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Histórias do meu pai: a atitude perante o trabalho

Por: José Paulo Pinto Lobo

 

O meu pai tinha como horário de entrada numa empresa de despachantes oficiais sita no Bairro Central, as 7h,30m da manhã. Um dia, em Novembro de 2015 ou 2016, estando de férias em Maputo, combinei ir com ele ao escritório. Estava a tomar o meu matabicho quando me disse:

– Despacha-te porque não quero chegar atrasado.

– Mas pai, são ainda 6h,55m e não levaremos mais de 15m a chegar ao seu local de trabalho. Não entra às 7h,30m?

– Não, 7h,30m é a hora do início do trabalho e não de entrada ao serviço!

Engoli tudo à pressa e lá fui com ele, felizmente deslocando-nos de carro. Porquê felizmente? Porquanto o meu pai fazia questão durante vários anos, apesar dos seus 80 verões, de palmilhar os 3 ou 4 km que distavam de sua casa ao escritório, para admiração de muitos dos transeuntes. Eu que não tinha a pedalada nem a tarimba dele, eximi-me sempre que pude de tal proeza.

Por outro lado, também sabia que nessas deambulações pedestres ele se tinha desgostado com o estado calamitoso em que a sua cidade se encontrava, com passeios mal cuidados e ocupados por vendedores informais, as suas árvores transformadas em mictórios, o desrespeito dos condutores pelas passadeiras, a condução perigosa das carrinhas chapa-cem, bem como a proliferação de pedintes, molwenes e outros de idade avançada, algo inusitado dado o respeito que os velhos mereciam na nossa sociedade, em tempos pretéritos.

A propósito dos chapas-cem, a saída de casa dos meus pais é uma verdadeira aventura. Para conseguir entrar na rua driblando as viaturas que circulam em dupla ou tripla fila, a alta velocidade e com ultrapassagens até pelos passeios, só um Lewis Hamilton ou um meio tresloucado Vettel para conseguir tal proeza épica. Os pneus até chiam! E, em simultâneo, convém rezar para que não falhe uma mudança e fiquemos empandeirados no meio da estrada…

Isto quando não temos de ficar minutos intermináveis à espera que passem as várias comitivas de responsáveis por alguma coisa, com os seus batedores e sirenes ensurdecedoras.

Entretanto, fomos afortunados e chegámos mais de 15 minutos antes da hora e, como é óbvio, não estava mais ninguém no escritório para além dos guardas. Para minha surpresa dirige-se para um edifício que não era aquele onde tem o seu gabinete, pede que lhe abram a porta e desata a ligar todas as máquinas, de fotocópias, fax e de café.

– Pai, o que está a fazer? Essa tarefa certamente que não é sua!

Respondeu tranquilamente:

– Agora já sabes por que chego cedo. Para além de querer estar no meu posto de trabalho à hora certa, assim evito que o pessoal perca ainda mais tempo do que habitualmente. Em todos os locais onde trabalhei agi sempre desta forma.

– Mas tu não és chefe deles!

– Não interessa, qualquer trabalhador, seja ou não dirigente, deve zelar para que os horários sejam escrupulosamente cumpridos e pela produtividade na sua empresa. Temos de dar o exemplo. Já se perde muito tempo a contar as novidades da noite anterior, a tomar café ou a discutir futebol e outros assuntos sem qualquer importância, para além das passeatas pelos gabinetes e galanteios às meninas.

Devia ter muitos amigos entre os colegas…

PS: Como o meu pai nunca assediou colega alguma, uma das damas do serviço, curiosa ou expectante, inquiriu um outro colega amigo dele, sobre se o Sr. Pinto Lobo ainda funcionava…

A propósito de visitas aos gabinetes e desempenho masculino, lembrei-me de uma situação em Maputo, em que uma dona alegou que queria o divórcio porque o marido não a frequentava! Acham estranho? O dito cônjuge revelava falta de assiduidade, logo haveria direito a despedimento com justa causa, o que é lógico, não é?

 

 

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