“Sangue em flecha” é um romance que se desdobra entre Maputo, Magude, África do Sul e China, e, mais para o fim, Niassa. É-nos revelado por um narrador autodiegético, talvez por isso com mais propriedade o caro leitor se mergulhe e perca na história, confundindo as suas peripécias com a sua história de vida, pela naturalidade com que é narrada a vida de Salomão, jovem que não se entende com o pai e, por isso, é muito apegado à mãe.
Salomão é um jovem oriundo de uma família com posses, que vive no centro da cidade de Maputo. Economista de formação, entretanto, nunca chegou a exercer a sua profissão, pois não gosta de trabalhar e depende dos pais, pelo que se dedica a gerir namoros efémeros com distintas mulheres que, apesar do amor não correspondido, morrem de amores.
Por conta das desavenças frontais com o pai, decide abandonar os pais e ir a Magude, terra natal do pai, à procura de reestruturação da sua vida. Por ser apaixonado pela fotografia, leva consigo uma máquina fotográfica, para registar todos os momentos e lugares pelos quais passaria. Em Magude, é convidado por um português, Mulungo, a trabalhar como motorista e este aceita. Todavia, o seu espírito de “rabo de saia” possuía-o, pelo que se apaixona pela esposa mais nova do seu polígamo tio, Arão. Por conta do possível incesto que fosse cometer, porque já tinha fotografias suficientes para uma possível exposição, Salomão decide abandonar o emprego e o tio, alegando que já tinha recolhido imagens suficientes.
Nesse interlúdio, Romão, seu primo, convida-o a um projecto supostamente financiado pelos EUA. Salomão entrava, involuntariamente, num grupo de caça-furtiva, sediado na África do Sul, dentro do qual, com as idas e voltas a Maputo, África do Sul e Magude, vivia um triângulo amoroso mal construído com Elisa e Jane, até que lhe é apresentada a Luísa, que se torna sua esposa e ajuda a concentrar-se.
Nesse ínterim, Salomão consegue sair do xadrez criado pelo primo, até que fizesse parte do grupo de caça-furtiva e mergulha-se não no ramo da Economia, mas de Educação Ambiental, tendo criado o projecto Casa da Natureza, com o objectivo de ensinar às comunidades, principalmente crianças, lições de protecção ao ambiente, com especial enfoque para recursos faunísticos.
Salomão metia-se, afinal, num outro problema, pois o seu passado o perseguia. Romão, que outrora estava morto, ressurge para atormentar a sua vida; Lídia já não aguentava as ausências de Salomão e via o seu relacionamento esfriar, banhado de mentiras e incongruências. Salomão vê a Casa da Natureza em chamas e, consequentemente, os seus sonhos tornando-se em cinza.
Nisto, Salomão, de em quando em vez, recompunha-se na Rua Araújo, com a prostituta Rosa que, mais do que uma prostituta, se servia de conselheira; chegando, em algumas vezes, a não se envolverem sexualmente.
Ora, em “Sangue em flecha”, há uma representação clara do realismo social moçambicano, nomeadamente a dicotomia campo-cidade, a poligamia, a traição, etc., apresentando uma intertextualidade com as obras “Niketche”, de Paulina Chiziane, e “Ilusão à Primeira Vista”, de Almeida Cumbane.
O realismo foi um movimento artístico-literário que surgiu nas últimas décadas do século XIX, na França, no qual os escritores retratavam o Homem e a sociedade tal como eram. Tal como se pode aferir em diversas fontes, ele surge na Europa, especificamente na França, e vai sendo desenvolvido noutros continentes, porém, é manifesto em textos em prosa.
Para Reis e Lopes (2002), a representação pode ser abordada em termos dialécticos e não dicotómicos, o que significa que, entre o representante e o representado, existe uma relação de interdependência activa, de tal modo que o primeiro constitui uma entidade mediadora capaz de concretizar uma solução discursiva que, entretanto, continua ausente.
Esta abordagem conduz-nos à noção de pseudoreferencialidade que, de acordo com Silva (1984), se configura não por referencialidade imediata, mas mediata, pois que, embora haja uma relação de interdependência activa entre o representante e o representado, o discurso artístico afirma-se relativamente autónomo.
Veja-se, por exemplo, quando o narrador descreve a vida do campo e, igualmente, a poligamia, quando diz:
“Tinha dito que não voltaria para o almoço, mas, pelo caminho, arrependi-me. Devia era ter dito ao tio Arão. Ele é que fazia a gestão de tudo em casa, desde as quantidades do que comíamos todos os dias até à hora das refeições. Na hora das “manjas”, o meu tio vigiava as panelas. Os olhos acompanhavam cada pedaço de galinha que ia aos nossos pratos. Ele ficava sempre com a melhor parte. A Elisa preparava uma galinha inteira só para ele.
Quando se comesse peixe, os maiores peixes eram para o meu tio. Eu achava tudo aquilo repelente. Tive que me habituar. Ele era o oposto do meu pai. A única semelhança que havia entre eles era idade, o mesmo rosto e muita altura. Altura que herdei. Meu tio parecia mais velho que o meu pai. Talvez seja por gerir muitas mulheres e muitos filhos, isso também envelhece muito rápido a qualquer um.” (Espada, 2025:43) (destaque nosso) No que concerne à traição que, aliás, Espada soube muito bem encaixá-la, através da analepse (recuo), um recurso estilístico muito usado para arrefecer a narração e, através do encaixe que o caracteriza, esclarecer algumas nuances da narrativa, o narrador revela que foi naquela circunstância em que ficou a saber que o pai, Jerónimo, se envolvera com a esposa do irmão, mãe do Romão, quando assevera:
“(…) Meu pai baixou a cabeça. Eu acompanhei tudo. Foi nesse mesmo
dia em que fiquei a saber que os dois partilhavam apenas o mesmo quarto.
Durante muitos anos, o meu pai dormia num colchão. Nunca pensei que aquele
colchão que tantas vezes vi era onde o meu pai se deitava todas as noites.”
(Espada, 2025:47)
Como que em vaticínio à máxima segundo a qual “filho de peixe peixinho é”, o narrador expõe em claro o facto de ter sido um bom aprendiz, quando diz:
“Pela primeira vez, olhei para a minha tia. Nunca tinha reparado que
ela era uma mulher linda e com a parte traseira avantajada. Tomei banho e
decidi descansar. Eu estava cansado. Dormi só cinco minutos ou dez minutos.
Acordei e, ainda deitado, lembrei-me da Elisa. O seu corpo de menina
passeava pelos meus olhos. Levantei-me e saí para contemplá-la apenas.
Ninguém me podia proibir de sonhar um pouco e alimentar a minha vista. Nem
mesmo Deus. Ocorreu-me que eu estivesse a ficar maluco. (Espada,
2025:50) (destaques nossos)
Portanto, “Sangue em flecha” trata-se de um romance que retracta, numa linguagem simples e moçambicanamente trinchada, coadjuvada por suspenses e surpresas, o realismo social moçambicano, pincelado por poligamia, a vida do campo vs. cidade, traições e, acima de tudo, feridas abertas por flechas humanas. Estamos perante um romance que conjuga o
amor e o ódio, a perseguição e o amor à natureza e, por que não ao próximo?
Vale, por isso, lembrar o leitor que “não é ofício do poeta narrar o que aconteceu; é, sim, o de representar o que poderia acontecer, quer dizer: o que é possível segundo a verossimilhança e a necessidade.” (Aristóteles, 2003) Não é o nosso objectivo esgotar as nuances sugeridas pelo romance “Sangue em flecha”, mas, sim, espevitá-lo a que o adquire e navegue neste sangue que, por causa das flechas que a vida nos prega, jorra em nossas
vidas; pelo que deverá descobrir:
(i) Como terminou o relacionamento entre Salomão e Jane?
(ii) Como terminou o amor doentio entre Salomão e Elisa, sua tia mais nova?
(iii) Como terminou a Rosa, a prostituta conselheira? e
(iv) Que desfecho Salomão deu à sua vida?
Por fim, parafraseando Cumbane, após a leitura, se o livro for bom, recomende-o aos seus amigos; se for mau, aos seus inimigos. Só não deixe de o recomendar.
BIBLIOGRAFIA
ARISTÓTELES. (2003). Poética, 7ªed., Lisboa. Volume VIII.
ESPADA, S. (2025). Sangue em flecha, Maputo: Ethale Publishing.
REIS, C. e Lopes, A. (2002). Dicionário de Narratologia, 7ª.ed., Coimbra: Almedina.
SILVA, V. (1984). Teoria da literatura. 6ªed., Coimbra: Livraria Almedina.
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