Na pacata cidade de Inhambane, onde o mar sussurra segredos e as palmeiras dançam ao vento, uma tragédia silenciosa tem ceifado vidas sem alarde.
Num bairro tranquilo da terra da boa gente, o som do rádio de uma vizinha preenchia a manhã quando a notícia chegou. Rungo, um jovem de 32 anos, foi encontrado sem vida no quarto que alugava e ninguém percebeu os sinais. Ninguém sabia das noites mal dormidas, das dívidas acumuladas, do coração partido. A vizinhança ficou em choque, mas o luto foi rápido. “Ele devia estar a passar dificuldades”, comentaram alguns, antes de voltar à rotina. O silêncio que marcou a vida de Rungo foi também o epitáfio da sua morte.
Esta história, infelizmente, não é única. Em Moçambique, o suicídio é uma tragédia que ocorre em silêncio. Dados indicam que, em média, 8,4 pessoas por 100.000 habitantes tiram a própria vida todos os anos, e a maioria são homens.
Em 2023, quase cem pessoas tiraram a própria vida nesta província, com a maioria dos casos ocorrendo nas cidades de Inhambane e Maxixe, bem como nos distritos de Homoíne e Jangamo, mas o problema vai muito além dos números.
O que falta em cada estatística é a vida real de quem foi levado ao limite. É o rosto de homens que, pela pressão de parecerem fortes, nunca encontram espaço para desabafar.
A sociedade moçambicana, como muitas outras, ensina aos homens desde pequenos que “chorar é fraqueza” e “pedir ajuda é sinal de derrota”. Estas ideias tóxicas criam um ciclo de isolamento emocional, onde muitos se veem presos. Quando problemas financeiros, desgostos amorosos ou desafios sociais surgem, o peso da solidão cresce. Sem um sistema de apoio — sem uma palavra amiga, um abraço, ou até mesmo a coragem de procurar ajuda —, a ideia de terminar com tudo pode parecer, para eles, a única saída.
Mas onde estamos como sociedade? Onde está a família, que deveria ser um porto seguro? Muitas vezes, as famílias ignoram sinais claros de sofrimento porque os homens “são fortes e aguentam”. E a igreja? As comunidades religiosas precisam abrir espaço para discussões francas sobre saúde mental, quebrando os preconceitos que afastam as pessoas da ajuda necessária. O mesmo vale para a comunidade em geral. É urgente criar espaços onde os homens possam falar, chorar e ser vulneráveis sem medo de julgamento.
Em Moçambique, já vimos histórias que poderiam ter tido finais diferentes. Há casos de homens que tentaram pedir ajuda, mas foram ignorados. Uma mensagem não respondida. Um apelo descartado como “drama”. Estas são oportunidades perdidas, feridas abertas que deixam famílias a perguntar “o que poderíamos ter feito?”
Para prevenir esta tragédia silenciosa, precisamos de um esforço coletivo. É necessário educar crianças, homens e mulheres sobre a importância de expressar sentimentos. É essencial que a família esteja presente, que a esposa ou companheira seja uma aliada para ouvir, compreender e apoiar. É fundamental que todos nós, como sociedade, digamos aos homens que “está tudo bem em não estar bem”.
Cada vida perdida é uma voz que não foi ouvida, um grito que nunca chegou a ecoar. Não podemos permitir que os homens continuem a morrer sem serem ouvidos. O silêncio não pode ser o seu destino. É hora de mudar esta narrativa, antes que mais vidas sejam engolidas por este peso invisível.