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Encontro entre Nyusi e Chakwera: nova com novos e velhos problemas

O académico e docente de Relações Internacionais na Universidade Joaquim Chissano, Paulo Wache, considera que o encontro de ontem, entre os Chefes de Estado de Moçambique e do Malawi, o primeiro em longos anos, vai relançar as relações bilaterais, mas considera que há questões que vão continuar inegociáveis, pelo menos para já.

“Do encontro pode-se dizer muitas coisas. Primeiro, que o Presidente Lazarus Chakwera quer estabelecer uma nova etapa de relacionamento entre Moçambique e Malawi. Mas, também, pode ser que queira dar continuidade a assuntos do passado que ficaram em “banho-maria”, comentou o académico.

Numa cimeira em que muito do que foi discutido ficou apenas entre as duas delegações, Paula Wache aponta aquelas que são as questões prioritárias para os dois países.

“É preciso dizer que o Malawi, em relação a Moçambique, quase que depende completamente. O combustível sai de Moçambique, via Porto da Beira, também para exportar os seus produtos, daí vem o assunto da navegabilidade dos rios Chire e Zambeze. Mas, também, é preciso dizer que, nesta altura de terrorismo em Moçambique, o Malawi sempre foi essa porta, também, de passagem. Não necessariamente de entrada ou de fabrico, mas de passagem, como na luta armada (de libertação nacional) e da guerra civil. Portanto, hoje também pode ser do interesse de Moçambique falar com o Malawi, no sentido de não permitir que as movimentações estranhas que venham a Moçambique aconteçam no seu território”, apontou o analista.

Por outro lado, Paulo Wache considera que era inevitável abordar a questão da energia da Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB).

“Eu penso que a energia da HCB continua a ser um grande elemento para o Malawi, tal como para o Zimbabwe e a África do Sul. Também tem a questão da SADC, que é o facto do Malawi, Tanzânia e Moçambique fazerem parte da Troika. Mas, de todos esses assuntos, o principal é mesmo a questão do comércio internacional. O acesso aos portos, de forma mais rentável para a sua economia. Esse é um assunto que pode ser acompanhado de questões da SADC, do lado do Malawi. Do lado de Moçambique, a questão de terrorismo vai sempre ser uma questão prioritária”, afirmou Paulo Wache.

O acesso ao mar, através da navegação dos rios Chire e Zambeze, é o mais recente factor de desavenças entre Maputo e Lilónguè. Apesar do Malawi ter, neste momento, uma outra capacidade negocial, devido ao interesse de Moçambique ter do seu vizinho cooperação contra o terrorismo, Paulo Wache considerou que este tema vai continuar factor de divisão.

“O Malawi hoje tem elementos de negociação muito mais fortes do que no passado. Mas, não penso que Moçambique esteja preparado para negociar o Chire-Zambeze. Por causa da questão do terrorismo e há-de ser muito mais difícil negociar nestes termos. O que pode acontecer é negociar como é que pode ser mais barato em termos de transporte rodoviário e ferroviário, através do Porto de Nacala”, concluiu.

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