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Regresso de “My Loves” em Inhambane: a solução improvisada que coloca vidas em risco

Em Inhambane, o retrato do transporte público é, muitas vezes, um reflexo das dificuldades e das escolhas limitadas que a população enfrenta diariamente. Por mais de dez anos, os populares “My Loves”, carros de caixa aberta destinados ao transporte de carga, desapareceram das ruas da cidade, mas hoje estão de volta, forçados pela precariedade das estradas e pela falta de alternativas viáveis. Contudo, o regresso destes veículos, que são usados para transportar passageiros, gera uma sensação de impotência, um retrocesso à aquilo que parecia ter sido superado.

No centro deste cenário está a paragem, um ponto de espera que se tornou sinónimo de angústia para muitos. Os passageiros, na sua maioria trabalhadores e estudantes, são forçados a aguardar por muito tempo até que um “My Love” passe, lotado e com o risco de uma viagem cheia de percalços. 

Ricardo Lázaro é um dos muitos que enfrentam diariamente as dificuldades do transporte público em Inhambane. Utilizador regular dos “My Loves”, ele explica que, ao chegar à paragem, a espera muitas vezes é interminável. A paragem é, para muitos, um lugar de esperança que se desfaz ao longo das horas. “Eu fico aqui na paragem todos os dias, esperando por um transporte que, muitas vezes, não aparece. Não é fácil, ficamos a pensar que vamos ficar o dia inteiro aqui sem conseguir ir a lado nenhum”, desabafa Ricardo, visivelmente cansado.

Ricardo Lázaro, ao contrário de muitos, tem uma opinião mais pragmática. Para ele, a alternativa que lhe é oferecida é o “My Love”, que apesar de ser uma viatura improvisada e desconfortável, é a única opção que existe. “Eu sei que não é o transporte ideal, sei que os carros são para carga, mas a verdade é que são os únicos que vêm para nos levar. E, quando eles aparecem, precisamos subir, mesmo que seja apertado, mesmo que a viagem seja desconfortável”, diz ele, com um tom resignado.

Ricardo, assim como muitos outros, é forçado a se adaptar a uma realidade onde as escolhas são poucas e as alternativas ainda mais escassas. “A cidade cresceu, a população aumentou, mas o transporte continua o mesmo. Os ‘My Loves’ voltaram porque não há mais carros para nos levar, e as estradas não ajudam. O que resta é o que temos”, conclui Ricardo, olhando para a paragem, onde mais pessoas aguardam, com a mesma esperança e frustração.

Abílio Pedro, automobilista de um “My Love”, partilhou com a nossa equipa a sua perspectiva sobre o regresso dos veículos de carga às ruas de Inhambane. Ele explica que, apesar de muitos verem o uso dessas viaturas como uma solução improvisada, a verdade é que os “My Loves” são, na realidade, a única forma de transporte disponível para muitas pessoas que vivem na periferia da cidade. “As estradas estão em péssimas condições, não tem outro jeito. O ‘My Love’ é o único veículo que aguenta essas estradas. Não tem outro meio de transporte que consiga chegar até as zonas mais distantes”, conta Abílio Pedro, com a preocupação estampada no rosto.

Para Abílio, as vias danificadas, cheias de buracos e de condições precárias, são a principal razão pela qual as autoridades não conseguem garantir um transporte adequado para a população. “Não é só questão de querer, é questão de condições. Se as estradas fossem boas, os autocarros e outras viaturas mais adequadas poderiam circular. Mas a verdade é que as estradas estão impossíveis. O que a gente faz? Só nos resta utilizar o que temos à disposição”, explica, enquanto observa os passageiros a subirem e descerem do “My Love” com a pressa de quem sabe que não há outra alternativa.

Rodrigues Gueze, presidente da Associação dos Transportadores Rodoviários de Inhambane, reforça o ponto de vista de Abílio e explica que o regresso dos “My Loves” à cidade não é uma decisão voluntária dos transportadores, mas uma consequência das condições das estradas e da falta de alternativas viáveis. “O regresso dos ‘My Loves’ é reflexo de um problema estrutural mais profundo. As vias que ligam os bairros periféricos da cidade não são adequadas para veículos pesados e autocarros. A maioria dos carros que circulam por essas ruas são pequenos, robustos, como os ‘My Loves’, porque só eles têm a resistência necessária”, explica Gueze, com uma dose de frustração, mas sem atacar diretamente as autoridades.

Ele destaca ainda que a situação exige uma intervenção urgente e uma requalificação das vias para garantir que a cidade e os seus arredores possam ter acesso a transportes mais seguros e eficientes. “Precisamos de melhorias nas estradas e no transporte público. A cidade está a crescer, a população também, e os problemas de transporte apenas se agravam. O ‘My Love’ é uma solução momentânea, mas não pode ser a solução permanente”, afirma Gueze.

Para o presidente da associação, a responsabilidade não é apenas dos transportadores, mas de todos, incluindo as autoridades competentes, que precisam atuar para reverter a situação. “Não se trata de um problema apenas de transporte. Trata-se de um problema de infraestrutura. Sem as estradas adequadas, não há como garantir transporte seguro para a população”, conclui.

A volta dos “My Loves” representa um retrocesso na luta pela melhoria das condições de transporte em Inhambane. Apesar de serem vistos como uma solução prática para as dificuldades do dia a dia, esses carros de carga representam um perigo iminente para os passageiros, que enfrentam viagens desconfortáveis, sem qualquer garantia de segurança.

A cidade, que há pouco tempo se orgulhava dos avanços conquistados na modernização das suas infraestruturas, agora vê-se novamente refém de soluções improvisadas que colocam vidas em risco. O regresso dos “My Loves” à cidade de Inhambane é um alerta de que, por mais que se evolua, certos problemas estruturais ainda persistem e continuam a afetar os mais vulneráveis.

A cidade de Inhambane tem a capacidade de se modernizar e de garantir um futuro melhor para todos. Mas, para isso, é necessário investir em soluções duradouras e não em alternativas que, ao invés de resolver, apenas camuflam os problemas e colocam as vidas dos cidadãos em risco. O momento de agir é agora.

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