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Inhambane aprova novas tarifas de chapa após semana de paralisação

Depois de vários dias marcados por paralisação parcial do transporte semi-colectivo de passageiros, caos nas paragens e pressão crescente sobre a mobilidade urbana, a Assembleia Municipal de Inhambane aprovou esta sexta-feira novas tarifas de chapa 100, numa tentativa de pôr fim à crise que mergulhou a cidade num dos momentos mais difíceis dos últimos anos em matéria de transporte público.

A decisão foi tomada durante uma sessão extraordinária convocada em resposta ao agravamento da tensão entre transportadores e autoridades municipais, depois da subida do preço do gasóleo em Moçambique, um aumento que os operadores consideram insustentável para a continuidade da actividade.

Durante a reunião, marcada por longos debates e negociações intensas, os transportadores defenderam um agravamento de 44,4 por cento no preço do bilhete de passagem, alegando que os custos operacionais dispararam nas últimas semanas, sobretudo devido ao preço dos combustíveis, manutenção de viaturas, peças e despesas associadas ao funcionamento diário dos semi-colectivos.

No final, os membros da Assembleia Municipal aprovaram um reajuste na ordem dos 40 por cento, decisão que altera praticamente todas as rotas urbanas e suburbanas da cidade de Inhambane.

Na prática, os novos preços representam agravamentos entre 2 e 5 meticais por percurso, dependendo da rota utilizada pelos passageiros.

Um dos exemplos mais visíveis é o trajecto entre a Cidade de Inhambane e a Paragem Espada, cujo preço sobe de 14 para 18 meticais. Já a ligação entre a Cidade de Inhambane e a Praia do Tofo passa de 25 para 30 meticais.

As alterações abrangem ainda os estudantes, num dos pontos considerados mais sensíveis do novo pacote tarifário aprovado pelo município.

Os alunos que anteriormente beneficiavam de tarifas reduzidas entre 10 e 12 meticais passam agora a pagar uma tarifa única de 14 meticais, independentemente da distância percorrida ou da rota utilizada.

A medida surge numa altura particularmente delicada para centenas de famílias que dependem diariamente do transporte semi-colectivo para deslocação de estudantes, trabalhadores e pequenos comerciantes.

A crise no transporte começou a ganhar dimensão no início da semana, quando transportadores decidiram suspender parcialmente as actividades em diferentes pontos da cidade, alegando incapacidade de continuar a operar perante os novos custos do combustível.

A paralisação provocou enormes constrangimentos nas principais paragens e terminais da cidade. Passageiros chegaram a passar horas à espera de transporte, enquanto estudantes eram obrigados a percorrer longas distâncias a pé para chegar às escolas numa semana marcada por testes e avaliações.

Em vários bairros, o cenário era de incerteza e desespero. Trabalhadores faltaram aos seus empregos, pequenos negócios sofreram redução de clientes e até unidades sanitárias enfrentaram dificuldades devido à escassez de transporte.

A pressão social provocada pela paralisação acabou por acelerar as negociações entre os transportadores, o Governo Provincial e o município.

Antes da sessão extraordinária da Assembleia Municipal, o governador de Inhambane, Francisco Pagula, chegou a reunir-se com os operadores e pediu uma trégua de cinco dias para permitir diálogo e avaliações técnicas sobre a revisão das tarifas.

Mesmo depois desse entendimento, muitos transportadores mantiveram a paralisação, defendendo que apenas retomariam totalmente as actividades após aprovação formal dos novos preços.

Foi neste contexto de forte pressão social e económica que a Assembleia Municipal decidiu avançar para aprovação da nova tabela tarifária.

O edil de Inhambane, Benedito Guimino, considera que a decisão cria condições para o regresso imediato dos transportadores às estradas e para o restabelecimento gradual da circulação normal de passageiros na cidade.

“Solicitámos à Assembleia para que esta medida fosse observada a partir de hoje. Portanto, acreditamos que há de haver paz, porque há condições criadas para os nossos transportadores poderem exercer a sua actividade e também aliviar os nossos munícipes”, declarou o edil.

Guimino recordou que a cidade enfrentava vários dias consecutivos de paralisação, situação que afectou profundamente a mobilidade urbana e aumentou a pressão sobre passageiros.

Apesar da aprovação das novas tarifas, os transportadores afirmam que os valores ficaram abaixo das expectativas da classe e admitem algum descontentamento com os cortes feitos durante as negociações.

Segundo os operadores, algumas rotas sofreram reduções em relação aos valores inicialmente consensualizados durante os encontros técnicos realizados com o município.

“Para nós não está tão confortável isto porque praticamente mudou-se aquilo que nós combinámos ou debatemos com o Conselho Municipal”, afirmou um representante dos transportadores.

Entre os exemplos apresentados pelos operadores está a rota de Guiúa, onde os transportadores defendiam uma tarifa de 25 meticais, mas o valor final aprovado acabou fixado em 20 meticais.

Mesmo demonstrando insatisfação, a Associação dos Transportadores Rodoviários de Inhambane garante que a tendência é para retoma gradual das actividades nos próximos dias.

A decisão final sobre o regresso completo às estradas deverá, entretanto, ser discutida internamente entre os operadores.

“Estamos aqui, vamos à praça, vamos nos reunir e informarmos aos demais. Acredito que a ideia é boa de voltar, mas o colectivo vai decidir”, afirmou Marcos Sambo, presidente da Associação dos Transportadores Rodoviários de Inhambane.

A crise expôs fragilidades antigas do sistema de transporte semi-colectivo na cidade de Inhambane, fortemente dependente dos custos dos combustíveis e com pouca margem para absorver oscilações económicas abruptas.

O aumento do preço do gasóleo acabou por desencadear um efeito em cadeia que atingiu directamente passageiros, estudantes, comerciantes e trabalhadores, levantando novamente o debate sobre sustentabilidade do transporte público urbano e os impactos sociais dos sucessivos aumentos dos combustíveis em Moçambique.

Em vários pontos da cidade, passageiros manifestavam preocupação com o impacto das novas tarifas no orçamento familiar, sobretudo num contexto em que muitas famílias já enfrentam dificuldades relacionadas com alimentação, renda, energia e outros serviços essenciais.

Ao mesmo tempo, os transportadores insistem que os novos preços ainda estão abaixo do necessário para garantir equilíbrio financeiro sustentável da actividade.

Com a aprovação formal das tarifas, o município espera agora evitar novas paralisações e restaurar gradualmente a normalidade na circulação urbana.

Mas o episódio deixa claro que qualquer alteração nos preços dos combustíveis tem capacidade de provocar impacto imediato não apenas no transporte, mas em toda a dinâmica económica e social da cidade.

O que começou como uma reivindicação dos transportadores transformou-se rapidamente numa crise de mobilidade que afectou milhares de pessoas e obrigou autoridades municipais e provinciais a agir sob forte pressão pública.

Agora, passageiros e operadores aguardam para perceber se os novos preços serão suficientes para garantir estabilidade no sector ou se novas tensões poderão surgir nas próximas semanas.

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