O País – A verdade como notícia

CMCM promete dar dignidade ao Jardim Tunduru após dias de imundície 

Comportamento humano e chuvas intensas estão por detrás do lixo espalhado, do cheiro a urina e das águas paradas constatadas no Jardim Tunduru, na cidade de Maputo. A explicação é do Conselho Municipal de Maputo, que garante já ter iniciado uma operação de limpeza considerada robusta e promete reforçar a fiscalização para preservar aquele que é considerado um dos principais espaços verdes da capital.

A reacção da edilidade surge dois dias depois da equipa de reportagem do O País, na última terça-feira, ter constatado que o Jardim Tunduru estava um pouco distante da imagem de refúgio verde e espaço de lazer que motivou a sua requalificação e reabertura ao público em 2015.

As imagens captadas no local revelavam lixo espalhado em diferentes pontos do jardim, incluindo garrafas plásticas, papéis e embalagens de comida do tipo take-away. O cheiro nauseabundo provocado por urina em determinadas zonas e a presença de águas paradas agravavam ainda mais o cenário, levantando preocupações entre frequentadores.

Para muitos utentes, a situação coloca em causa as condições de higiene e saúde pública no interior do jardim, sobretudo por existir receio de proliferação de mosquitos e outras pragas em zonas onde a água permanece estagnada.

O caso reacendeu, igualmente, o debate sobre a preservação dos espaços verdes na cidade de Maputo, com destaque para o Jardim Tunduru, frequentemente descrito como o “pulmão” da capital e um dos locais mais procurados por estudantes, turistas e trabalhadores que procuram um ambiente de lazer, descanso ou leitura no centro da cidade.

Confrontado com o cenário apresentado na reportagem, o Conselho Municipal da Cidade de Maputo explicou, esta quinta-feira, que a situação resulta, por um lado, do comportamento inadequado de alguns utentes e, por outro, do impacto das chuvas intensas registadas nas últimas semanas.

O porta-voz da Empresa Municipal de Infra-Estruturas de Maputo (EMIM), Finiasse Michaque, reconheceu que houve um período menos favorável no que diz respeito à manutenção do espaço, sobretudo devido às prioridades impostas pela época chuvosa.

“Relativamente à limpeza, nós tivemos um período não muito bom. Depois das chuvas que aconteceram houve muito capim na cidade de Maputo. Diria que nos distraímos com prioridades da via pública, porque o capim estava muito alto em quase toda a cidade”, explicou.

Segundo o responsável, nesse período as equipas municipais foram mobilizadas principalmente para trabalhos de limpeza e corte de vegetação em vias públicas e outros espaços urbanos.

“Então, a nossa prioridade foi cortar o capim e fazer limpeza na via pública e nos jardins de fora. Acabamos deixando, de certa forma, o Jardim Tunduru para trás”, acrescentou.

Apesar disso, a edilidade garante que as actividades de manutenção já foram retomadas e que está em curso uma operação de limpeza mais intensa no interior do jardim.

Com carácter de urgência, o município afirma ter mobilizado equipas para devolver dignidade ao espaço, envolvendo cerca de dez trabalhadores que realizam diariamente trabalhos de limpeza e manutenção no interior do recinto.

Além da limpeza, a edilidade aponta o comportamento de alguns frequentadores como um dos factores que contribuem para a degradação do espaço, sobretudo no que diz respeito ao lixo espalhado.

“Tem duas vertentes. A primeira é que os munícipes nem todos colaboram. Temos caixotes de lixo, mas nem todos deitam os plásticos ou as embalagens dentro dos caixotes para fazermos a remoção.Tem muitos corvos aqui, exactamente por causa dos restos de comida. Eles procuram isso e vão aos caixotes que não têm tampas, retiram as embalagens para procurar comida e acaba ficando tudo espalhado”, explicou Michaque.

Outro factor mencionado pela edilidade é a presença de catadores informais que procuram material reciclável nos recipientes de lixo.

“Há também pessoas que procuram lixo reciclado. Retiram as garrafas ou outros materiais dos caixotes e, muitas vezes, não têm o cuidado de voltar a colocar o que ficou espalhado”, disse.

Entre os problemas relatados pelos frequentadores está também o cheiro intenso de urina em determinadas zonas do jardim, situação que, segundo o Conselho Municipal, resulta igualmente de comportamentos inadequados. “Infelizmente, fiquei também chocado quando percebi que temos essa situação. É um ponto apenas, mas não deixa de ser preocupante. Isto é comportamento humano”, afirmou o porta-voz da EMIM.

O responsável recorda que o Jardim Tunduru possui sanitários públicos disponíveis para os utentes. “Nós temos sanitários públicos dentro do jardim. A pessoa não precisa sair para encontrar um sanitário, mas algumas preferem esconder-se no meio do caniço para fazer as suas necessidades”, lamentou.

Face à situação, a edilidade garante que a Polícia Municipal já foi alertada para intensificar a fiscalização no interior do espaço, com vista a desencorajar este tipo de práticas. “A polícia está a trabalhar no sentido de sensibilizar as pessoas e também de reforçar a vigilância para evitar que esta situação continue”, explicou.

Outro aspecto que chamou atenção, foi a presença de águas paradas em alguns pontos do jardim, situação que levantou receios de possíveis riscos sanitários. Segundo o Conselho Municipal, o problema esteve relacionado com a ruptura de uma tubagem no sistema interno do espaço.

“Em relação às águas paradas, tivemos sim esta situação porque tínhamos um tubo rompido, mas os canalizadores estão a trabalhar no sentido de substituir a tubagem”, explicou Michaque.

De acordo com o responsável, os trabalhos de reparação já estão em curso e a situação encontra-se em fase de resolução. “Neste momento já não temos aquela situação de águas paradas. Estamos a resolver o problema de canalização e acreditamos que dentro de cerca de um mês já não teremos obras naquele local”, afirmou.

O Conselho Municipal reconhece ainda que a percepção de abandono em algumas zonas do jardim pode ter sido influenciada pela presença dessas águas estagnadas, que dificultavam os trabalhos de limpeza. “Houve essa percepção porque a parte que estava mais afectada era a zona de baixo, onde estavam acumuladas águas. Aquilo acabou dando um cenário de abandono, mas não significa que o jardim estivesse abandonado”, esclareceu.

Apesar das críticas, a edilidade garante que as actividades de limpeza e manutenção fazem parte de um processo rotineiro e que o objectivo é assegurar que todo o espaço esteja em condições adequadas para os utentes.

Sem avançar uma data exacta para a conclusão de todos os trabalhos em curso, o município estima que o problema relacionado com a tubagem e eventuais obras civis esteja resolvido dentro de aproximadamente um mês.

Enquanto isso, a edilidade promete reforçar as acções de sensibilização e fiscalização para garantir o cumprimento das regras de utilização do espaço verde. “Esta situação de lixo espalhado ou urina no caniçal não é o Conselho Municipal que está a fazer. É importante que os utentes percebam que este espaço é um património público e que todos somos chamados a preservá-lo. O Jardim Tunduru é um pulmão da cidade de Maputo que responde ambientalmente não só à cidade, mas também às zonas à volta. É importante que as pessoas tenham consciência de que precisam preservar este espaço”, afirmou.

E deixou um apelo directo aos frequentadores: “Se a pessoa conseguiu chegar, sentar e encontrar o espaço limpo, significa que alguém cuidou dele. O mínimo que pode fazer é deixar o local limpo para o próximo utente.”

Partilhe

RELACIONADAS

+ LIDAS

Siga nos