Cerca de 3,5 milhões de moçambicanos enfrentam insegurança alimentar aguda, colocando o país entre os mais vulneráveis de África, num contexto de conflito armado, pressão económica e ameaças climáticas crescentes, segundo relatório da organização africana AGRA.
“Moçambique continua a enfrentar uma situação de segurança alimentar mista, com condições de crise [IPC Fase 3] a persistirem nas áreas afetadas pelo conflito em Cabo Delgado e no norte de Nampula”, refere-se no relatório Monitor de Segurança Alimentar, divulgado ontem pela Alliance for a Green Revolution in Africa (AGRA), organização africana com sede em Nairobi que promove a transformação dos sistemas alimentares e o desenvolvimento agrícola no continente.
De acordo com o documento citado pela Lusa, com dados até Agosto, aproximadamente 18% da população moçambicana analisada está em situação de insegurança alimentar aguda, colocando o país entre os mais vulneráveis da África austral. Apesar do apoio proporcionado pelas reservas alimentares remanescentes e pela produção da segunda época agrícola em algumas zonas, a organização alerta que o cenário deverá deteriorar-se nos próximos meses.
“À medida que a época de escassez se aproxima e as reservas alimentares das famílias diminuem, algumas áreas deverão deteriorar-se para condições de crise entre outubro e janeiro, impulsionadas pelos elevados preços dos alimentos básicos e pela redução do poder de compra”, alerta-se no documento.
Em Moçambique, a situação é particularmente preocupante em Cabo Delgado e no norte de Nampula, onde a violência armada continua a afetar o acesso a alimentos, mercados e meios de subsistência, agravando a vulnerabilidade das populações deslocadas.
No plano dos preços, o milho, principal cereal consumido no país, registou uma redução mensal de 2% em Agosto, beneficiando da entrada das colheitas nos mercados e de uma melhoria da disponibilidade do produto. Ainda assim, os preços permanecem 10,7% acima dos registados no mesmo período de 2025. Já o arroz registou uma subida mensal de 3,6%, refletindo pressões localizadas na oferta e custos associados às importações.
No relatório destaca-se igualmente o peso dos custos energéticos na economia moçambicana, apontando-se que o preço do gasóleo permanece 85% acima dos níveis registados em Março, uma das maiores subidas observadas na região, com impacto direto sobre os custos de transporte e produção agrícola.
A nível regional, a África austral apresenta tendências divergentes. Enquanto a Zâmbia beneficia de colheitas robustas e de uma situação alimentar considerada relativamente estável, Malawi, Moçambique e Zimbabué enfrentam perspectivas de agravamento da insegurança alimentar durante a próxima época de escassez.
Uma das principais preocupações apontadas no monitor prende-se com a evolução do fenómeno El Niño.
“Um poderoso fenómeno El Niño está a desenvolver-se no Oceano Pacífico e deverá tornar-se um dos mais fortes alguma vez registados, aumentando significativamente os riscos climáticos em África”, assinala-se no documento.
As previsões apontam, segundo o documento, para precipitação abaixo da média e temperaturas acima do normal em grande parte da África austral durante a campanha agrícola 2026/27, cenário que poderá comprometer a produção agrícola e os rendimentos das famílias rurais.
No quadro continental, a insegurança alimentar continua particularmente severa em países afetados por conflitos. A Nigéria concentra o maior número de pessoas em crise alimentar ou pior, com 36,3 milhões, seguida pelo Sudão do Sul, com 7,8 milhões de pessoas afectadas.
No leste africano, o Sudão do Sul continua a enfrentar uma das mais graves crises alimentares do mundo, enquanto Etiópia, Quénia e Uganda permanecem sob pressão devido a choques climáticos, deslocações populacionais e subida dos preços dos alimentos.
Na África ocidental, conflitos, insegurança e perturbações dos mercados continuam a afetar países como Mali, Níger, Burkina Faso e Nigéria, apesar das perspetivas de melhoria da oferta alimentar com a entrada das novas colheitas.