Um pouco pelo país, há sinais que não enganam. São filas que crescem a cada hora, viaturas estacionadas à porta das bombas como quem guarda um lugar na esperança de um milagre, motores desligados, rostos cansados e uma pergunta que ninguém consegue responder com clareza: onde está o combustível?
Moçambique volta a viver um daqueles momentos em que o essencial deixa de ser garantido e quando isso acontece, tudo o resto entra em risco.
Na cidade de Xai-Xai, a capital provincial de Gaza, a crise instalou-se com força desde as 17 horas de terça-feira. O que antes era rotina, parar numa bomba e abastecer, transformou-se num exercício de sorte. Na quarta-feira, apenas duas das doze bombas existentes estavam operacionais e o resto está mergulhado num silêncio inquietante, sem combustível, sem respostas, sem previsões.
E quando o combustível falta, não é apenas o transporte que pára. É a vida que abranda, é a economia que hesita e a urgência que se complica.
“Não estamos nada aliviados. Estamos zangados”, desabafa um automobilista, com a frustração de quem vê o tempo passar e as soluções não aparecem. Há doentes que precisam de transporte, trabalhadores que dependem da mobilidade diária, famílias que vivem da logística informal. E todos estão, de uma forma ou de outra, reféns desta escassez.
Enquanto isso, nas poucas bombas em funcionamento, o cenário é de pressão constante, com filas longas, abastecimentos limitados a mil meticais por viatura, e uma matemática cruel, onde em cada dez pessoas na fila, apenas duas conseguem abastecer, segundo revelou um automobilista, visivelmente agastado.
O edil de Xai-Xai não esconde a preocupação. Reconhece a gravidade da situação e alerta para um efeito dominó que já começou a desenhar-se, com a possível subida de preços, encarecimento do transporte e agravamento do custo de vida. Numa cidade que já enfrenta desafios estruturais em consequência das inundações, a falta de combustível pode ser o empurrão que faltava para agravar ainda mais a vulnerabilidade dos munícipes.
E o problema não se limita à capital provincial. Distritos como Chongoene, Limpopo, Mandlakazi, Chókwè, Chibuto, Mapai e Massagena também estão a sentir o impacto. A crise espalha-se, silenciosa, mas eficaz.
A pergunta inevitável que surge é se será esse um problema pontual ou o início de algo maior?
Em Inhambane, a resposta parece apontar para a segunda hipótese.
Na capital da “Terra da Boa Gente”, o simples acto de abastecer deixou de ser simples. É uma corrida contra o vazio, onde motoristas percorrem a cidade de uma bomba à outra, numa busca que muitas vezes termina sem sucesso. Há quem deixe a viatura estacionada junto às bombas, como quem aposta na sorte de ser o primeiro quando e se o combustível chegar.
“Já passei por todas as bombas. Nenhuma tem gasolina”, conta um mototaxista, com a naturalidade de quem já incorporou o caos no quotidiano.
Sem alternativas dentro da cidade, muitos recorrem à vizinha Maxixe. Uma travessia que, em condições normais, seria simples, mas que agora se tornou uma estratégia de sobrevivência. Há quem envie dinheiro a familiares para comprar combustível do outro lado. Há quem arrisque viagens longas apenas para manter a actividade.
No sector dos transportes, o impacto é ainda mais brutal. Há operadores que percorrem até 50 quilómetros só para abastecer, um esforço que encarece o serviço e reduz as margens de sobrevivência.
E mesmo quando há combustível, a incerteza mantém-se. Numa das poucas gasolineiras com previsão de reposição, o gestor admite que as quantidades são cada vez menores. “Recebemos pouco, mas com frequência”, diz, numa tentativa de transmitir alguma normalidade onde ela claramente já não existe.
Quando questionado sobre as causas da escassez, a resposta é desconcertante: ninguém sabe. Ou, pelo menos, ninguém diz.
Mas engana-se quem pensa que este é um problema restrito ao sul do país.
Na região centro, o cenário repete-se com nuances próprias. Em Manica, o “O Pais” encontrou uma realidade igualmente preocupante. Durante dias, apenas uma bomba abastecia toda a cidade, onde filas que começam de manhã, se prolongam até ao fim da tarde. Esperas longas, limites apertados e uma sensação generalizada de impotência.
Odete António estava na fila por mais de 4 horas e ainda aguardava. “Está muito crítico”, resume, com a paciência já no limite.
Os valores também mudaram. Para viaturas, o abastecimento é limitado a 500 meticais. Para motorizadas, 100 meticais. Uma quantia que, para muitos, não cobre sequer um dia de trabalho.
Mototaxistas falam de prejuízos acumulados, onde as contas já não fecham e o rendimento diário caiu, enquanto os custos continuam a subir.
“Estamos a sofrer. Não conseguimos fazer receita”, desabafa um operador, num retrato fiel de um sector que depende directamente da estabilidade no abastecimento.
E em Tete, a história não é diferente, talvez apenas mais intensa.
Há cerca de duas semanas que a escassez se faz sentir. Quase todas as bombas estão sem combustível e o pouco disponível é distribuído de forma alternada, criando uma espécie de rotação entre os postos. Hoje abastece uma bomba, amanhã outra. Um sistema improvisado que apenas desloca o problema de lugar, sem o resolver.
O resultado é previsível onde com a concentração da procura, aumento da pressão e mais tensão nas filas.
“Já passei por todas as bombas. Não há combustível”, diz um automobilista, repetindo um discurso que ecoa de norte a sul.
No mercado paralelo, os preços disparam. Meio litro chega a custar 150 meticais. Um litro, 300. Valores que tornam o combustível inacessível para grande parte da população.
E quando o combustível sobe, tudo sobe. O transporte encarece, os produtos acompanham, e o custo de vida ajusta-se, sempre para cima.
A crise já não é apenas de abastecimento, é social, é económica e estrutural.
E, talvez mais preocupante do que a própria escassez, é o silêncio que a rodeia. A ausência de explicações claras, a falta de previsibilidade, a sensação de que o país está a reagir, mas não a antecipar.
Moçambique já passou por momentos semelhantes. E, como sempre, a resiliência das pessoas acaba por segurar o que as estruturas não conseguem.
Mas há um limite, porque, no fim do dia, não se trata apenas de combustível. Trata-se de confiança, de saber se amanhã será diferente de hoje, ou apenas mais do mesmo.

