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O País – A verdade como notícia

Tete quer transformar potencial energético em industrialização e investimento

A província de Tete quer deixar de ser apenas uma província rica em recursos naturais para se afirmar como um dos principais centros de produção, transformação e circulação de energia e bens na África Austral. A mensagem esteve no centro do primeiro painel da Primeira Conferência Internacional de Investimentos de Tete, subordinado ao tema “Energia e Recursos Naturais: Motores de Crescimento”.

Trata-se de um painel que reuniu responsáveis do sector energético, investidores, empresários e especialistas, numa abordagem que foi unânime ao apontar que o potencial de Tete é enorme, mas só poderá traduzir-se em desenvolvimento se a energia for acompanhada por infraestruturas, indústria, investimento privado, formação de mão-de-obra, conteúdo local e um ambiente de negócios mais competitivo.

EDM: “Electrificar não apenas para consumir energia, mas para produzir valor”

O Administrador Executivo do pelouro de Electrificação da Electricidade de Moçambique, António Munguambe, colocou o acesso à energia e a capacidade da rede no centro dos desafios de Tete.

Para o responsável, a expansão da electrificação não pode ser avaliada apenas pelo número de novas ligações. O verdadeiro impacto deve ser medido pela capacidade de a energia gerar actividade económica nas comunidades.

“Devemos electrificar não apenas para consumir energia, mas para produzir valor.” apontou.
Munguambe defendeu que “as zonas já electrificadas devem criar condições para o surgimento de pequenas empresas, unidades de agro-processamento, sistemas de irrigação, comércio, serviços, escolas, unidades sanitárias, sistemas de armazenamento e refrigeração”.

A preocupação da EDM aumenta quando o olhar se desloca para o sector mineiro. As grandes minas, explicou, representam uma procura significativa de electricidade e podem funcionar como uma espécie de âncora para a expansão da rede.
Mas para o efeito, a EDM precisa de saber antecipadamente onde estarão os grandes projectos, quanta energia irão consumir, qual será o perfil da procura e quando entrarão em funcionamento.

“É requerido que a EDM tome conhecimento atempado dos grandes investimentos desde as suas fases iniciais.”
A antecipação é importante porque os grandes projectos mineiros não precisam apenas de electricidade. Precisam de capacidade, estabilidade, qualidade, continuidade e previsibilidade no fornecimento.

A EDM apresentou, por isso, uma carteira de investimentos destinada a preparar Tete para uma procura energética maior. Entre os projectos está a construção da subestação de Canangola, com financiamento de 16 milhões de euros, o reforço da rede de distribuição da cidade de Tete e uma nova linha de 66 quilovolts.
Outro projecto apresentado foi o dos chamados corredores verdes, com financiamento assegurado de cerca de 135 milhões, incluindo uma linha de transporte e uma subestação no troço Songo-Matambo.

A empresa apontou ainda para a interligação energética Moçambique-Malawi, já com testes e comissionamento realizados, e para os estudos de uma futura ligação entre Moçambique e Zâmbia a partir de Tete.
A visão apresentada pela EDM é clara: levar mais energia à província, mas sobretudo criar um sistema capaz de acompanhar a industrialização.
“Não queremos apenas levar mais energia eléctrica a Tete, mas sim utilizar a energia para transformar Tete num ponto de industrialização, investimento e crescimento económico.”

Mphanda Nkuwa: “A energia é um factor de produção”

O Director-Geral do Gabinete de Implementação do Projecto Hidroeléctrico de Mphanda Nkuwa, Carlos Yum, chamou atenção para aquilo que considera ser o grande desafio de Moçambique: transformar a abundância de recursos energéticos em desenvolvimento económico.
O país, segundo explicou, possui cerca de 19 mil megawatts de potencial hidroeléctrico, com aproximadamente 12 mil megawatts concentrados na bacia do Zambeze.

Mas ter recursos não significa, por si só, ter desenvolvimento, “o potencial só não tem valor se está lá.” disse o responsável.
Na sua leitura, o novo ciclo de investimentos hidroeléctricos deve estar directamente ligado à industrialização, à criação de emprego e à competitividade das empresas.

Carlos Yum entende que isso exige uma mudança no próprio enquadramento do sector eléctrico. A regulação, defendeu, precisa de acompanhar uma nova fase em que Moçambique pretende atrair capital privado para grandes projectos e industrializar a economia.
O alerta é particularmente forte quando aborda o custo da energia para a indústria, dado que, na perspectiva do responsável, se a energia continuar cara e pouco competitiva, Moçambique corre o risco de atrair investimentos concentrados na extracção e exportação de matérias-primas, em vez de desenvolver cadeias de transformação.

“As indústrias que vão aparecer são indústrias que exportam matéria-prima.” alertou.
É precisamente este paradigma que Mphanda Nkuwa pretende ajudar a ultrapassar. A hidroeletricidade deve ser encarada como instrumento para alimentar uma economia industrial, e não apenas como fonte de receitas provenientes da venda de electricidade.
Carlos Yum defendeu também que a exportação de energia pode beneficiar Moçambique, desde que as receitas sejam utilizadas para reforçar infraestruturas e reduzir os custos internos do sector.

Para o responsável, Moçambique pode igualmente beneficiar da crescente procura regional por energia flexível, sobretudo num contexto de maior penetração de fontes solares e outras energias intermitentes.

Mas o desenvolvimento hidroeléctrico não pode ignorar dois factores relacionados às alterações climáticas e comunidades.
Yum defendeu que as comunidades devem ser consideradas desde as primeiras fases dos grandes projectos e não apenas quando começam as obras.
No seu entender, o futuro hidroeléctrico de África passa por Moçambique, mas essa oportunidade dependerá de uma regulação forte, preços justos, investimento competitivo e uma visão da energia como instrumento de soberania e desenvolvimento.

Eurocam: “Não existe investimento internacional que tenha um futuro se não trabalhar com a empresa nacional”
O Presidente do Conselho de Direcção da Associação dos Empresários Europeus em Moçambique, Simone Santi, deslocou o debate para uma questão central para o sector privado: como transformar grandes investimentos em oportunidades concretas para as empresas moçambicanas.
Na sua visão, recursos naturais são apenas o ponto de partida. Um investidor que pensa num projecto para 20, 30 ou 40 anos precisa de energia, estradas, logística e infraestruturas capazes de sustentar o negócio.

Para Santi, Tete possui uma vantagem importante, mas precisa de transformar essa vantagem natural em condições reais de investimento.
O empresário destacou oportunidades na infraestrutura, indústria de transformação, tecnologia e pequenas empresas.
Mas foi sobre conteúdo local que afirmou que “não existe investimento internacional que tenha um futuro se não trabalhar com a empresa nacional.”
Santi rejeitou uma leitura limitada de conteúdo local baseada apenas na percentagem de capital moçambicano numa empresa.
No seu ponto de vista, o conceito deve incluir os trabalhadores nacionais, os subcontratados moçambicanos, a compra de bens e serviços dentro do país e a participação do capital nacional. “Estes quatro elementos é que dão conteúdo local.”
O empresário apresentou ainda exemplos de empresas que começaram com pequenos contratos e foram crescendo através de formação, certificação e transferência de conhecimento.

A mensagem é que a participação nacional não precisa necessariamente começar nos grandes contratos. Pode começar nas pequenas oportunidades criadas em torno dos grandes projectos.

Santi defendeu também que as empresas europeias que chegam a Moçambique devem deixar de ser vistas apenas como executoras temporárias.
Segundo o empresário, o investimento estrangeiro pode contribuir para transformar, produzir e criar valor em Moçambique, desde que exista uma ligação efectiva com o empresariado nacional.
Mas não poupou ao Governo, apontando que “a burocracia é excessiva, deve ser resolvida.”

FUNAE: energia deve chegar às comunidades para produzir e criar negócios

A Directora da Divisão de Electrificação do Fundo de Energia, Arcádia Nhantumbo, trouxe para o debate uma perspectiva diferente: como garantir que a expansão da energia chegue também às comunidades que permanecem fora da rede eléctrica nacional.
Para Nhantumbo, uma comunidade não precisa de energia apenas para acender lâmpadas.

“As comunidades não necessitam somente de energia para a iluminação, mas também para criar condições para produzir, conservar, transportar e comercializar.”
É nesta lógica que o FUNAE está a estruturar um programa de aceleração do acesso à energia através de mini-redes.

O levantamento realizado identificou potencial para 363 mini-redes, com uma necessidade inicial estimada em 250 milhões de dólares.
Segundo a responsável, já existe financiamento praticamente assegurado para 148 mini-redes, num valor estimado de 94 milhões de dólares. Em Tete, foram identificadas oportunidades em Chifunde, Macanga, Marávia e Zumbo.

A estratégia não é simplesmente instalar mini-redes. O objectivo é ligá-las às actividades económicas existentes em cada comunidade.
“A preparação dos projectos deve considerar onde existe produção, quais são as necessidades dos negócios locais e como a energia pode ultrapassar estes constrangimentos.”

É também aqui que o FUNAE vê uma oportunidade para o sector privado.
Empresas poderão participar em estudos de viabilidade, engenharia, construção, fornecimento de materiais e equipamentos, instalações eléctricas, transporte, operação e manutenção.

A aposta inclui ainda a participação de empresas sediadas na própria província, procurando criar competências e fornecedores locais.
“O nosso objectivo é transformar o investimento em energia, em melhores condições de vida, actividade económica e emprego nas comunidades rurais.”

Tomáz Salomão: Tete pode ser uma peça-chave no mercado energético da SADC
O antigo Secretário Executivo da SADC, Tomaz Salomão, ampliou o debate para além das fronteiras nacionais.
Para Salomão, Moçambique está inserido numa região com cerca de 428 milhões de habitantes, onde o défice energético continua a constituir um dos grandes desafios para o crescimento económico.

E, nesta equação regional, Moçambique ocupa uma posição privilegiada.
A Hidroeléctrica de Cahora Bassa, conforme destacou, tem sido fundamental para o equilíbrio energético regional. “É graças a essa hidroeléctrica que nós temos energia.”

Mas Salomão entende que o défice energético da SADC não deve ser visto apenas como um problema. É também uma oportunidade para Moçambique aumentar a produção, atrair investimentos e exportar energia.

O potencial hidroeléctrico do país, sobretudo na bacia do Zambeze, coloca Tete no centro dessa estratégia.
Defendeu que Moçambique deve aproveitar os recursos disponíveis para produzir energia para o mercado regional.
Por outro lado, o antigo dirigente da SADC questionou a pressão internacional para que países africanos não utilizem carvão para produzir energia, enquanto o próprio continente continua a exportar o recurso para grandes mercados internacionais.

Ainda assim, reconheceu a necessidade de incorporar medidas de protecção ambiental.
Alerta particularmente para os grandes projectos hidroeléctricos apontando que “o desenvolvimento energético não pode acontecer à custa do ambiente.”
Para Salomão, a estratégia de desenvolvimento de Tete também não pode ficar limitada à energia.
Rodovias, logística e transportes são igualmente necessários para reduzir custos e aproveitar a localização estratégica da província, que liga Moçambique a importantes mercados do hinterland.

A formação de recursos humanos completa, na sua visão, esta equação, dado que “Investir nos recursos humanos é garantir o futuro dessas nações.”
A mensagem de Salomão é que Tete pode produzir energia para Moçambique e para a região, mas precisa simultaneamente de criar as condições para transportar essa energia, movimentar mercadorias, formar pessoas e integrar-se nos corredores económicos da África Austral.

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