O Presidente da República disse, no sábado, em Nampula, que a população que está sitiada ignorou as mensagens de apelo para se retirar com antecedência das zonas de risco. No entanto, Daniel Chapo garantiu assistência por via aérea. Quanto à reposição da transitabilidade na EN1, assegurou que estão a ser mobilizados todos os meios para que seja o mais breve possível.
O Presidente da República, Daniel Chapo, visitou, no sábado, a província de Nampula, a mais afectada pela passagem do ciclone Jude, para avaliar o impacto da destruição, prestar solidariedade às comunidades atingidas e coordenar as acções de resposta e recuperação.
Durante a visita, o Chefe do Estado constatou que as condições de assistência às populações afectadas estão criadas, com o fornecimento de alimentos e assistência sanitária garantida. “A nossa presença em Nampula é com dois objectivos principais, nomeadamente solidarizar-nos com a população da província de Nampula, Cabo Delgado, Niassa e também da província da Zambézia, mas também apresentarmos as nossas condolências às famílias enlutadas”.
Daniel Chapo confirmou ainda os dados apresentados pelo Instituto Nacional de Gestão de Riscos e Desastres, em relação a mortes e feridos. “Aqui, na província de Nampula, o INGD comunicou-nos que tivemos 11 óbitos e 36 feridos”, afirmou Chapo.
O Chefe do Estado destacou o trabalho preventivo realizado pelo INGD e pelos Comités Locais de Gestão do Risco de Calamidades. “Se não houvesse esse trabalho do grupo de avanço dos colegas do INGD e também, sobretudo, dos Comités Locais de Gestão do Risco de Calamidades, os danos seriam maiores em termos de mortes e outras situações”, reconheceu.
No rio Monapo, onde a Estrada Nacional Número Um (EN1) sofreu um corte significativo, Chapo constatou o avanço dos preparativos para a reparação. “Saímos de lá satisfeitos, primeiro porque o empreiteiro já está mobilizado, já está no local com o equipamento, mas está à espera de camiões chegarem para carregarem a pedra e irem descarregar no local para podermos repor a ligação das duas províncias”, disse o Presidente.
O Presidente destacou a mobilização de empreiteiros para restabelecer a ligação entre as províncias de Nampula e Cabo Delgado. Além do corte no rio Monapo, houve corte no rio Mecubúri. Assim sendo, o estadista explicou que o empreiteiro de Cabo Delgado vai repor primeiro no rio Mecubúri, o que vai possibilitar os trabalhos da reposição da estrada no rio Monapo.
O Presidente da República considerou o balanço da visita positivo, reafirmando o compromisso do Governo em garantir a rápida recuperação das infra-estruturas e o retorno à normalidade nas províncias afectadas. “Nós estamos a fazer tudo por tudo para repor as vias de acesso, sobretudo a EN1 e a estrada que liga Nacala, Nampula, a partir do rio Monapo, de forma a que possamos colocar a nossa economia a trabalhar e garantir a circulação de bens”, concluiu o Presidente da República.
Chapo apresentou quatro recomendações para a recuperação das áreas afectadas. A primeira recomendação é que a Administração Nacional de Estradas (ANE) e o ministro dos Transportes e Logística, que já está no terreno, não saiam de Nampula sem repor a ligação, primeiro de forma condicionada para viaturas ligeiras, depois para viaturas pesadas; a segunda recomendação é cuidar das populações nos centros de acomodação; a terceira é continuar a assistir as populações ainda sitiadas por via aérea ou rodoviária, caso as águas baixem; e a última recomendação é sensibilizar as comunidades sobre a importância de evacuar zonas de risco sempre que houver avisos de calamidade.
População da Ilha de Moçambique sitiada em Natemba
Há uma população que está sitiada no distrito da Ilha de Moçambique. O INGD teve que recorrer a um helicóptero não adequado para o transporte de carga para levar papa quente para as crianças que estavam havia dias sem comer.
As imagens vistas de cima projectam várias zonas com inundações, localizadas no distrito da Ilha de Moçambique, em consequência da passagem do ciclone Jude na província de Nampula. Entretanto, o que mais preocupa é a zona de Natemba, onde a população está sitiada.
Relatos dos residentes referem que a água do rio Monapo fechou todos os acessos, deixando um número significativo de pessoas sem qualquer tipo de assistência.
“Quando enche, aquela água primeiro fecha os rios, porque vem dos bairros. Se tivéssemos um lugar por onde pudéssemos passar, nós podíamos fugir”, disse Omar Momede, residente em Natemba, distrito da Ilha de Moçambique.
Na quinta e sexta-feira, a presidente do INGD, Luísa Meque, juntamente com o secretário de Estado em Nampula, fizeram um sobrevoo e, depois de identificarem a população em desespero, tiveram de pedir ao piloto para ajudar a levar papa quente de um centro próximo no distrito da Ilha de Moçambique e alguns produtos alimentares para a população de Natemba.
“Aqui, em Natemba, quando o ciclone entrou, praticamente vocês ficaram num sítio onde não há saída, por causa da água, todos os lados rodeados de água. Então, nós tivemos conhecimento através do nosso administrador daqui, do distrito da Ilha de Moçambique, que há uma comunidade que não tem comunicação. Para chegar aqui, a nossa preocupação era: vamos chegar de mãos de abanar? Não podemos, porque sabemos que aqui há crianças, há pessoas idosas, há mães grávidas. Por isso é que usamos o meio aéreo para trazer produtos alimentares para apoiar aqui, para assistir nesta comunidade, mas a nossa maior preocupação está nas crianças”, disse Luísa Meque no primeiro encontro com a população de Natemba.
O ambiente é de choros, devido à fome em Natemba, e não é para menos! Foram dois dias sem alimentação, segundo contam os residentes daquela região. Omar Momade diz mesmo que os produtos ficaram molhados. “Só comemos de qualquer maneira, comemos de qualquer maneira, porque toda a comida, a nossa comida é caracata, então a toda caracata está molhada”, disse.
Edmane Saíde pede apoio a quem de direito, para que enviem mais alimentos a Natemba. “Estamos a pedir socorro, socorro mesmo, que nós estamos a precisar. Como está a ver, temos casa destruída, muitas coisas foram embora, e temos apenas roupa. Somos assim mesmo, nem chinelo, nem nada”, pediu Edmane.
Já o administrador da Ilha de Moçambique, Silvério João, diz que a falta de comunicação com a população de Natemba deixou a administração impotente e desesperada, mas aliviada quando conseguiram fazer o contacto. “Pelo menos já passaram duas noites deste o dia 10, em que não havia comunicação, mas sabíamos que havia lá pessoas sitiadas, mas sem comunicação, nem via terrestre, nem via aérea. Nós estávamos impotentes e desesperados sem saber como é que poderíamos chegar lá. Então com a chegada deste meio é como se fosse uma espécie de uma benção para nós”, realçou Silvério João.
A pouca quantidade de alimentos não confeccionados que foi descarregada na sexta-feira em Natemba acabou por ser tomada por um pequeno grupo de populares.