora estou a pedir ajuda. Meu telefone já não tem carga, porque desde que estou a trabalhar com o meu telefone, estou a usar a lanterna do meu telefone. Ministro da Saúde, Presidente Chapo, estou a pedir para ver esse vídeo. Para a médica apanhar veia, preciso acender lanterna de telefone. Para ver a veia de uma criança, às 22h. A criança está a chorar. Aqui já lhe picaram mais de três vezes e não apanham veia porque está escuro, meu Deus, socorro. No Hospital José Macaco não tem lâmpadas suficientes, estamos a usar lanternas de telefone, por favor. ”
Com base neste desabafo, gravado no último sábado, às 22 horas, confrontamos o ministro da Saúde. Ussene Isse disse à nossa reportagem que faltou zelo por parte do profissional em serviço.
“Também ficamos muito tristes. E a minha pergunta é, aquele profissional que estava ali a trabalhar, por que ficou tanto tempo sem comunicar? Todos os hospitais têm sistema de manutenção permanente nos hospitais. É muito estranho uma lâmpada que fundiu de manhã e não ser comunicada àqueles que têm que resolver o problema. São estes aspectos que eu estava aqui a dizer, que nós temos que melhorar. Em vez de preocupar-se em gravar e publicar, temos que preocupar-nos em resolver os problemas. Quando a situação foi tomada, foi informada, foi resolvida rapidamente. São estas coisas que nós, como profissionais de saúde, temos que olhar. Imagina lá, estou a passar num corredor num hospital. Eu sou profissional de saúde e vejo água suja, vejo sangue no chão e passo. Há-de vir o director, o administrador. Não. Eu tenho que fazer parte da liderança, da gestão do dia a dia”, disse, apelando ao envolvimento de cada colaborador na gestão hospitalar.
Vamos aos factos: Se a lâmpada fundiu na manhã de sábado, como afirma o ministro, como se explica que o profissional em serviço aguente o dia inteiro sem iluminação, tenha suportado o escuro do entardecer e a noite optado por usar a lanterna do seu celular, sem comunicar os superiores, ou mesmo que os responsáveis se tenham apercebido da escuridão?
Provavelmente estes questionamentos encontrem respostas no inquérito em curso.
“Nós estamos a trabalhar nisso, por isso levantamos um inquérito. Há um trabalho a ser feito para apurarmos o que terá acontecido. E vamos trabalhar fortemente para mudar o cenário”
O Governante diz que o seu ministério está ciente do mau comportamento de alguns profissionais, mas a solução passa pelo envolvimento de todos.
“Temos trabalhado fortemente na formação contínua, na formação em trabalho. Informações de refrescamento sobre ética deontologia profissional. Mas, acima de tudo, também esta componente da fiscalização e da supervisão a todos os níveis. Porque sabemos que há situações que nos entristecem. Quando uma mulher chega na maternidade e é tratada mal, é cobrada, é mal atendida. Não pode fazer parte da nossa forma de actuação, da nossa forma de trabalhar. Por isso quero aproveitar esta oportunidade também. É o seguinte, nós nunca estaremos, todos nós, mesmo os meus colegas no terreno, nunca estarão a tempo inteiro em todos os locais. Daí que estamos a apelar também ao povo moçambicano para ser muito vigilante e estar atento”, disse.
Enquanto isso, Ussene Isse diz estar em funcionamento, em todas as unidades hospitalares comités de humanização, cuja principal missão é a melhoria do ambiente hospitalar, tanto para os pacientes, bem como para os profissionais.
Qualidade passa também pela formação de qualidade
O ministro da Saúde defende que investir na formação dos profissionais de saúde é um dos caminhos para a garantia de atendimento humanizado, profissional e livre de cobranças ilícitas.
O Governante acrescenta que “desempenho dos serviços de saúde está intimamente ligado à qualidade dos profissionais que formamos. Por esta razão, importa reforçar continuamente os mecanismos de garantia de qualidade através do aprimoramento dos currículos de fortalecimento da supervisão pedagógica, da qualificação dos docentes e tutores, bem como das melhorias das condições de ensino e aprendizagem”.
Ciente dos desvios de quem já está no terreno, Ussene Isse chama a todos a reflexão.
“Esta reunião deve fazer uma análise profunda das atitudes e comportamentos do grupo de profissionais que no exercício das suas funções esqueceu a humanização, a empatia, a ética, a deontologia profissional, que são os princípios basilares dos processos formativos para a continuação do legado de bem-servir e salvar vidas”.
Para um profissional, acrescenta, já não basta o domínio teórico das matérias.
“Torna-se fundamental garantir que cada formando demonstre competências efetivas para exercer as suas funções com qualidade, humanismo, segurança e responsabilidade. A formação baseada em competências permite alinhar os processos formativos às necessidades do Sistema Nacional de Saúde, garantindo profissionais aptos para responder aos desafios actuais e futuros do sector”.
Na formação que vai decorrer até o dia 28 de Outubro, o Governante apela a reflexao em torno do assédio sexual, praticado tanto nas instituições de ensino, bem como nos hospitais do país.