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Dom Dinis Sengulane celebra 80 anos: o peregrino da paz

O bispo emérito da Diocese dos Libombos, Dinis Sengulane, celebrou esta quinta-feira, 5 de Março, 80 anos de vida. Ao longo de várias décadas, dedicou-se à fé, à reconciliação entre moçambicanos e à promoção de iniciativas sociais que continuam a transformar comunidades.

Considerado por muitos um peregrino da paz, Dom Dinis tornou-se uma das vozes morais mais respeitadas de Moçambique.

Filho de Salomoni Sengulane e de Rosita Massango, nasceu em 1946, no posto administrativo de Zandamela, na província de Inhambane Province. Desde cedo demonstrou uma inclinação para a vida religiosa. Conta-se que, ainda criança, inventava missas e brincava de baptizar bonecos.

Quando nasceu recebeu o nome Nyanzume, do cicopi, que significa “fazedor das coisas do céu”. Para muitos, esse nome acabou por se tornar um verdadeiro prenúncio da missão que viria a abraçar.

Com o passar dos anos, a vocação transformou-se em realidade. Em 1976 foi consagrado bispo anglicano, iniciando um percurso de liderança religiosa que marcaria profundamente a igreja e a sociedade moçambicana.

 

O homem por trás do bispo

Antes de ser uma figura pública, Dom Dinis é também o pilar de uma família numerosa. Aos 80 anos é pai de nove filhos, avô de vinte netos e referência para uma extensa família.

A vida familiar conheceu também momentos difíceis. Em 1998 perdeu a sua esposa, um episódio que marcou profundamente a família. Mesmo assim, decidiu seguir em frente e dedicar-se ainda mais aos filhos, assumindo simultaneamente o papel de pai e mãe.

Hoje, filhos, netos e sobrinhos reconhecem nele um conselheiro permanente, alguém que em momentos de dificuldade encontra sempre palavras de encorajamento e orientação.

 

Uma voz pela paz

A liderança de Dom Dinis ganhou especial relevância durante um dos períodos mais difíceis da história de Moçambique: a guerra civil que dividiu o país durante anos.

Nesse contexto, a sua missão religiosa ultrapassou os limites da igreja. O bispo passou a desempenhar um papel activo na promoção do diálogo e da reconciliação entre moçambicanos, contribuindo para aproximar partes em conflito.

Esse esforço culminaria na assinatura do acordo geral de Paz, em Outubro de 1992. 

Para muitas figuras da sociedade moçambicana, Dom Dinis foi um dos líderes religiosos que ajudaram a criar pontes num momento em que o país mais precisava de reconciliação.

 

Transformar armas em enxadas

Depois da guerra, quando o silêncio das armas ainda ecoava na memória colectiva, Dom Dinis lançou uma iniciativa que viria a tornar-se conhecida internacionalmente.

O projecto Transformar armas em enxadas, incentivou antigos combatentes e comunidades a entregarem armas em troca de instrumentos de trabalho.

As armas recolhidas foram depois transformadas em ferramentas agrícolas e também em peças de arte, num poderoso símbolo de reconciliação e reconstrução nacional.

 

Compromisso social

A acção de Dom Dinis não se limitou à promoção da paz. O bispo também se destacou no combate à malária, através da campanha Fazer Recuar a Malária. 

A sua intervenção ajudou a chamar a atenção para o paradoxo de milhares de pessoas continuarem a morrer de uma doença que tem tratamento, pressionando governos e instituições a reforçarem a resposta ao problema.

Ao longo do seu ministério, que este ano assinala 50 décadas de sacerdote,  Dom Dinis tem sido reconhecido dentro e fora do país pela sua coragem moral e pela defesa da justiça social.

 

Um legado que continua

Mesmo depois de se retirar das funções episcopais, Dom Dinis Sengulane continua activo em projectos sociais e iniciativas de fé, mantendo o compromisso com a paz, a justiça e o bem-estar das comunidades.

Aos 80 anos, a sua trajectória continua a inspirar muitos moçambicanos , não apenas como líder religioso, mas como um homem que procurou transformar a fé em acção concreta.

 

Depoimentos 

 

Lina Sengulane – Esposa 

“É uma pessoa de fácil trato. É uma pessoa que não quer ver conflitos, não quer ver confusão. É uma pessoa calma, serena. Ele consegue ficar igual a si, mesmo, em momentos bons e em momentos difíceis. É um grande contador de anedotas. Ele conta anedotas uma acima da outra, então aí toda a gente ri, toda a gente fica feliz.Não somos só marido e mulher, somos companheiros, somos amigos”. 

 

Esperança Mangaze – Amiga/ Crente 

A ti, sacerdote para sempre, escolheu teu Pai dos céus para que fosses um outro Cristo. Para que os teus pés continuassem a caminhar nos caminhos do mundo. Eu tinha nove anos,  mas essa mensagem ficou e eu olho para o Dom Dinis Sengulane a representar essa figura, não só para mim, mas para muitas outras pessoas. É aquele exemplo de pessoa que nós todos queremos seguir.

 

Graça Machel – Activista Social / Amiga 

O Bispo foi falar com o Presidente Chissano e disse que é preciso acabar com a guerra entre moçambicanos e explicou muito bem, o que aquela guerra significava para milhões de moçambicanos (…) Encontrou-se com Afonso Dlhakama, também para o convencer de que o sacrifício enorme que era exigido ao povo moçambicano não justificava.

 

Joaquim Chissano – Antigo Presidente da República

Formaram um grupo que foi aos Estados Unidos da América por minha sugestão. Lá foram à procura de elementos capazes de nos conduzirem a um contato com a liderança da Renamo, para iniciarmos um diálogo mais credível, começando pela preparação. É assim que fomos dialogando até se constituir a delegação que foi à Nairobi. O bispo Sengulane disse que nós devíamos nos transformar, nós próprios, em paz, que nós somos paz, então criou a saudação: Olá Paz”

 

Armando Guebuza – Antigo Presidente da República 

Quando ele diz Olá Paz, a gente sente que está a dizer uma coisa que vem do fundo do coração, e transmite essa convicção também,essa boa vontade aos outros, às pessoas que o ouvem, por isso,eu o conheço neste processo de paz e no processo da necessidade de apaziguar, ainda mais, os corações, as mentes dos cidadãos.

 

Bruno Sengulane – Filho 

Dom Dinis Sengulane é pai, mas, acima de tudo, é um pilar e a fundação que moldou o homem que eu sou hoje e também que molda os valores que vou passando para as pessoas com quem convivo, especialmente para os meus filhos. É Uma pessoa que está a completar 80 anos, mas tem projectos para daqui há 10 anos e 20 anos e vai fazendo a sua vida nesse ritmo”.

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