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ECOS NOSTÁLGICOS: a propósito de GERAÇÃO 8 DE MARÇO: MEMÓRIAS MARGINAIS (2025)

“É belo escrever-se o que se pensa; é o privilégio do homem.” 

Voltaire 

 

Há um espectro de uma existência histórica que, há muito, foi nos apresentado, descrito e interpretado apenas a partir de um signo, que em contramovimento, aparece-nos aqui, revestido de uma multiplicidade de ecos de uma nova percepção. Existência esta, que foi marcada por incertezas e expectativas, desesperanças e entusiasmos, obediência e irreverência, alegrias e dissabores… porém, esteve pairando cá entre nós, sob o manto de uma narrativa tecida pelos unânimes fios do dever patriótico. Eis o signo sob o qual se percepcionava a realidade desse espectro. Foi uma narrativa de uma geração que esteve na vanguarda dos ideais de uma Nação que teve de exigir o sacrifício e a abnegação dos seus filhos. Decerto, não haveria realmente razões em exigir o sacrifício? Se ela mesma nascera do sangue dos seus melhores filhos! Esta, fora, até então, a voz que ecoara nos nossos ouvidos, nós a geração destes novos tempos. Nós, a geração que não pode provar as maçãs! Como de facto nos poderiam explicar o seu sabor?

Chega-nos hoje, por meio das “Memórias marginais”, a odisseia daqueles jovens que outrora tiveram que abdicar dos seus sonhos individuais para submergirem no grande sonho da pátria. Jovens que tiveram que empreender a árdua jornada de se esquecerem de si mesmos pela sujeição à epopeia da “missão futuro”, mas quiçá, padecendo de fome nas suas almas por conta do nada à sua liberdade. Pois o áureo fulgor do poder do “Tu deves” manifestava-se em toda a parte que era nação. Havia ideais por que lutar. E a pátria estava a chamar para esta luta. Mas, no silêncio e na inocência das nossas cogitações, interrogamo-nos nós, como o fizera certa vez Herman Hesse em O Lobo da Estepe: “os ideais serão algo que se possa alcançar?” Contudo, ele adverte-nos que, “é muito mais lisonjeiro lutar-se por alguma coisa bela e ideal e saber ao mesmo tempo que não se conseguirá alcançar.” Mas também houve quem afirmou que as realidades de hoje foram até certo ponto, as utopias de ontem. Mas o que é uma utopia? Ou será uma imagem de uma realidade que se perde na distância ao contemplarmos o horizonte?

E que utopias havia, para qual aquela geração devia viver, naqueles tempos do alvorecer da nação? – Perguntamo-nos nós, que não percorremos esta longa marcha que partira daquela odisseia ficou conhecida por “chamamento da Pátria.” Contudo, nos é dada hoje, por conseguinte, através dos testemunhos que Almiro Lobo, no seu estilo característico de provocador, instigou os seus congéneres, aqueles da sobejamente conhecida Geração Oito de Março, a partilharem as suas experiências durante aquele período em que o fulgor do poder do “Tu deves” esteve determinado na construção de uma meta-narrativa da continuidade da revolução. Uma revolução para a qual toda uma geração devia viver e, para que pudesse acabar com a escassez de técnicos que assegurasse o pleno funcionamento do Estado, da qual a Pátria padecia. Assim, aquela geração viu a sua condição de existência determinada pelo temor e também pelo amor à Pátria; e precisamente por causa daquele temor e daquele amor, é que a vida daqueles jovens, vez por outra, devia resplandecer tão radiosa naqueles tempos.

  Este livro que chega às nossas mãos, expressa para nós, a geração destes tempos mais actuais; talvez, outra espécie de amor que, no entender de Nietzsche, conhecemos como amor à distância, porque, compreendia ele, que a escrita tem o poder de transformar o amor ao próximo ou ao que está mais próximo no amor à vida desconhecida, distante, ainda vindoura. Um amor que ocorre na hipotética amizade dos escritores com os seus receptores, pois as experiências expressas nas mensagens revelam que toda a realidade por eles percebida, é na verdade o resultado de suas expectativas ou suas assunções sobre a tal realidade. Assim, ao partilharem as suas experiências por meio da escrita, pretendem legar aos destinatários, os seus pensamentos que, em parte, determinam a sua condição de existência como seres humanos; condição esta, que pretendem que se perpetue na memória da geração por vir, dado que, “o pensar consuma a relação do ser com a essência do homem” como compreendia Heidegger, pois, os nossos pensamentos determinam não apenas o que nós vemos, mas também todas as nossas acções que nos permitem desenvolver uma espiral ascendente de inteligência para a transformação das nossas vidas.

Encontramos, naturalmente, nos textos de cada um, testemunhos, muito mais de relatos de pequenas coisas e, seguindo o juízo tradicional do cânone da historiografia oficial, são indiferentes no concernente à construção de grandes tarefas que dignifiquem o povo de uma nação. Mas são essas pequenas coisas, as que Nietzsche designa da casuística do egoísmo como: alimentação, lugar, clima, distracção, amizades, que ele considera inconcebivelmente mais importantes do que tudo o que se toma como importante nas grandes narrativas historiográficas. Assim, no livro, nada mais há do que a partilha das experiências destas pequenas coisas. Como nos adverte Almiro Lobo na nota explicativa, os testemunhos ali presentes não tinham outro propósito que não fosse a simples partilha de recordações das aventuras e desventuras decorrentes do facto daquela geração ser chamada pela Pátria. Contudo, talvez esteja exactamente naquelas experiências da casuística do egoísmo, o supremo valor que possamos extrair daqueles testemunhos, como um caso de amor para connosco, os leitores que podemos exultar com a aprendizagem por meio das experiências de outrora. O que nós fomos até agora impelidos a creditar pela historiografia oficial, possivelmente, não fossem sequer realidades, apenas construções para que todas as questões da política, do ordenamento social, da educação, da economia fossem orientadas por ideais que no fundo estivessem a ensinar-nos a desprezar as coisas “pequenas”, ou seja, os assuntos fundamentais da vida… Pois a existência de cada pessoa foi considerada em função de conceitos como Pátria, revolução, progresso, unidade, trabalho, vigilância, entre outros que permitiriam o desabrochar do “homem novo”, como o derradeiro ponto de chegada da marcha de um povo. 

Se compararmos os testemunhos presentes nos textos da já aludida “Memórias marginais” com o que até o momento nos foi inculcado a venerar como a geração percursora da revolução, compreendemos que a diferença é significativa, porque a maior parte da narrativa da historiografia oficial nada nos fala das dores vividas por aqueles jovens a quem foi negado o direito de escolher as suas profissões e, consequentemente, o destino das próprias vidas. Como muitos demostram ao se recordarem da sentença que sempre ouviam quando ousassem questionar àqueles que lhes orientavam para as opções de formação existentes: “não é o que tu queres, mas sim o que nós queremos.” Com isso, deviam considerar tudo aquilo como um privilégio que possuíam para que pudessem construir a Pátria que os chamara.

  Mas cada história das testemunhas contém em si, algo de singular importância de quem a conta; por estar presente nela a aspereza, a desolação e o desamparo que derivavam da impotência de não poder decidir por si. Todavia, compreende-se que cada jovem, por ter vivido de forma diversificada aqueles momentos, não pode ser considerado totalmente isolado, embora possa constituir também um ponto único e sempre peculiar, no qual os fenómenos daquele mundo se terem cruzado de uma determinada forma somente uma vez e nunca mais para cada um. E as dores, para muitos, foram necessárias para o seu crescimento, porque contribuíram para a superação de si mesmos. Daí que a história de cada testemunha deve ser considerada essencial, eterna e divina; cada jovem ao viver em alguma parte e cumprir os ditames da designada ordem patriótica, pode-se considerar como algo digno de toda a atenção. Sem qualquer traço de uma pretensa universalização dos aspectos experienciados por cada um ou cada uma, naqueles tempos de severa imposição da disciplina patriótica, não procuramos no ser das testemunhas qualquer traço de fanatismo ideológico. Não se pretende demonstrar qualquer postura heroica em nenhum instante da vida nas histórias que nos são contadas. Apenas podemos compreender a atitude assumida por cada pessoa diante daquelas circunstâncias que não haviam escolhido.

Para a maior parte daqueles jovens, assumir as responsabilidades impostas pela Pátria, constituiu um salto significativo para as suas vidas, conforme faz-nos perceber a Irene Mendes. Porque, pelo facto de eles se encontrarem entre a adolescência e a juventude rumo à vida adulta ao entrarem no Centro 8 de Março, puderam compreender que dali em diante, a realidade sobre as suas condições de existência, tornar-se-ia imprescindivelmente transformada. Como realça esta visão Ângela Abdula Dava, “fazer parte do movimento 8 de Março obrigou-me a crescer cedo.” Este crescimento precoce, constitui a moda, no concernente às expectativas e às exigências determinadas pelo Estado para com os jovens que haviam atendido ao já conhecido chamamento da Pátria. O apelo era naturalmente o engajamento pela acção de carácter utilitário em prol dos interesses já estabelecidos por aqueles que detinham o poder de o fazer em nome da vontade geral. Mas a acção exigida aqui aos jovens situava-se muito aquém daquela considerada por Heidegger que consuma a essência do ser, pois, na sua percepção “a essência do agir é o consumar”, e continua ele, esclarecendo que, “consumar significa desdobrar alguma coisa até à plenitude de sua essência.” E o pensar seria o modo pelo qual o ser poderia manifestar-se plenamente. Mas a acção esperada daqueles que eram forjados no Centro 8 de Março, só podia ser avaliada em função da utilidade que ela podia oferecer. Em suma, o que se esperava, no fundo, dos jovens, era o desenvolvimento de habilidades técnicas que lhes permitiria ser mais úteis à Pátria. 

A tão propalada unidade nacional que devia exterminar o tribalismo, o racismo, entre outras categorizações de estratificação social que constituíam uma ameaça para a nova ordem estabelecida pela Pátria, talvez tivesse como laboratório o Centro 8 de Março. Pelo menos, no parecer de alguns, é o que de facto aconteceu, porque conviveram lado a lado pessoas provenientes de diferentes cantos do vasto território da recém-nascida nação. Todos eles deviam adaptar-se a nova realidade, como lhes era certamente exigido. Mas a disciplina militar e o uso dos uniformes em praticamente todas as actividades, entre as demais normas, apenas disfarçavam as diferenças, que eram encobertas pelos ideais da colectividade, da responsabilidade para com a nação, enfim, de todas as crenças que levariam à consumação da utopia patriótica.

  Entretanto, para uns, a vida no Centro 8 de Março era um fardo funesto que se devia carregar continuamente; para outros, era o melhor para o mundo em que se estava a moldar o homem que teria força e firmeza de propósito para a construção do novo mundo. O facto é que simplesmente que, no conjunto dos jovens que, por ali passaram, não havia um sentimento que se pode generalizar como nos é contado pela historiografia oficial.

  Percebe-se, grosso modo, que os desafios, as dificuldades, a disciplina e os sacrifícios expressamente descritos nas páginas das Memórias Marginais, revelam-nos, o que há de humano em todos os que estiveram engajados naquela longínqua odisseia. Pois é, com certo encanto, que conservam, em suas memórias, a inocência e a felicidade vivenciadas naqueles tempos que nem imaginavam, que as dores, as decepções, os obstáculos, podiam contribuir para o seu fortalecimento como seres humanos. Este foi, de certo modo, um pressuposto profundamente essencial, para a maior parte dos que actualmente se encontram com o sentimento de gratidão e com a sensação de missão cumprida, quando fazem a retrospectiva de todo o percurso. As travessuras típicas da adolescência: pular o murro para evitar sanções por chegar tarde; deliciar-se gostosamente de uma comida furtada na despensa; revoltar-se pela péssima qualidade da comida servida, protestar pelas injustiças perpetuadas pelos mais fortes; entre as demais coisas, que nada mais são que humanas, e demasiadamente humanas, mas acabam por torná-los mais próximos a nós.

Perguntamo-nos hoje: Que histórias de amor o Centro 8 de Março testemunhou? E que frutos temos hoje dessas aventuras? Ah! Quanta dor houve para quem não teve a sorte de despertar o amor nos corações das colegas: “a dor silenciosa e amarga da rejeição”? E como não viver com o coração dilacerado, por não poder encantar pelo menos um coração, se o seu estava lavrando desesperadamente no fogo da paixão? 

Em suma, compreendemos, a partir dos ecos nostálgicos das estórias partilhadas, de que para além de tudo que sabemos da geração que assegurou o nosso Estado logo após a independência, houve desilusões, amargas frustrações, sonhos não vividos; mas houve também alegrias, amores correspondidos, aspirações concretizadas, estas pequenas coisas do coração que são típicas da natureza humana. Talvez encontremos aí o maior legado desta geração, o de saber que é possível erguer-se acima de qualquer fatalidade diante do caos de não poder determinar o próprio destino. Ou inversamente, poder curvar-se parcimoniosamente ante a imposição de missões que não podem ser questionadas.

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