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Como o Irão Consegue Sobreviver aos Ataques dos EUA? Uma Leitura à luz do Jogo da Galinha

O Jogo da Galinha é um modelo que ilustra uma situação em que dois jogadores podem escolher cooperar ou competir diretamente um contra o outro, com o risco de um resultado prejudicial caso nenhum deles ceda. Este jogo é frequentemente usado para demonstrar a tomada de decisões estratégicas em situações competitivas. No Jogo da Galinha, cada jogador tem duas opções: continuar em seu caminho (decisão voluntária) ou mudar de direção (decisão de ceder). Os resultados potenciais dependem muito das escolhas que ambos os jogadores fazem, resultando em recompensas diferentes. A hipótese principal é que todos os jogadores são racionais, ou seja, suas ações são consistentes e tem o objetivo de maximizar sua utilidade (payoff). Em quatro opções possíveis de acção, a melhor opção é quando um dos actores escolhe ‘não recuar` e seu adversário ‘recua’, em seguida, temos como segunda melhor opção a situação em que ambos os actores ‘recuam’. Já entre as piores opções está o cenário em que ambos os actores resolvem ‘não recuar’. Esta opção pode gerar as piores consequências, porque os actores podem incorrer em danos prolongados e incalculáveis.

O caso do conflito entre os EUA e o Irão é particularmente interessante. Trata-se de um conflito assimétrico envolvendo actores com capacidades diferentes e que definem o win set (vitórias) também de forma diferente. Na verdade, em conflitos assimétricos, o Estado mais fraco não precisa de vencer o conflito, só precisa de sobreviver, de resistir e manter a sua capacidade de infringir danos militares, económicos e políticos ao adversário. Neste conflito, Donald Trump pode vencer todas as batalhas em que se envolver contra o Irão, mas o Irão pode continuar a resistir, prolongando o conflito a custos baixos para si e a custos elevados para os EUA. Vencer significa diferentes coisas para os dois lados. Para os EUA vitória significa algo absoluto e maximalista, como sejam, a aniquilação da infraestrutura e capacidades nucleares, militares e politicas do Irão. Para o regime Iraniano a vitória é mais simplista, ou seja, significa simplesmente resistir e sobreviver.

As quatro semanas do conflito transmitiram uma realidade inegável. Os EUA foram ao conflito a partir de cálculos e objectivos operacionais pouco claros. Talvez por isso a tem sobressaído a corrente segundo a qual os EUA podem ter entrado nesta guerra e no momento em que entraram a reboque de Israel. Por exemplo, prescreveram um resultado maximalista (regime change) e adoptaram uma estratégia simplista para realizar este resultado: decapitação da liderança. Ora, o nível de preparação do Irão para este conflito foi surpreendente e tem sido a causa de constante redefinição de objectivos e de prioridades. Este facto indica que os EUA foram a este conflito sem a devida preparação estratégica, sem avaliação exaustiva das consequências associadas a cada opção e, acima de tudo, podem ter ignorado informação relevante para a uma acção militar bem-sucedida. Com efeito, não faz sentido que uma potência como os EUA fique surpreso por não haver apoio popular massivo a favor dos ataques e contra o regime dentro do Irão. Que trabalho terá sido feito para que isso acontecesse? Não faz, igualmente, sentido que uma potência como os EUA não consiga localizar os silos subterrâneos, de fabrico e armazenamento do arsenal de misseis e drones com que o Irão tem contra-atacado as bases militares dos EUA na região e não só. Informação sobre estas capacidades e localização deveria ter sido objecto de analise e avaliação pré-conflito.

Pelo contrário, o regime iraniano vem dando indicações claras de preparação para resistir a estes ataques e para desferir golpes estratégicos aos EUA e seu parceiro Israel. Primeiro desenvolveu e implementou a estratégia de defesa e estrutura militar em mosaico para sobreviver a qualquer cenário de decapitação das lideranças. Por esta via, opera exércitos paralelos (exército regular, guardas revolucionarias e múltiplos serviços de inteligência), com comandos descentralizados capazes de iniciar e terminar uma operação sem ordens superiores. Foi por isso que mesmo com a aniquilação do líder supremo juntamente com os comandos militares e de inteligências a capacidade de resposta do Irão não foi afectada. A decapitação da liderança não impediu a retaliação do Irão nem promoveu caos interno como era a espectativa Israelo Americana. Pode ter sido, também, por isso que no mesmo momento em que o presidente Masoud Pezeshkian pedia desculpas aos Estados do Golfo pelos ataques iranianos e prometia terminar com tais actos, misseis e drones iranianos eram lançados contra esses alvos e continuaram a ser lançados independentemente da posição do presidente que, aliás, teve de ser retratar contradizendo o seu próprio pedido de desculpas.

Segundo, o Irão desenvolveu um sistema de armamento capaz de confundir o equipamento de defesa norte americano tal como os misseis Fatahh com um movimento irregular e com rotas de difícil previsibilidade para os sistemas de defesa aéreas convencionais em uso pelos adversários. Em paralelo desenvolveram misseis que transportam bombas de fragmentação que complicam a defesa uma vez explodindo e multiplicando os alvos por abater. Irão desenvolveu, igualmente, linhas de produção de drones Shahed a custos baixos que lhe permitem implementar a estratégia de saturação, o que complica a defesa com recurso aos onerosos misseis patriots. Associado a isto está a camuflagem em subsolo e nas zonas montanhosas dos seus sistemas de lançamento de misseis que, pela sua mobilidade, tornam difícil a sua localização. Em conjunto a preparação militar para o contra-ataque a custos baixos favorece que o Irão esteja capacitado a suportar a dor por muito mais tempo do que os EUA estão para infringir essa dor.

A terceira abordagem Iraniana tem sido a capacidade de atingir interesses militares e civis estratégicas (refinarias, aeroportos e estacões de dessalinização) nos estados do golfo parceiros dos Estados Unidos. Esta estratégia tem colocado as lideranças destas monarquias em um dilema: juntar-se aos EUA e Israel na frente do combate contra o Irão ou pressionar os EUA para terminar com as incursões militares contra o Irão. Uma possível associação com o Israel contra o Irão teria consequência politicas inimagináveis naqueles Estados. Independentemente das diferenças culturais que os separam, as populações não iriam compreender como é que um Estado Árabe e Islâmico participa em uma aliança com um Estado Judeu contra um outro Estado Islâmico. Por isso, mesmo com ameaças esporádicas contra o Irão, a opção tem sido pressionar os EUA para terminar com as hostilidades militares. Ainda no âmbito da exploração das vulnerabilidades dos EUA e seus parceiros da região e não só, Irão tem instrumentalizado o Canal de Hormuz, uma via estratégica para a passagem de produtos petrolíferos da região do golfo para todo o mundo. O efeito detrimental, para a economia global, desta estratégia iraniana aumenta a pressão Global sobre os EUA para pôr fim ao conflito e permitir, desta forma, a criação de condições de segurança necessárias para a liberdade de trânsito no canal.

O quarto factor tem sido a exploração do Eixo de resistência por parte do Irão. Este eixo é composto por movimento como Hezbolah a partir do Líbano, o Hamas a partir da Palestina e dos Houtis a partir do Yemen. Se o Hamas está militarmente incapacitado, o Hezbollah tem sido uma distração importante para a fronteira norte do Israel fazendo com que Israel tenha de combater em três frentes (Irão, Líbano e Gaza) e com a possibilidade de abertura de uma quarta frente a partir do Yemen no mar Vermelho. Esta pressão acaba recaindo sobre os EUA que tem de assumir a maior parte das despesas de ataque e defesa contra o Irão ao mesmo tempo que tenta proteger os Estados do Golfo.

Em uma disputa militar com final imprevisível, um pensamento lógico e racional sugere que na impossibilidade de alcançar o resultado máximo (regime change) os Estados devem procurar assegurar, pelo menos, o resultado ótimo: um resultado possível e realizável. Aplicando o jogo de galinha no caso da confrontação EUA e Irão e assumindo os desenvolvimentos mais recentes, podemos chegar a conclusão de que os EUA recuaram, embora que momentaneamente.

Racionalmente falando, este recuo americano não é necessariamente derrota, embora que emocionalmente possam existir correntes nesse sentido. Esta decisão representa um cenário de contenção de danos, ou seja, o pior resultado preferível. Não é o pior resultado do jogo. O pior resultado do jogo seria não recuar e suportar danos incalculáveis em um conflito prolongado assumindo que o Irão não tem incentivo nenhum para recuar. Obviamente que ao recuar, embora que momentaneamente e mesmo que o Irão não recue, os EUA não conseguem satisfazer o resultado máximo de regime change, mas evitam danos materiais, financeiros e humanos prolongados e podem ter alcançado resultados intermédios tais como a incapacitação nuclear do Irão, incapacitação naval e da indústria militar, pelo menos aquela que opera a partir da superfície. Esta decisão pode igualmente induzir ao recuo do Irão e seu retorno a mesa negocial para uma solução final. Neste caso estaríamos perante o segundo melhor resultado dentro do jogo da galinha, onde as duas partes recuam simultaneamente.

Mesmo que se retomem as hostilidades em face de um potencial não recuo do Irão, o ónus de recuo definitivo na impossibilidade de se alcançar aquele resultado máximo de regime change estará sempre com os estados Unidos. A grande incerteza e reconhecendo a logica ou ilógica de actuação dos EUA pode ser que se esteja a usar esta pausa intencionalmente para reposicionamento, redefinição de objectivos e estratégias para uma nova onda de ataques que possa produzir resultados que justifiquem toda esta operação militar.

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