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O Horizonte e a escrita de José dos Remédios

“O romancista não é nem um historiador, nem um profeta: é um explorador da existência”. Milan Kundera

Adelino Timóteo Zuca, o cronista da vida

Tomei conhecimento que José dos Remédios lançaria a obra O Horizonte e a escrita, abordando oito (8) livros publicados por Adelino Timóteo. Este último já palmilhou a picada dos imortais. Convenhamos, ambos, desfrutam dessa nobreza que consiste em sermos felizes e superiores ao que éramos antes.

Adelino Timóteo Zuca. Longe de mim qualquer pretensão de atrapalhar o leitor. Zuca é nome de família. Timóteo também é de família, porém, coreograficamente, artístico, imutável e de fácil memorização. Tive a oportunidade de ler e reler algumas das suas obras, ele que é irmão gémeo, de uma família de quatro irmãos e engravidado de prémios nacionais e internacionais, pela sua criatividade. Nós, os de Macurungu, Mulungu, Nação Pária, Apocalipse dos predadores, Os oito maridos de dona Luiza Michaela da Cruz e Cemitério dos pássaros. Desconsegui, por alguma razão, os restantes. Dificilmente os encontros à venda.

Adelino Timóteo. Falo desse irreverente, audacioso, ousado jovem escritor que tanto orgulha a nova fornalha de escritores do pós-independência. Ele nos recorda que vivemos todos sob o mesmo céu, porém, nem todos com o mesmo horizonte. Apesar de não o conhecer fisicamente – nem importa, pois, as oportunidades ainda não proporcionaram – imagino alguém que tenha mais de dois metros de altura, peso de fazer inveja, cabeça fresca e atenta. Daqueles jovens do Macurungo que merecem respeito, pela veia contestatária. Sempre o achei um cidadão comprometido, que não sabe fingir, nem se esgota em temáticas da actualidade e desse passado sempre presente. Conheço a sua obra. Aliás, prosélita e vertical. Assumo que ele se dedica de corpo e alma naquilo que faz. Deve ser obcecado naquilo que melhor sabe fazer. Vou lendo e adivinhando seu carácter, por vezes, revelando alguma fúria, outras, profunda infelicidade, desamparo, perdição, mas, acima de tudo, total dificuldade em se resignar às omissões, displicência e ao próprio destino.

Os alicerces da narrativa em Adelino Timóteo se confundem com esse espólio que teima não desvalorizar o passado recente. Adelino se confunde entre o pintor de quadros e o de palavras. Alguém que bebeu talentos, virtudes, manias, mas que não se liberta de vaidades positivas. Como diz Marcelo Panguana, em Conversas do fim do mundo, “se quisermos aflorar um pouco a biografia do Adelino, facilmente, poderemos constatar que é uma espécie de motorista de longo curso, plural na forma como se identifica com a literatura, a pintura, o jornalismo e a arte de saber viver, isto é, de saber ser e estar”.

Concordo, até que este jovem e interventivo escritor tem essa enorme coragem e capacidade que o tornam peculiar, embrenhando-se, de forma extraordinária e criativa na radiografia do seu país, detectando os seus males, o que nos apoquenta, mas principalmente, sugerindo as terapias, no exorcizar de fantasmas, no expurgar de preconceitos e verdades atiradas para baixo do tapete. Ele procura o melhor em cada uma, e em todas às pátrias.

Adelino Timóteo revela uma paixão irreparável e indiscutível sobre a religião. Essa relação entre a fé em Deus e os espíritos dos antepassados. Revendo a crónica dedicada à sua Mãe, Maria Elisa Timóteo Zuca, redescobri essa ligação intrínseca sobre à reivindicação dos valores africanos assentes na tradição africana. Ele faz alusão, intermitente, entre o cristianismo e o património cultural, imaterial africano, que nós adoramos designar como superstição. Os seus romances desaguam, deliberada ou sem intenção, nesses curandeiros que lidam com obuses e estabelecem contactos entre vivos e antepassados. Estes personagens que acrescentam valor ao imaginário associado às crenças tradicionais.

A escrita de Adelino Timóteo torna evidente essa preocupação pelo ser feminino, colocando as personagens femininas no centro da narrativa, nessa tentativa de veicular cenários catárticos, como refere José dos Remédios, que elevem a imagem da mulher. Assim, não admira essa importância que dá a virgindade, como esse símbolo de pureza, maculando-a, ao mesmo tempo que tem a traição como algo muito comum. A violência doméstica está presente em Adelino Timóteo.

Este autor ou o senhor das “narrativas timoteanas” fez uma revelação fascinante. Escreve, compulsivamente, escreve oito horas por dia, como se o mundo precisasse de suas palavras para carburar e oxigenar às almas. A sua narrativa tem um percursor, Heliodoro Baptista. Adelino se transfigurou como fiel discípulo. Heliodoro Baptista, saudoso e incontornável poeta, quebrou silêncios, fez greves de fome e atrapalhou o poder instituído, com o livro Nós joelhos do silêncio. Quanta falta deve fazer a nova geração de escribas.

Quem sai aos seus não degenera, assim dizia um velho provérbio. Adelino Timóteo, então, tem esse espelho como referência. Ficou bem mais fácil revê-lo e entender sua trajectória. Qualquer um deles tem o mérito de tentar, sempre, corrigir a vida ou o destino. Assim são os ousados escribas que repudiam a ementa, não vivem de clichés e detestam o que lhes é colocado como verdade absoluta. Libertaram-se das amarras maquiavélicas usadas pelos fascínios do populismo barato.

Os horizontes de José dos Remédios

Com agradável surpresa, recebi das mãos de José dos Remédios um exemplar do livro O horizonte e a escrita ainda com cheiro de pão quente, à semelhança do pão que motivou e inspirou escritores e poetas, como Suleiman Cassamo, no seu livro O regresso do morto. Esse pão que alimentou “Laurinda, tu vai mbunhar”. O pão e a escrita caminham lado a lado. Alimentando os mendigos das leituras, os espíritos dos sedentos. Tamanha generosidade teria um preço. Conversamos sobre o lançamento e a possibilidade de dizer duas palavras. Essas tarefas dos iluminados Gilberto Matusse, Teresa Manjate, Almiro Lobo e outros.

Em meio da pandemia, dos desafectos, deste mundo que se cansou de todos nós, logo pensei nessa imagem discursiva intervencionista e inconformada que acima referi, nesse intrincado universo das nossas debilidades, no revisitar desta cultura e seus devaneios. Pensei nos horizontes dos nossos horizontes sombrios, desgarrados e já sem brilho.
O horizonte e a escrita pareceu-me, logo no começo, esplêndido e, esteticamente, fascinante. Fez-me recordar aquele provérbio que dizia, os homens são como os livros, devemos tomá-los pelo seu valor e não pelo aspecto. Eu tomei este livro, nessa dupla dimensão. Uma reflexão e crítica amadurecida, descomprometida, e isenta de alienações. Uma edição criativa e pouco convencional.

Concordamos todos que, na narrativa, predominam duas dimensões essenciais. A primeira, atinente a cronologia dos eventos, e a segunda, cristalizada no tempo do discurso. Assim, tem sido a literatura moçambicana. Abundante, fugaz, soberba, em alguns momentos, escassa, melindrosa, menos conseguida, em outros, porém, dinâmica e versátil. Repleta, agora, de novos autores criativos e interventivas editoras, mais reconhecidas internacionalmente, espaços de língua portuguesa, o que confere e traduz outra qualidade, postura e um nicho de mercado mais apetecido e desdobrável. Porém, esta literatura carece de análise crítica.

Carecemos de críticos apaixonados, incisivos e descomprometidos. Fazem falta esses advogados literários. Aqueles cuja missão confere uma outra dimensão e pujança a escrita. Os ditos que, no universo da literatura produzida, revelam as debilidades, os exageros, os contornos de obras mais elaboradas e estruturadas. A crítica literária, não importam as épocas e os períodos históricos, transportam consigo essa missão transformativa, destapam méritos duvidosos, recolocam as verdades na meritocracia e a relevância do rigor. Por carecer destes atributos, igualmente, me distancio dessa função e missão. Evito que esses laços afectivos e a proximidade atrapalhem leituras correctas, me afastem de juízos de valor, olhares precipitados, enfim, conclusões menos justas e conseguidas.

Em José dos Remédios vejo uma promessa para Moçambique, que merece encorajamento e espaço. Nessa pesquisa e no esgravatar de argumentos literários. Este autor que agora devo assumir como promessa confirmada para a literatura e jornalismo deste país, evidencia o que já sabemos faz tempo. Aliás, ele se socorre e recorre a Yves Reuter (1996) quando argumenta que toda a história é história das personagens, ainda que a manipulação dos eventos caiba ao narrador. Enredo e personagens exprimem, ligados, os intuitos do romance, os significados e valores que o animam. Complementa António Cândido et al. (1995).

José dos Remédios, abastecido e munido de algum traquejo e tarimba na arte, literatura e dramaturgia, nasceu presenteado de múltiplos talentos. Faz de tudo um pouco. Desse pouco, quase tudo. Possui inúmeros ensaios publicados na imprensa. Neste livro, O horizonte e a escrita, se aventurou na espinhosa missão de rever criticamente Adelino Timóteo. Antes, fez o mesmo, com um ensaio sobre a poesia, complexa poesia, de Noémia de Sousa.

Mergulhou, livre de qualquer enfermidade, na análise narrativa de Timóteo. Teve essa equilibrada missão de rever este “cronista da vida” com uma paciência de ouvires, fazendo uma leitura fielmente retractada, resignificando as metáforas, acantonando as sombras desse passado que jamais pode ser presente, rebuscando esses alicerces de um olhar apaixonado pelo país e pelo seu povo, muito para além das nuvens negras que, misteriosamente, habitam em suas entranhas.

Relendo a crítica do José dos Remédios, recordei-me da passagem que descrevia a travessia ao Mediterrâneo, do romance A virgem da Babilónia. Impressiona essa articulação. Impressiona essa travessia do Egipto até a cidade da Beira, passando pelo deserto, pela Somália, Sudão, Tanzânia e etc. A travessia que faz o país desaparecer. A Nação serve-se de amuleto que lhe permite caminhar mais de 10 km em meia hora. Aqui as analogias aos nossos emigrantes que caminham mais de mil quilómetros no percurso Moçambique e a África do Sul. Quais serão os novos amuletos?

Adelino Timóteo e José dos Remédios se vestem de preocupações literárias que mexem com o tecido social moçambicano. Usam recursos alegóricos, umas vezes irónicos e outros sarcásticos, para rever essa realidade contaminada. No final, eles, nem por isso, são autores de histórias com desfechos emocionantes e fascinantes, nem com final feliz de encher a alma e conto de fadas. Por sinal, até são melancólicos, porém, preparados para um novo recomeço. Assim, são as pessoas que acreditam e nós acreditamos nesta nova geração. (X)

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