Este texto resulta de um enquadramento que contextualizou a visita à antiga “Cela 1” da Cadeia Civil de Lourenço Marques, actual “Posto Rádio”, na Cadeia Civil de Maputo, por ocasião da memória em homenagem à José Craveirinha (1922-2003), poeta-mor de Moçambique, que habitou aquele lugar.
Informa-nos o jornal Notícias, datado de 1966, que José Craveirinha foi preso e condenado, pelo Tribunal Militar, por ter colaborado activamente com a Frelimo e por se ter proposto angariar fundos para apoiar esse movimento. Desse processo de julgamento, que juntava 9 réus, cada um dos quais com acusações a que se designou “envolvimento em actividades subversivas contra o Estado”, sete réus foram condenados, nomeadamente, José Craveirinha, Rogério Jauana, Armando Muiuane, Abner Muthemba, Francisco Barreto (aliás Rui Nogar), Júlio Navelane e Janatane Chale. Os outros dois, Malangatana Ngwenya e Daniel Magaia foram absorvidos.
Lembrar esse momento, pejado de injustiça, é cultivar a merecida memória daqueles que, preocupados com os destinos de Moçambique, desenvolveram actividades em prol da libertação do país. É, além disso, recordar que momentos similares não devem acontecer na Humanidade. É importante, por isso, recordar que, nem todos os países tiveram o cuidado de transformar esses lugares históricos em Museus, que promovem a democracia, a justiça e a cidadania, como modo de resistência a ataques do colonialismo, tal como o fizeram a África do Sul, com a prisão de Nelson Mandela, na Ilha Robben, ou Cabo Verde, Ilha de Santiago, no Tarrafal, campo de concentração de vários activistas políticos (opositores do regime colonial). A este propósito, conviria lembrar que o que temos hoje, na Ilha Xefina, em Moçambique, são resquícios de celas e de canhões, que poderiam guardar a História de Moçambique e alavancar o Turismo, quiçá?
José Craveirinha foi encarcerado na Cela 1 durante 90 dias, tendo sido solto, antes do tempo, por tentativa de suicídio e cumprido o resto da sua pena no Hospital Psiquiátrico do Infulene. Saiu em liberdade condicional em 1969. Durante esse período de reclusão, a PIDE tentou fazer com que ele retornasse à cadeia. Entretanto e de acordo com depoimentos de Zeca Craveirinha (filho do poeta), valeu a intervenção “do Irmão António”, membro de uma Caridade Religiosa da Igreja Católica Apostólica, responsável do hospital que aplicava injecções ao seu pai, para que ele ficasse inconsciente e dissuadisse a PIDE de o retirar de lá. Importa acrescentar ainda, que foi Malangatana Ngwenya quem livrou o seu pai do suicídio, tal como o afirmou Zeca Craveirinha na antiga Cela 1, no contexto da visita de que tenho vindo a falar.
No contexto desse evento, João Manja leu um poema sem título, que termina em “Sia-Vuma”. Trata-se de um inédito, que Zeca Craveirinha confirma ser o único escrito naquela cela, em 1965. E, de facto, esse poema não consta do livro Cela 1, publicado em 1980. Compõe esse livro um conjunto de textos escritos após a saída do poeta da prisão, que fazem referência a esse momento de reclusão. Fazem, também, menção a esse período várias cartas inéditas (e no prelo), escritas em papel higiénico em 1965, dirigidas a Luís Bernardo Honwana, deixadas (de modo escondido) na casa de banho que se situava em frente à Cela 1. De referir que estes reclusos não partilhavam a mesma cela. Uma dessas cartas foi lida por Marisa Martins, no âmbito dessa mencionada visita.
Voltando ao poema acabado de referir, é pertinente afirmar que sia-vuma, significa “é verdade” ou “assim seja”. Sendo José Craveirinha criador de utopias, tornou-se verdade que máscara nenhuma duraria por toda a vida (por outras palavras, como diz o poema, […] “Ninguém falseia o tempo” [..] “animal com o céu retalhado” […]. Ou seja, estar preso e ver a África injustiçada, certamente, não seria um evento eterno. Chegaria o dia da liberdade e da vitória, tanto dos presos, quanto do continente. Cito o poema: […] “Os murros e os pontapés / semeiam o teu corpo alto abaixo / e agora é só a paciência / da época da colheita. / Sia-vuma! / Irmãos / Sia-vuma!” […]. A partir deste trecho, pode-se depreender que se reclama a injustiça e se augura alguma esperança.
No tocante à carta a Luís Bernardo Honwana (lida na ocasião da visita), importa destacar que com recurso à sua característica ironia, José Craveirinha questionava o tratamento animalesco dado aos presos na Cadeia Civil de Lourenço Marques, codificando alguma linguagem. Reclamava ainda o facto de ter que celebrar os seus 43 anos de idade naquilo a que designou de “Câmara frigorífica nr. 1” ou “toca 1”, na qual era tratado “como um bocado de carne bem conservada de animal frelimico de 1965”; tal como o refere a carta. Estava desesperado, de tanto estar sem movimento, tal como a referida “cruz verde” [da Igreja da Polana] que se via, a partir da única janela da sua cela. Claramente, que o regime do dia, não admitiria tais denúncias. Depoimentos de Zeca Craveirinha asseguram que foi Luís Bernardo Honwana quem guardou algumas dessas cartas, tendo-as entregue ao advogado Carlos Adrião Rodrigues (1929-2011) que as conservou.
Numa outra carta a que tive acesso, na Fundação Craveirinha, constatei que ele dialogava, eloquentemente, com Luís Bernardo Honwana sobre a importância da língua portuguesa, para o desenvolvimento socio-cultural e político de um país multicultural e multilíngue como Moçambique. Explicava o quão a língua portuguesa serviria (e ainda serve – em alguns lugares do país ou deveria) para unir as diferentes nações moçambicanas. Como se sabe, este território é resultante de um processo histórico que aglutinou várias delas, numa única falante do português e como um Estado. Para o poeta, o português, não seria uma má escolha para os moçambicanos, até porque os ajudaria a entenderem o inimigo comum e a lutarem contra as injustiças por ele perpetradas. A carta foi escrita num contexto de resposta a algo que alguém com o nome Mulhanga tinha referido acerca da preservação das culturas e das línguas moçambicanas.
Este breve retrato demonstra parte do processo de escrita de uma memória por preservar, dada a informação acerca de quem protegeu a História de Moçambique, a registou e vaticinou o futuro independente do país, tal como é possível ler-se através de um outro poema intitulado “Sia-vuma” e que consta da obra Karingana ua karingana (1974), com poemas escritos em 1963, anunciando esperança em dias melhores, livres do colonialismo, celebrando a diversidade linguística, cultural e as suas diferentes tradições ancestrais, no convívio com a “modernidade “ou “progresso” cultural e científico.
Neste contexto, é ainda importante destacar, segundo Nelson Saúte, num texto publicado no jornal Carta de Moçambique, em Fevereiro de 2025, que, para albergar Craveirinha na Cela 1, foi necessário retirar Lina Magaia (1945-2011), uma notável mulher da História de Moçambique, presa pela PIDE em 1965. Este facto revela que ainda há dados por se publicar e escrever sobre aquela cela (e outras do mesmo espaço prisional) e ainda sobre muitos outros lugares e pessoas históricas em Moçambique. As que são mencionadas no presente texto são apenas uma amostra ligada ao momento celebrado na visita à Cadeia Civil de Maputo.
A propósito das histórias que ficam por contar, gostava de terminar este texto referindo-me a um notável registo que fiz de uma correspondência com José Paulo Pinto Lobo (escritor moçambicano), que referiu que João Reis (ou seja, João Salva-Rey), um dos fundadores do Jornal A Tribuna em Lourenço Marques (media apartada do regime colonial), terá ficado preso na Cela 4 desse estabelecimento prisional. Este jornalista e professor foi, segundo José Lobo, quem editou a obra Nós Matamos o Cão Tinhoso de Luís Bernardo Honwana. Mais ainda, referir o Jornal A Tribuna é recordar José Craveirinha, na sua qualidade de seu colaborador, através da coluna designada “Contacto”.
Diante da vasta obra de Craveirinha já publicada e daquela que ainda aguarda por ser editada, aliados ao reconhecimento da heroicidade do poeta, mais a consagração de ter sido um notável porta-voz do nosso tempo histórico; após a visita à esta Cela 1, fica difícil sair-se sem questionar a razão pela qual este estabelecimento penitenciário ainda não foi transformado em Museu da Resistência, lembrando que já existiu um projecto de transformar um museu com esse nome e um outro lugar histórico esquecido, em Moçambique, que é a Vila Algarve.
Saímos dessa visita com questões. Não se sai de um lugar desses ileso. Histórica e moralmente seria sensato revitalizarmos o modo como preservamos a nossa sofrida História. José craveirinha é a voz do nosso tempo, tal como o afirma o título de uma coletânea de ensaios sobre a sua obra, publicada em 2022, sob a responsabilidade de José dos Remédios.
Sara Jona Laisse, docente universitária. Contacto: saralaisse@yahoo.com.br.
Setembro de 2026.