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O País – A verdade como notícia

Novo trabalho de Juliana de Sousa transforma Jangamo num palco de celebração cultural e resgata um dos cantos populares mais simbólicos da tradição Bitonga

Há músicas que se escutam. E há músicas que se sentem. “Gigadagada” pertence à segunda categoria.

O novo videoclipe da cantora moçambicana Juliana de Sousa, com estreia marcada para o dia 29 de Maio, transforma o distrito de Jangamo num território de encontro entre culturas, memórias e identidades, numa produção profundamente ligada às raízes da cultura Bitonga.

Mas “Gigadagada” não é apenas música. É um manifesto artístico sobre pertença, ancestralidade e liberdade. É uma obra que mistura poesia, tradição oral, dança e emoção para contar uma história construída entre duas mulheres, dois continentes e duas formas de olhar o mundo.

De um lado está a alma Bitonga de Moçambique. Do outro, a sensibilidade italiana de Anna Di Lorenzo, voluntária europeia que mergulha numa experiência marcada pelo contacto íntimo com os costumes, os ritmos e os símbolos culturais do sul de Moçambique.

O resultado é um videoclipe que vai muito além da estética visual. “Gigadagada” procura transformar um canto popular tradicional num património emocional contemporâneo, recriando memórias colectivas através da linguagem artística da música.

O título da obra, entretanto, carrega um simbolismo tão profundo quanto provocador.

Segundo Juliana de Sousa, “Gigadagada” possui um duplo sentido dentro da tradição oral dos Bitongas. Literalmente, refere-se à chapa onde se torra farinha. Mas o significado metafórico varia de região para região dentro da cultura Bitonga.

Em alguns contextos, explica a artista, “Gigadagada” representa o corpo feminino, particularmente associado à sexualidade da mulher. Noutras interpretações, o termo remete à figura de uma mulher que já não consegue regressar ao lar depois de determinadas experiências da vida.

A cantora sublinha que os cantos tradicionais dos Bitongas possuem forte carga erótica, simbólica e metafórica, sendo frequentemente interpretados de formas diferentes dependendo do contexto social e cerimonial em que são cantados.

“É um canto popular dos Bitongas. Cada contexto tem uma interpretação própria”, explica Juliana.

Longe de reduzir o tema à provocação, a artista usa exactamente essa riqueza interpretativa como matéria-prima criativa para construir uma obra que dialoga com identidade, feminilidade, memória e tradição.

A origem do projecto nasce também de um encontro improvável.

Segundo Juliana de Sousa, Anna Di Lorenzo aproximou-se inicialmente com o desejo de aprender a cantar “como africana” e ter aulas de música. A cantora admite que nunca se considerou professora musical, mas diz que entre as duas surgiu uma ligação imediata, quase como se já se conhecessem há muito tempo.

Foi a partir dessa conexão que nasceu a construção artística de “Gigadagada”.

Juliana conta que já trabalhava num poema dedicado à mãe quando decidiu incorporar o canto popular Bitonga e recriá-lo dentro da composição musical. Anna Di Lorenzo, por sua vez, também acabou por inserir na música uma dimensão pessoal e íntima.

Na sua estrofe, a italiana fala da relação com a própria mãe e do conflito emocional provocado pela sua paixão por viajar pelo mundo, conhecer culturas e explorar novos lugares, mesmo sabendo que isso frequentemente significa distância e saudade.

A música transforma-se assim numa ponte emocional entre duas mulheres de universos diferentes, mas ligadas por sentimentos universais como pertença, liberdade, memória e afecto materno.

Mais do que um simples exercício artístico, “Gigadagada” apresenta-se como um esforço consciente de preservação cultural.

Juliana de Sousa explica que decidiu recriar este canto popular como forma de “imortalizar traços identitários” da cultura Bitonga através da música. O objectivo, segundo a artista, é garantir que elementos culturais profundamente presentes no quotidiano das comunidades não desapareçam com o tempo.

O coro usado na música faz parte dos cantos tradicionais entoados em contextos de celebração, festas comunitárias, cerimónias e momentos pós-colheita, ambientes onde música, dança e oralidade sempre desempenharam papel central na preservação da memória colectiva.

É precisamente essa dimensão ancestral que o videoclipe tenta capturar.

Gravado em Jangamo, o trabalho mergulha em cenários naturais, expressões culturais e práticas tradicionais da região, transformando o território num personagem silencioso da narrativa visual.

A produção aposta numa estética emocional, intimista e identitária, onde cada imagem procura dialogar com os elementos centrais da cultura Bitonga. O mar, a dança, os tecidos, os gestos, os cânticos e os olhares não aparecem apenas como decoração visual, mas como fragmentos vivos de uma herança cultural que continua presente no quotidiano das comunidades.

Ao juntar uma artista moçambicana e uma voluntária italiana num mesmo universo simbólico, “Gigadagada” também desafia fronteiras culturais e propõe uma reflexão sobre a forma como povos diferentes podem encontrar-se através da arte sem apagar as respectivas identidades.

Num tempo em que grande parte da produção musical global tende à homogeneização cultural, Juliana de Sousa escolhe o caminho contrário: aprofundar as raízes locais para dialogar com o mundo.

E talvez seja exactamente aí que reside a força de “Gigadagada”.

O videoclip não tenta internacionalizar a cultura Bitonga tornando-a menos Bitonga. Pelo contrário. Assume os seus códigos culturais, os seus símbolos, os seus silêncios e as suas ambiguidades como parte da sua autenticidade artística.

Ao fazê-lo, transforma um canto tradicional numa experiência contemporânea capaz de atravessar geografias e tocar públicos muito diferentes.

A estreia oficial acontece no dia 29 de Maio em todas as plataformas digitais. Mas antes mesmo do lançamento, “Gigadagada” já começa a afirmar-se como muito mais do que um videoclip musical.

É um encontro entre passado e presente. Entre tradição e reinvenção. Entre Moçambique e Itália. Entre mães e filhas. Entre memória e liberdade.

E talvez seja precisamente por isso que “Gigadagada” não se limita a ser ouvido.

“Gigadagada” sente-se.

Alguns troços das avenidas Graça Machel e Nelson Mandela, no bairro Magoanine, na Cidade de Maputo, continuam alagados com as águas da chuva de Janeiro e Fevereiro. As partes alagadas estão a ser transformadas em lixeiras, e o Município de Maputo culpa os moradores pelo alagamento das vias.

A Avenida Graça Machel, que dá acesso à Circular de Maputo através da Estrada Nacional Número 1, dividindo os bairros Magoanine B e C, na Cidade de Maputo, foi, desde a última época chuvosa, transformada em pequeno riacho. Na entrada da Escola Mártires de Mbuzine, no bairro Magoanine “C”, pouco mais de 200 metros da estrada foram tomados pelas águas.

“Nós estamos a pedir ajuda para retirar esta água”, clamou Preciosa Bié, moradora de Magoanine “C”.

Devido à gravidade do problema, a via está a ser abandonada pelos automobilistas, dando espaço a crianças do bairro que encontram no local e nas águas espaço para diversão.

Carlos Nhantumbo, transportador de passageiros, explica que são obrigados a “usar vias alternativas no interior dos bairros, mas às vezes somos barrados pelos moradores”.

Se os transportadores de passageiros usam vias alternativas, o impacto recai sobre os utentes dos transportes semicolectivos, como explica Amélia Matuto, entrevistada na Rotunda de Grande Maputo.

“Os carros já não chegam aqui, devido à água. A partir das 18 horas, somos baldeados, porque os chapas não podem entrar nas ruas dos bairros, a fugir da água. Há bandidos, não é fácil, eles correm risco de ser agredidos.”

As pessoas que exercem actividades comerciais nas proximidades são, por outro lado, as vítimas das águas estagnadas. Diferentemente de muitos outros que foram obrigados a encerrar os estabelecimentos, Manuel Nhampossa, proprietário de uma carpintaria à beira da estrada, viu o número de clientes cair desde que a entrada foi tomada pela água.

“Eu tenho de sair da oficina com botas para poder atender os clientes. Se não acontecer isso, eu perco os clientes, devido à água.”

E não é um caso isolado. Graça Marcelo, comerciante nas proximidades, perdeu a capacidade de arcar com as despesas desde que a estrada foi tomada pela água, possibilitando os clientes de aceder ao estabelecimento.

Se de um lado a água tomou conta da via, de outro, os resíduos sólidos não recolhidos no local misturam-se com água, e o mercado local quase já não recebe clientes.

“Eu, por exemplo, trabalho com refeição, mas assim não tenho como trabalhar. Tenho falta de clientes, porque ninguém senta aqui para comer, devido às moscas, com lixo. Aqui deitam cães mortos, gatos e até fetos”, lamentou Madonna Vembane.

Quem vive nas proximidades fala da impossibilidade para introduzir ou retirar um veículo da residência, devido à água, e a esse grupo, os moradores, a Empresa Municipal de Infra-Estruturas de Maputo imputa a culpa do alagamento da via.

“No acto da construção daquela via, foram acautelados todos os pormenores técnicos de drenagem. Foram construídos alguns descarregadores. Aconteceu que, passado algum tempo, moradores bloquearam todas as saídas de água”, disse Ricardo Anibal, director-técnico da EMIM.

A empresa diz que no momento não há uma solução definitiva à vista e apela aos moradores para reabrirem os alegados caminhos das águas.

Severino Ngoenha diz que Moçambique é uma “Grande Selva” seca, e por qualquer rastilho pode pegar fogo. Segundo o académico e Reitor da Universidade Técnica de Moçambique, a reconciliação no país deve incluir África do Sul, potência regional que subjuga a economia nacional

Através de Mementos de Moçambique, Severino Ngoenha uma das mentes panafricanistas da actualidade, traz à memória e problematiza conflitos e caminhos de reconciliação em Moçambique. Usa metáfora de uma guarda chuva que, em princípio, devia cobrir a todos os moçambicanos, mas por alguns motivos, uma parte, aliás, boa parte, continua fora da sombra e está susceptível a inundações sempre que chove ou que a seca sempre faz temperaturas altas. 

Ngoenha regressa às negociações dos acordos de Roma e encontra Joaquim Chissano, Presidente da República e da Frelimo, abraçando Afonso Dhlakama, Presidente da Renamo,  marcando o fim do conflito que durou 16 anos. Cerca de 35 anos depois, Ngoenha aponta o dedo aos beligerantes e acusa-os de derrotados. 

Mementos de Moçambique foi apresentado Ernesto Maguengue e Luís Bernardo Honwana. Os apresentadores chamaram Severino Ngoenha de profeta secular. 

 

A Confederação das Associações de Futebol da África Austral (COSAFA) tem uma nova liderança para o ciclo olímpico de 2026 a 2029. O dirigente tswana Tariq Babitseng foi eleito presidente da organização durante a Assembleia Geral realizada na capital zimbabweana, Harare.

Babitseng sucede ao angolano Artur Almeida e Silva, que cessou funções após a conclusão do seu mandato à frente do organismo desportivo regional. A eleição marca o início de uma nova era na gestão do futebol da África Austral, com promessas de maior dinamismo e modernização das competições.

Para além da eleição do novo timoneiro, a reunião magna definiu a restante composição do Comité Executivo. O malgaxe Alfred Randriamanampisoa assume o cargo de vice-presidente da federação regional.

O novo elenco executivo conta ainda com uma forte presença feminina na estrutura de decisão. Entre os novos membros destacados estão Brenda Kunda, da Zâmbia, e a dirigente angolana Irene Gonçalves, garantindo a representatividade e a continuidade do envolvimento de Angola nas esferas de decisão do futebol regional.

A nova equipa diretiva assume os comandos da COSAFA com o desafio imediato de expandir o calendário competitivo e fortalecer o desenvolvimento do futebol de formação em todos os países membros.

A angolana Irene Gonçalves, vice-presidente para o futebol feminino da FAF, foi nomeada, ontem, para o Comité Executivo do Conselho das Associações de Futebol da África Austral (COSAFA) para o quadriénio 2026-2029, segundo uma nota publicada nas redes sociais Facebook.

“Hoje (domingo) fui nomeada para o Comité Executivo da COSAFA para o período 2026-2029, um passo que encaro com enorme sentido de responsabilidade e dedicação ao futebol angolano. Quero agradecer a todos pelo apoio ao longo deste percurso”, escreveu.

A dirigente sente-se “honrada por poder representar Angola neste novo desafio e por contribuir para levar o nome do nosso país mais longe no panorama do futebol africano e poder contribuir para o desenvolvimento do Futebol Feminino e empoderamento da mulher”.

Irene Gonçalves destacou a família, o actual presidente da FAF, Alves Simões, e os colegas da direcção pelo apoio na caminhada que resultou na nomeação para organismo regional. 

A antiga internacional não esqueceu, igualmente, alguns antigos dirigentes desportivos, como o malogrado Rui Mingas, Paixão Júnior e Carlos Hendrick.

“Este caminho começou há muitos anos e foi marcado por pessoas que confiaram em mim e deram-me oportunidades fundamentais. O Dr. Rui Mingas convidou-me para coordenar o desporto na Universidade Lusíada. Mais tarde, o Dr. Paixão Júnior convidou-me para assumir funções como coordenadora no Progresso Sambizanga, onde também integrei o corpo directivo. Depois, recebi o convite do General Carlos Hendrick para o Clube Desportivo 1.º de Agosto, onde dei continuidade ao meu percurso como dirigente desportiva. Cada etapa foi essencial para chegar até aqui”, reconheceu.

O escritor Mia Couto foi distinguido com o título de Doutor Honoris Causa por uma Universidade na Hungria, num reconhecimento internacional que destaca a sua contribuição para a literatura mundial. O Presidente da República enaltece distinção como orgulho nacional e reconhecimento da dimensão humanista da obra de Couto. 

A distinção foi atribuída por um Universidade na Hungria,  Eötvös Loránd University, recentemente, que considerou Mia Couto uma das vozes mais influentes dos povos do chamado Sul Global, sublinhando a forma como a sua escrita atravessa fronteiras linguísticas e geográficas, projectando a literatura moçambicana em diferentes espaços do mundo.

Na mesma cerimónia, a instituição também homenageou quatro cientistas internacionais, numa valorização do impacto global do conhecimento em várias áreas do saber.

Na ocasião, Mia Couto afirmou que o reconhecimento não lhe pertence apenas a si, mas também aos escritores moçambicanos e aos professores que continuam a “acender luz e esperança nas novas gerações”, destacando o papel coletivo na construção do pensamento e da criação literária em Moçambique e além-fronteiras.

Em comunicado de imprensa, o Presidente da República, Daniel Francisco Chapo, felicitou o escritor, considerando a distinção motivo de orgulho nacional e reconhecimento da dimensão humanista da sua obra. 

O Chefe de Estado sublinhou ainda o contributo de Mia Couto para o diálogo entre culturas, a valorização da identidade africana e a projeção de Moçambique no panorama académico e cultural internacional.

Autor de mais de 30 obras e vencedor do Prémio Camões, Mia Couto é uma das maiores figuras da literatura africana contemporânea, com livros traduzidos em mais de 30 línguas.

O Parlamento aprovou hoje, por consenso, duas propostas de lei que regulam a governação descentralizada provincial. Trata-se de uma revisão que vai permitir ao Estado poupar mais de 1,2 mil milhões de meticais por ano, e que, entre outros, extingue o Conselho dos Serviços de Representação do Estado. 

A revisão das leis que regulam a governação descentralizada no país já era bastante esperada, depois de serem notadas inconsistências, disfunções e redundâncias institucionais que fragilizam a eficiência do Estado.

Há duas semanas, o Presidente da República, Daniel Chapo, solicitou à Assembleia da República a apreciação, com carácter de urgência, das propostas de lei de revisão dos instrumentos. 

A extinção do Conselho de Serviços de Representação de Estado, uma estrutura colegial que inclui vários serviços, é uma das medidas resultantes da adopção dos instrumentos, segundo explicou o ministro da Administração Estatal e Função Pública.

Falando aos deputados, durante a apreciação dos instrumentos, Impissa explicou que a revisão da lei 4/2019 ajusta as funções do governador da província.   

Depois da apreciação, as duas propostas de lei foram aprovadas por consenso. 

Para os deputados, a revisão vai trazer ganhos ao Estado. 

Mesmo a favor, o Podemos e o MDM dizem que a expectativa era de que fosse eliminada a figura do secretário de Estado, cuja existência é determinada pela Constituição da República. 

A revisão das propostas de lei vai também permitir poupar recursos do Estado, na ordem de 1,2 mil milhões de meticais por ano.

Cabo Verde vai ser a Capital Africana da Cultura em 2028, no âmbito de um projecto com o mesmo nome promovido por uma associação que junta 44 entidades do continente, anunciou o Governo cabo-verdiano.

“Cabo Verde será o País anfitrião da Capital Africana da Cultura em 2028”, anunciou o primeiro-ministro, Ulisses Correia e Silva, na Internet, referindo que o protocolo foi assinado na quarta-feira, em Marrocos, e que o País “será palco de um amplo programa de iniciativas”.

O cartaz, a divulgar, pretende promover “o intercâmbio artístico, valorizar o património e impulsionar o desenvolvimento urbano sustentável, consolidando a cultura como motor de crescimento e afirmação global”, acrescentou.

De acordo com a informação institucional da organização promotora, o programa “Capitais Africanas da Cultura”, dinamizado pela organização Cidades e Governos Locais Unidos de África (UCLG Africa), foi criado em 2018.

A iniciativa nasceu durante a cimeira Africities, em Marraquexe, Marrocos, com o objectivo de afirmar a cultura como “o quarto pilar do desenvolvimento sustentável, a par das dimensões económica, social e ambiental”.

A cidade ou país designado como Capital Africana da Cultura acolhe, durante dois anos consecutivos, “celebrações da excelência artística, cultural e criativa do continente, funcionando igualmente como espaço de reflexão sobre políticas públicas para a cultura, artes e indústrias criativas”.

Foi lançado esta quarta-feira, na cidade de Maputo, o livro “Repórter de Sombras e Esperança: A fotografia como testemunho da reportagem”, da autoria do fotojornalista Carlos Uqueio. A obra, que compila dezoito anos de trajectória profissional, apresenta-se como um testemunho visual e escrito sobre a realidade moçambicana, propondo uma leitura crítica sobre o papel da imagem no jornalismo contemporâneo.

O evento decorreu num ambiente marcado por expectativa e simbolismo, onde flashes de câmeras se cruzavam com olhares atentos de convidados, jornalistas e amantes da fotografia. Mais do que um simples acto de lançamento, a cerimónia transformou-se num espaço de reflexão colectiva sobre a memória, a narrativa visual e a responsabilidade social do fotojornalismo. 

As páginas da obra revelam histórias captadas em diferentes contextos, muitas vezes em cenários de tensão, vulnerabilidade e esperança, compondo um mosaico que procura retratar o país para além das aparências imediatas.

Na sua intervenção, Carlos Uqueio destacou que o livro representa muito mais do que um produto editorial. “Hoje não apresento apenas um livro, apresento 18 anos de estrada, de silêncio, de risco e de compromisso com a realidade. Repórter de sombras e esperança nasce do terreno, nasce das ruas, dos bairros, dos momentos em que a vida acontece sem aviso e sem encenação”, afirmou. 

O autor sublinhou ainda a importância de contextualizar a imagem jornalística, defendendo que “o livro cruza a fotografia escrita para oferecer não só olhar, mas também o contexto”, o que, segundo explicou, “transforma-o num registro mais completo da nossa realidade”.

Ao longo das páginas, o leitor é conduzido por diferentes cenários que ilustram o quotidiano moçambicano, desde momentos de crise até expressões de resiliência social. Para o autor, o objectivo não se limita à documentação, mas estende-se à provocação de pensamento crítico e à valorização do papel do fotojornalismo na construção da consciência pública.

Durante a apresentação, Carlos Uqueio reforçou esta perspectiva ao afirmar: “A vossa presença reforça a ideia de que o fotojornalismo continua a ser fundamental para o desenvolvimento do nosso país. Mais do que um lançamento, espero que este seja um momento de reflexão sobre o papel da fotografia na sociedade. 

Se este livro conseguir provocar este debate, então já terá cumprido o seu propósito.” A declaração evidencia a intenção do autor de posicionar a obra como um instrumento de diálogo social, capaz de estimular diferentes leituras sobre a realidade nacional.

O prefácio do livro é assinado pelo antigo Primeiro-Ministro, Carlos Agostinho do Rosário, que na ocasião destacou a profundidade interpretativa das imagens reunidas. “Essas imagens captam não apenas o visível, mas o sentido das coisas. Não apenas o visível, mas o sentido das coisas. O que está por detrás. O que muitas vezes não é dito, mas é sentido”, afirmou. 

Na sua leitura, a obra de Uqueio transcende o registo imediato e alcança dimensões mais densas da experiência humana.

Prosseguindo, Carlos Agostinho do Rosário sublinhou o valor do tempo e da atenção na apreciação do livro, numa época marcada pela rapidez informativa, “nos tempos que correm, em que tudo é rápido, este livro exige o contrário. Exige tempo, exige atenção, exige consciência. E isso tem valor, porque o que vemos aqui no seu livro não é um produto do acaso, é ele próprio. É resultado de disciplina, muito foco, muito trabalho, elevado profissionalismo, dedicação, humildade, sobretudo. Humildade. Para aprender e para ensinar. E, sobretudo, sentido de missão.” 

A intervenção reforça a ideia de que o trabalho do fotojornalista assenta em princípios éticos e num compromisso contínuo com a verdade.

A cerimónia foi igualmente marcada por palavras de reconhecimento à ousadia e relevância da iniciativa. O secretário-geral do Sindicato Nacional de Jornalistas, Faruco Sadique, considerou que a publicação representa um contributo significativo para a valorização do jornalismo no país. “Cabe então a nova missão de registar e divulgar essas histórias ímpares, sempre à sombra de um jornalismo sério e responsável, comprometido com os princípios éticos e ideológicos da profissão”, afirmou.

Na mesma ocasião, Faruco Sadique enalteceu a capacidade do autor em transformar a experiência acumulada em narrativa estruturada: “Parabéns, pois, Carlos Uqueio, por, no seu estilo característico, ter sabido e, diria mesmo, ousado, tirar partido dessa gratificante oportunidade de contar, em livro, as histórias das suas próprias vivências e experiências de dentro e de fora do país.” 

A declaração destaca não apenas o mérito individual do autor, mas também a importância de registar e partilhar experiências jornalísticas em formatos duradouros.

Ao reunir dezoito anos de trabalho, Carlos Uqueio constrói uma narrativa que atravessa diferentes fases do país, oferecendo ao público uma perspectiva singular sobre acontecimentos e vivências que marcaram a sociedade moçambicana.

Entre momentos de dor, resistência e esperança, as imagens reunidas no livro assumem-se como documentos históricos e, simultaneamente, como instrumentos de reflexão.

A escritora moçambicana Suzana Machamale lança a obra “Uma Pele Secreta”, no Centro Cultural Português, em Maputo. A apresentação da obra estará a cargo de Antónia Rosa.

“Uma Pele Secreta” é uma narrativa intensa e envolvente que explora os laços familiares, o amor e as consequências de escolhas marcantes. A história acompanha Hadrian e Ludwig, dois irmãos profundamente unidos, mas com personalidades distintas. Após um acontecimento traumático que abala a vida de Hadrian, Ludwig esforça-se para ajudá-lo a reencontrar o equilíbrio, sem sucesso.

O rumo da história altera-se quando Hadrian reencontra Núbia, o seu primeiro e grande amor. No entanto, este reencontro revela-se inquietante: Núbia já não é a mesma. Movido pela necessidade de voltar a sentir-se vivo, Hadrian decide reaproximar-se, ignorando sinais de alerta que acabam por desencadear consequências irreversíveis para todos os envolvidos.

Sobre a autora, Suzana Machamale nasceu a 24 de Agosto de 1991, na cidade da Beira, Moçambique. É formada em Sociologia, mas encontrou na escrita o seu principal meio de expressão. Estreou-se na literatura com a obra “As Raízes do Rei”, primeiro volume da tetralogia “Príncipes Sangrentos”.

O evento insere-se no âmbito da promoção da literatura moçambicana contemporânea e convida o público, a comunicação social e os amantes da leitura a participarem neste momento cultural.

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