Os docentes do Instituto Industrial e Comercial Eduardo Mondlane, localizado na cidade de Inhambane, estão a realizar uma greve desde a última segunda-feira, exigindo o pagamento de horas extras referentes aos anos de 2023 e 2024. É a segunda vez que os professores tomam essa medida, tendo a primeira ocorrido em abril de 2024, após a constatação de que o pagamento das horas extras prometido pelas autoridades ainda não foi cumprido.
A greve, que já dura três dias, tem causado uma grande inquietação, tanto entre os docentes quanto entre os estudantes, que se encontram prejudicados pela falta de aulas. Para os professores, a paralisação é uma forma de reivindicar os seus direitos, após anos de promessas não cumpridas e atrasos nos pagamentos que, segundo eles, têm sido constantes. A situação gerou uma grande tensão, com os docentes a afirmarem que não se sentem valorizados pelo Governo, que, de acordo com eles, não cumpre com os compromissos assumidos.
Em entrevista ao “O País”, os docentes revelaram o desgaste e a frustração acumulada ao longo dos últimos meses.
Otélia, uma das professoras com mais de 10 anos de experiência na instituição, disse que a paralisação é uma medida extrema, mas necessária.
“Estamos a trabalhar para o Estado, dedicamos as nossas vidas a formar as futuras gerações, mas, no final, somos tratados com total desrespeito. Não estamos a pedir favores, estamos a exigir aquilo que é nosso por direito. A nossa paciência esgotou-se.”
Ela explicou ainda que as promessas de pagamento de horas extras feitas pelas autoridades não têm sido cumpridas, o que tem gerado um clima de desconfiança entre os docentes. Comentou sobre o impacto financeiro que a falta de pagamento das horas extras tem nas famílias dos professores, que são obrigados a realizar horas de trabalho além da carga horária regular para suprir as necessidades financeiras.
Nuno, outro professor daquele instituto, também expressou a sua indignação e comentou as disparidades nos cálculos apresentados pelas autoridades de finanças em relação às horas trabalhadas. De acordo com ele, os valores apresentados como os que serão pagos não reflectem o tempo de trabalho realizado, uma situação que está a gerar ainda mais frustração entre os docentes.
“Os cálculos apresentados pelas autoridades das finanças não batem com a realidade no terreno. O que nos foi prometido inicialmente não corresponde àquilo que merecemos pelo nosso esforço. O Estado falhou connosco mais uma vez”, afirmou Maria.
Enquanto a greve continua, os estudantes do Instituto Eduardo Mondlane sentem-se cada vez mais prejudicados. O adiamento das aulas e a falta de esclarecimentos por parte da direcção do instituto têm afectado o desempenho escolar de muitos alunos, que agora enfrentam a possibilidade de ver os seus estudos comprometidos.
Dinamarcia, uma estudante do terceiro ano, explicou o impacto da greve na sua preparação para os exames. “Estamos a ficar sem tempo para estudar, e a suspensão das aulas já está a afectar o nosso desempenho. Estamos numa altura crítica, e perder mais dias de aula pode ser um desastre para o nosso futuro”, disse Dinamarcia, visivelmente preocupada.
O seu colega Orvelho, que frequenta o segundo ano de Contabilidade, partilha das mesmas preocupações. “É frustrante ver o nosso futuro ser colocado em risco por algo que não depende de nós. Queremos estudar, queremos aprender, mas estamos a ser prejudicados por uma questão que está além do nosso controlo”, afirmou.
Estudantes como Orvelho e Dinamarcia têm demonstrado um crescente desespero, pois as aulas perdidas podem prejudicar não só o seu desempenho nos exames, mas também a sua formação académica, que é essencial para o seu futuro profissional. O impacto desta paralisação não é apenas no presente, mas também pode influenciar as oportunidades dos alunos no mercado de trabalho no futuro.
O “O País” tentou, sem sucesso, contactar a direcção do Instituto Industrial e Comercial Eduardo Mondlane para obter uma resposta oficial sobre a paralisação. Até ao encerramento da reportagem, a direcção manteve-se em silêncio, sem se pronunciar sobre a situação. Esta falta de comunicação tem agravado a tensão entre os professores e a gestão do instituto, e a incerteza sobre o futuro das aulas continua a aumentar.
A greve no Instituto Eduardo Mondlane é apenas um reflexo de um problema mais amplo que afecta a educação em Moçambique: docentes que exigem os seus direitos, estudantes que temem pelo seu futuro e um Governo que, apesar de prometer soluções, ainda não conseguiu resolver a situação.