O grafite na sua forma originária – desenho/inscrição/assinatura – não é uma estética endógena do panorama estético e das artes plásticas de Moçambique. Ainda é novo o processo de reconhecimento do grafite e da pichação – acto de escrever ou desenhar em espaços urbanos, como muros e edifícios, com tinta spray – nas ruas de Maputo, concretamente, em vias abandonadas e que são estrategicamente propícias para fazer esse tipo de registo. Embora, a ação estética do grafite, tenha um duplo registro da linguagem, i.e., identidade de quem o faz e a performance, as exposições de arte urbana estão a ganhar corpo no cenário estético da cidade de Maputo. Ainda que a (re)colocação das imagens, seja acoplada aos cenários de abrigo institucional (e.g., empresas que pagam para ter um grafite em um determinado muro da firma), a sua natureza agencial sobre o território urbano de Maputo, vai se vislumbrando como um género alternativo de pintura, mas transitório entre o estético no meio de outras linguagens contemporâneas.
Este aspecto de olhar e perspectivar o grafite tem o seu o epicentro num colectivo de jovens agrupados num movimento intitulado Maputo Street Art. Este colectivo, coordenado pelo artista Afro-Ivan, tem um formato específico da tirada urbana, sarcástica e pública, cuja mensagem não se entrega no olhar imediato, mas assume paulatinamente compromissos de significado com seu suporte, com traços contextualizados num bairro icónico da cidade de Maputo, Bairro Unidade-7. Eles não saem pichando toda a cidade de Maputo, qualquer murro ou um local em ruínas. Eles atuam no bairro que os viu crescer e que, a maioria deles, ainda vive. Fazer grafite no Bairro Unidade-7 se configura como uma legalidade visual e proteção jurídica autorizada pelos moradores que viram suas casas transformadas com as cores do colectivo como forma de reclamar a atenção dos passantes. Unidade-7, como a maioria dos bairros suburbanos da cidade de Maputo, é composto de casas de madeira-e-zinco, casas ainda com o aspecto arquitectónico colonial e outras em estado avançado de degradação onde as paredes tem um aspecto desgastado pelo tempo. O colectivo Maputo Street Art ciente dessa realidade propõe aos moradores pintar as suas paredes sem quebrar o aspecto natural da casa. E autorização dos residentes é quase sempre um sinónimo de monetarização emocional dos espaços da vida da Unidade-7.
Esta forma de fazer grafite parece uma configuração invertida de o fazer. Uma feição oposta daquilo que arte de pichar as ruas pede. Aparentemente, pode estar a desdizer tudo que ouvimos sobre, por exemplo, o artivsmo de Banksy. Não. O colectivo do Maputo Street Art encontrou uma fórmula de fazer do Bairro Undiaed-7 a sua voz. O grafite do Maputo Street Art subverte essa lógica da presença de maneira radical e aposta em tags que preenchem as paredes centrais da do bairro porque a visibilidade não deve sair e nem ultrapassar a geografia do lugar que lhes viu nascer. Dar visibilidade ao bairro com iconografias próprias e advindas dos actores e moradores do bairro é um sinal luminar de que o grafite pode servir para contar a história dos moradores de um bairro sem entrar em discussões com o mesmo.
Se o epicentro é o Bairro da Unidade-7 por quê se autointitulam Maputo Street Art? Segundo o seu coordenador, Afro-Ivan, «quando o projecto começou, no bairro da Unidade 7, era grafitar arredores da cidade de Maputo. O movimento começou focado em transformar espaços periféricos com murais e expandiu-se como um coletivo de artistas visuais, músicos e fotógrafos. Mas, com o tempo percebemos que devíamos focar no nosso bairro de origem e de forma esporádica, por contive, podíamos em actuar em lugares específicos da cidade de Maputo». Esta atitude assumida pelo colectivo fez com que o mesmo procura-se legalizar a agremiação para facilitar a busca de parcerias porque na linguagem dos mecenas «não se dá dinheiro pessoas, dá-se dinheiro organizações». Organizados, credenciados e com estatuto legal de uma associação conseguiram firmar parceiras com a representante da CIN (Corporação Industrial do Norte) em Moçambique para conseguirem as tintas e vernizes, com a AECID (Agência Espanhola de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento) que patrocinou o seu livro Maputo Street Art (Ethale Publishing, 2023) e estão inseridos no programa Opening Doors da plataforma Still Standing, onde raparigas que fazem parte do programa, vindas de vários bairros da cidade de Maputo, participaram numa visita guiada pelos murais, para se inspirar e, depois, pintaram juntas um grande mural colectivo. Estas e outras parcerias ganham mais vivacidade em cada terceira semana de Dezembro, momento em que o colectivo faz o seu festival no Bairro Unidade-7 onde são inseridas outras componentes como cinema, dança, gastrónoma moçambicana e conversas/palestas como completo educativo para o bairro.
A visibilidade de Maputo Street Art é de uma dimensão imensurável que todos os fins de semana existem pessoas que querem conhecer o bairro e são acompanhadas numa visita guiada. Como forma de angariar alguns fundos as vistas guiadas para apreciar os grafites do Bairro Undiade-7 podem ser marcadas por escolas, associações educativas, organizações filantrópicas ou turistas. (Abro um parêntese para afirmar que a actriz Lupita Nyong’o quando esteve de férias, em Janeiro de 2024, na cidade de Maputo, deu-se o privilégio de visitar Unidade-7, deixar-se fotografar nos murais grafitados e comeu badjias acompanhada de uma 2M).
Para um país com um enraizamento profundo das artes plásticas e que a maioria dos artistas vanguardistas encontraram nos murais uma forma de reivindicar a liberdade para a independência nacional (e.g., Bertina Lemos, Alberto Chissano, Malangatana Valente Ngwenya, Reinata Sadimba, Roberto Chichorro, Naguib Elias Abudala, Gonçalo Mabunda, Ídasse Tembe, Djive) assumir o grafite como uma nova escritura estética, fora dos categorias das galerias tradicionais é aceitar que Moçambique pode cumprir e produzir enquadramentos discursivos que inaugurassem formas contemporânea de fazer arte urbana com base no juízo de pertencimento (e.g., Bairro Unidade-7). O colectivo Maputo Street Art superou a barreira de imobilismo que aparta arte e mundo da vida. Procura desenvolver com entusiasmo uma nova linguagem e cria, também, paulatinamente, um idioma de pertencimento para os moradores do Bairro Unidaed-7. A imposição à consciência interpretativa dos sujeitos que fazem o grafite, que cumprem transformar a arte do artista em sensibilidade fazem a circulação do grafite entre ruas, por instituições para conseguir material e cada vez mais utilizam diferentes discursos par dizer «o nosso bairro tem a nossa história». Maputo Street Art com grafites e pichados recria as relações de sentido puramente funcionais com a sua comunidade e recebe, como troca, a intervenção e o suporte interventivo daqueles dos moradores e de outros que se deslocam para Unidde-7 para apreciar grafite.
Não partem da superfície de tela branca para fazer os desenhos. Partem de inscrições de paredes existentes e com pura neutralidade fazem novos enunciados, na medida em que concentram significados sociais que o próprio bairro desenvolve, e que são anteriores funcionais à captura de identidade. Desenhados ou outras inscrições restituem à escala urbana uma escala humana, e obrigam a um caminhar menos indiferente pela paisagem da Unidade-7. Nesse sentido específico, grafite e pichação não realizam o imperativo radicalizado como é a sua génese. Conciliam um e outro termo, arte e mundo da vida, como linguagens que desfronteirizam os problemas, ao transformar estética locais em significados quase trívias da experiência de bairro. Reconheceram nesse gesto performativo e estético do Maputo Street Art é cumprir com o destaque ativista e o próprio locus da vida que assume a projeção comunitária na sua força originária no lado de fora dos espaços tradicionais do bairro.
Maputo Street Art fez do grafite uma instituição para se aproximar dos seus ancestrais e razies promover os fundamentos de interesse mútuo. Se há uma componente de força no jogo do grafite é o próprio reconhecimento da importância de preservar do lugar que acolhe o nosso cordão umbilical.
Maputo Street Art, bayete!
