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Um ano após a tempestade Filipo, a marginal de Vilankulo continua destruída e sem respostas

Vilankulo, uma das maiores atracções turísticas de Moçambique, continua a sofrer as consequências da tempestade tropical Filipo, que devastou a cidade em março do ano passado. Um ano depois, a marginal, ponto de encontro dos moradores e visitantes, permanece em ruínas. As árvores caídas, os buracos na estrada e a destruição generalizada são sinais de um local que já foi o cartão-postal da cidade, mas que hoje se encontra irreconhecível.

Apesar dos meses que se passaram, a resposta do Conselho Municipal de Vilankulo tem sido nula. A cidade, que já era vulnerável a intempéries climáticas, enfrenta agora um cenário de incertezas e riscos diários. Moradores, automobilistas e empresários estão expostos a perigos constantes, enquanto a cidade perde a sua beleza natural.

Maria João, 68 anos, mora no bairro Central, nas imediações da marginal. Quando a tempestade Filipo passou, ela quase perdeu tudo o que tinha na sua casa. “O vento foi tão forte que parecia que a terra ia desabar. As árvores caíam como dominós e as ondas invadiram parte da minha casa. Passei dias sem saber o que fazer”, conta, com os olhos marejados de lembranças amargas.

A marginal, que antes se estendia ao longo da orla, era também um local de encontro para os moradores da cidade, onde caminhavam, conversavam e admiravam o mar. Para Maria, como para muitos, esse era um dos poucos espaços de lazer e um símbolo de pertença. “Era aqui que eu via as crianças a brincar e as famílias a passear. Agora, a marginal está destruída. Não sei onde mais vou levar os meus netos”, lamenta.

A destruição da marginal não afeta apenas os moradores. João Pedro, 45 anos, residente no bairro 16 de Junho, destaca a insegurança que a situação impõe. “Vivo em Vilankulo há mais de 20 anos, mas nunca imaginei que a nossa cidade ficasse assim. A qualquer momento, uma árvore pode cair numa destas casas. Quando chove, a terra fica humida e mais propensa a desbamentos”, diz João, com uma expressão de frustração.

Ele se refere aos riscos que a zona enfrenta todos os dias. As árvores derrubadas pela tempestade permanecem no local, tornando a circulação pela zona ainda mais difícil. “Os moradores já tiraram algumas para o seu uso, mas o resto continua espalhado pela cidade. A estrada é um perigo constante. Já vi carros a cair aqui devido às crateras”, conta.

O impacto da destruição da marginal também é sentido por quem depende da estrada para trabalhar. Carlos Alberto, um taxista que circula frequentemente pela marginal, relata que a situação está a tornar-se insustentável. “Eu sou taxista e, todos os dias, arrisco a vida para passar por aqui. Não só por causa dos buracos, mas pela falta de sinalização e iluminação. À noite, é quase impossível ver o perigo que está a frente”, diz.

Carlos revela ainda que já viu colegas que sofreram acidentes, todos causados pelos danos na marginal. “Felizmente, ninguém ficou gravemente ferido, mas doi ver que ninguém faz nada para resolver a situação”, lamenta.

Vilankulo sempre foi um destino turístico procurado por moçambicanos e estrangeiros, especialmente devido à sua costa paradisíaca e às paisagens da marginal. No entanto, a destruição da estrada que margeia o mar afetou drasticamente o turismo. A proprietária de uma hospedaria local, que aceitou falar ao nosso jornal, comenta que o impacto foi imediato.

“Antes da tempestade, tínhamos turistas a todo o momento, especialmente à beira-mar, onde podiam admirar as paisagens, fazer passeios e tirar fotos. Hoje, a marginal é uma zona de destruição. Não conseguimos mais atrair turistas”, explica a empresária. Ela conta que a hospedaria, que antes estava cheia nos meses de pico, agora mal consegue cobrir as despesas. “Perdemos clientes e não sabemos por quanto tempo isso vai durar. A cidade já não tem a mesma beleza de antes. Os troncos caídos e os buracos só afastam as pessoas”, diz.

Para muitos, a destruição da marginal matou a essência de Vilankulo. O local já não é o lugar que era, com a praia e o mar agora obstruídos por árvores caídas e crateras profundas. A natureza, que antes atraía tantos visitantes, está agora ameaçada pela falta de manutenção e pela ausência de iniciativas para reparar os danos.

Quinito Vilanculos, edil de Vilankulo, reconhece a gravidade da situação. Contudo, ele revela que o processo de recuperação está a ser mais demorado do que o esperado. “Estamos a trabalhar para mobilizar fundos e obter os recursos necessários para reabilitar a marginal. Sabemos da importância deste espaço para a cidade e para o turismo, mas a recuperação exige um investimento significativo”, afirmou o edil.

No entanto, a falta de respostas concretas e de um plano claro preocupa os moradores e empresários locais. Muitos questionam a eficácia das promessas feitas pela administração municipal. “Um ano depois da tempestade, as soluções ainda estão por vir. A cidade continua a perder a sua identidade e, sem um plano de ação urgente, vamos perder também o turismo, que é a nossa maior fonte de renda”, destacou um dos nossos entrevistados.

Além dos danos causados pela tempestade Filipo, as mudanças climáticas têm vindo a agravar as condições climáticas em várias partes de Moçambique, incluindo Vilankulo. Estudos indicam que o país está a enfrentar um aumento significativo de eventos climáticos extremos, como ciclones, secas e inundações. Esses fenómenos estão a tornar a região mais vulnerável, o que pode ter contribuído para a destruição da marginal.

A combinação de fatores como a urbanização desordenada e a falta de gestão ambiental contribui para a fragilidade da infraestrutura local. A constante degradação das zonas costeiras e a pressão sobre os recursos naturais são questões que exigem atenção urgente. A cidade, que já está exposta a esses fenómenos, precisa de um plano de adaptação às mudanças climáticas, que inclua a reabilitação da marginal e a construção de infraestruturas mais resilientes.

Vilankulo, conhecida pelas suas belas paisagens e pela riqueza do seu turismo, enfrenta agora uma crise sem precedentes. A destruição da marginal, que deveria ser um símbolo de esperança para a cidade, reflete a falta de respostas urgentes por parte das autoridades. Moradores, automobilistas e empresários estão a viver em condições precárias e a cidade está a perder o seu maior ativo. A necessidade de ação é urgente. O turismo, que antes florescia na cidade, está em declínio. A inação do Conselho Municipal de Vilankulo coloca em risco o futuro da cidade e de todos os que nela vivem.

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