O País – A verdade como notícia

Rostos inscritos nas linhas do carvão em “Memórias daqui”

Por: Fernanda da Lena Hermano

A história da arte é também a história das ausências. Em cada grande movimento, há nomes que não chegaram a ser escritos, vozes que não foram escutadas, imagens que nunca se materializaram porque as mãos que poderiam criá-las foram silenciadas antes do tempo.

Entre essas ausências, a presença feminina sempre foi um campo de disputa. Mesmo quando existem, as mulheres artistas precisam constantemente de reafirmar o seu espaço, justificar as suas narrativas, provar que a sua obra não é apenas uma extensão do doméstico ou do sentimental, porém um acto consciente de concepção e metamorfose.

Em meio a essa paisagem desigual, quando uma mulher escolhe o carvão – matéria rude e crua – e o pastel – frágil, quebradiço, mas radiante – para construir sua arte, ela está também a construir um território. Não apenas para si, entretanto para todas aquelas que ainda precisam romper barreiras para existir no campo da produção artística.

A exposição “Memórias daqui”, patente na galeria da Fundação Fernando Leite Couto, traz obras definidas por um jogo intenso entre o carvão e o pastel de óleo que conferem uma força emocional às imagens. Há rostos que parecem aflorar de uma memória distante, olhos que sustentam momentos repletos de emoção, traços que oscilam entre a nitidez e o esvanecimento. Indubitavelmente, Nelsa Guambe utiliza o desenho e a pintura como uma forma de escavação, isto é, cada linha é um resquício do que foi vivido e do que ainda ressoa.

Dentre as obras expostas, “Aiufa de Nankumi (29,7 x 42 cm, carvão e pastel de óleo sobre papel, 2024)”, não se impõe pelo deleite, mas pelo impacto. A composição nos apresenta um rosto feminino em desordem, uma identidade que se fragmenta entre o humano e o não-humano. A fusão entre a imagem e as criaturas que habitam sua cabeça propõe um estado de conflito, um embate entre forças internas e externas.

Duas entidades parecem dividir sua cabeça ao meio: à esquerda, um pássaro de presságio; à direita, uma forma menos definida, um híbrido de sombras que se confunde com o próprio traço da artista. Os olhos, inchados e marcados por tons de vermelho, azul e laranja, evocam um sofrimento que transcende a individualidade da imagem representada – um sofrimento que ressoa na memória de muitas mulheres, seriam marcas de violência? Seriam sinais de uma visão ampliada, que enxergam além do que é permitido? A obra abre a interpretações múltiplas, todavia não deixa dúvidas sobre sua força simbólica.

Na face, um segundo rosto se insinua. Seria um crânio? Um macaco? Um espírito ancestral?

A indefinição é precisamente o que o torna intrigante. Se um lado do rosto confere esse espectro do passado, o outro lado quase não existe – como se a ausência fosse a única possibilidade restante. O que significa ser uma mulher cuja metade da identidade foi apagada? O que resta quando a história de alguém é escrita apenas pelos outros?

A escolha dos materiais reforça essa tensão. O carvão, com a sua textura rugosa, gera uma sensação de pressa, de algo riscado rapidamente, como uma marca deixada em pedra. O pastel, mais delicado, introduz cor, mas não suaviza a dor expressa na imagem. Há algo bruto na obra, um desconforto visual que impede o espectador de apenas olhar sem sentir.

Outras obras também se destacam, pela sua potência e singularidade. Como em Duas Mulheres, aqui Nelsa nos apresenta um díptico intrigante. De um lado, um semblante de traços delicados, adornado com flores, exalando serenidade e graça. Do outro, um rosto de feições intensas, com um olhar perfurante, transmitindo vigor e determinação. A justaposição dessas imagens nos leva a questionar a complexidade da identidade feminina e a multiplicidade de papéis que as mulheres desempenham na sociedade. Seriam duas faces da mesma mulher? Ou representariam distintas gerações?

Contudo, nem todos os elementos da exposição alcançam a mesma potência expressiva. Em algumas obras, o traço parece sobrepor-se à emoção, resultando em composições visualmente densas, todavia carentes de subtileza. A paleta de cores, embora enérgica, por vezes se mostra previsível, enfraquecendo a capacidade de surpreender o espectador.

Apesar dessas pequenas ressalvas, na exposição “Memórias daqui” somos convidados a contemplar a força, a resiliência e a diversidade das mulheres, pois, “mulher é terra, sem semear, sem regar nada produz” (provérbio zambeziano, em Niketche de Paulina Chiziane), portanto, a arte serve como instrumento de empoderamento e transformação social.

Dessa maneira, as obras de Nelsa Guambe são como sementes que germinam no íntimo do espectador, despertando a consciência da força e da delicadeza da alma feminina. Seus retratos, esculpidos com carvão e banhados por cores resplandescentes, funcionam como espelhos que para além de reflectirem, também interpelam — revelando histórias, dores, lutas e esperanças.

 

Partilhe

RELACIONADAS

+ LIDAS

Siga nos