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Uma bomba, quatro horas de espera para ter combustível na Maxixe e Inhambane

Associação dos Transportadores Rodoviários em Inhambane denuncia mercado paralelo em alta, com revenda a preços inflacionados que agrava a crise e penaliza transportadores

Há sinais que não precisam de explicação. Filas que se estendem por quilómetros, motores desligados, pessoas à sombra dos carros à espera de um recurso que deveria ser básico. Em Maxixe e Inhambane, o combustível deixou de ser apenas um produto, tornou-se um problema diário, uma corrida contra o tempo e, para muitos, uma ameaça directa à sobrevivência económica.

Ao longo da Estrada Nacional número 1, na cidade da Maxixe, a imagem que repete-se é de longas filas de viaturas que avançam lentamente, quase sem esperança. Com apenas uma bomba a vender diesel, a procura disparou para níveis que o sistema não consegue suportar. Há automobilistas que passam até quatro horas à espera para conseguir, no máximo, 30 litros. Para quem depende do combustível para trabalhar, esse tempo perdido tem um peso real.

“Desde que saí de Inhambane, estou a rodar pelas bombas desde as dez da manhã. Ainda não consegui combustível”, conta Sérgio António, um automobilista visivelmente cansado. A frustração é partilhada por muitos que, ao longo do dia, fazem contas ao prejuízo acumulado. Um dia parado é um dia sem rendimento.

Na mesma fila estão também camiões de carga, alguns com destinos longínquos. Latifo conduz um camião frigorífico com destino a Nacala, na província de Nampula. Mas a viagem foi interrompida na Maxixe. Ficou retido durante cinco horas à espera de combustível. “Tenho que abastecer para conseguir avançar. Não há outra opção”, diz, num tom que mistura urgência e resignação.

A situação torna-se ainda mais crítica quando se percebe que o problema não está apenas concentrado num ponto. Há relatos de outras bombas com limitações severas, algumas abastecem apenas até 100 litros por camião, outras simplesmente não têm combustível. O resultado é um sistema fragmentado, incapaz de responder à procura.

Sem solução na cidade de Inhambane, muitos condutores atravessam para a Maxixe numa tentativa desesperada de garantir algum combustível. Mas o esforço nem sempre compensa. Casimiro, que fez exactamente esse percurso, conseguiu apenas 10 litros. “Não está a ser fácil. Todas as bombas em Inhambane não têm diesel. Aqui na Maxixe também só temos uma. E ninguém sabe como será nas próximas horas”, relata.

Para os transportadores, a crise já se traduz em perdas concretas. O sector, altamente dependente do diesel, começa a sentir o impacto de forma directa. Viaturas paradas, viagens canceladas, receitas comprometidas. “É um dia perdido”, resume um operador, consciente de que o tempo que passa na fila é tempo que não volta.

E o problema vai além do transporte individual. A Associação dos Transportadores Rodoviários de Inhambane confirma que o cenário é cada vez mais difícil. O abastecimento é feito com fortes restrições, o que limita a produtividade e reduz a capacidade de resposta do sector. Abdul Razaque, presidente da associação, não esconde a preocupação. “Estamos limitados. O tempo que se perde na fila é tempo que não permite voltar à actividade”, afirma.

Mas há um outro fenómeno que começa a ganhar espaço e que agrava ainda mais a situação. O mercado paralelo de combustível. Segundo Abdul Razaque, parte do combustível abastecido em bidões não vai directamente para viaturas, mas sim para revenda a preços muito mais elevados. “Os transportadores acabam por comprar porque não podem parar. E isso está a pressionar ainda mais os custos”, explica.

Num contexto já marcado pela escassez, esta prática cria um efeito em cadeia: aumenta os preços, reduz o acesso e empurra ainda mais operadores para fora da estrada. Alguns já começaram a desistir. Sem combustível, não há actividade. E sem actividade, não há rendimento.

Perante este cenário, instala-se um clima de incerteza. Ninguém consegue prever o que vai acontecer nas próximas horas. “Sem combustível, não há nada que se ande”, diz um automobilista, num desabafo que resume o sentimento geral.

Enquanto isso, em Inhambane, um pequeno sinal de alívio surgiu na madrugada de domingo. Uma das gasolineiras recebeu uma nova carga de diesel. Para quem conseguiu chegar a tempo, foi uma oportunidade de retomar a actividade. Benito, por exemplo, conseguiu finalmente abastecer depois de ter deixado o carro parado durante horas. “Agora vou encher o tanque. Pelo menos consigo trabalhar”, afirma.

Mas nem todos tiveram a mesma sorte. Há viaturas que continuam paradas há dias. António conta que o seu carro está imobilizado há quase três dias. Tentou abastecer na Maxixe, mas não conseguiu. “Fui ontem, não apanhei. Fui hoje, também não. Agora só me resta esperar”, diz.

Para muitos, a solução passa por recorrer a bidões, uma alternativa improvisada que, embora ajude, não resolve o problema de fundo. É apenas mais um sinal de adaptação a uma realidade que se tornou insustentável.

Neste momento, apenas uma bomba na cidade de Inhambane está a abastecer diesel. As outras duas têm apenas gasolina, um produto que não responde às necessidades da maioria dos transportadores. O desequilíbrio entre oferta e procura mantém a cidade em alerta.

E é precisamente aí que está o ponto crítico, pois o sistema não está preparado para responder a este nível de pressão. Cada reposição traz alívio momentâneo, mas não resolve o problema estrutural. Enquanto isso, cidadãos, transportadores e empresas continuam a adaptar-se, como podem, a uma crise que insiste em prolongar-se.

 

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