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Chapo encerra visita à China com novos acordos e discurso de “autonomia económica”

O Presidente da República, Daniel Chapo, concluiu, na quarta-feira, em Pequim, a sua visita de Estado à República Popular da China, tendo-a considerado, em balanço, marcada por “êxito” e pelo reforço substancial da cooperação bilateral, traduzido na assinatura de mais de duas dezenas de instrumentos jurídicos entre os dois países.

A deslocação, centrada no aprofundamento da parceria estratégica global, foi caracterizada por uma agenda diplomática e económica, com destaque para encontros de alto nível e a formalização de acordos em sectores estruturantes, considerados pelo Chefe de Estado essenciais para impulsionar o desenvolvimento de Moçambique.

No balanço final da visita, Daniel Chapo sublinhou o impacto das decisões tomadas durante a estadia, destacando o envolvimento directo das lideranças chinesas e o ambiente de cooperação registado. 

“Termina hoje a nossa visita de Estado à República Popular da China e fazêmo-lo com grande satisfação pelo êxito que caracterizou cada actividade desde o primeiro dia do nosso trabalho na China”, afirmou Daniel Chapo.

O Chefe de Estado reforçou ainda o agradecimento às autoridades chinesas pela recepção e pelo ambiente diplomático. “Gostaria de reiterar, em nome do povo moçambicano e em nome pessoal, os nossos sinceros agradecimentos à Sua Excelência o Presidente Xi Jinping, ao povo e ao Governo da China, pela calorosa recepção e hospitalidade exemplar e pelo espírito de amizade que marcaram todos os momentos desta nossa visita de Estado”, declarou.

Durante a visita, Daniel Chapo reuniu-se com o Presidente chinês Xi Jinping, com o Primeiro-ministro Li Qiang e outras altas entidades do Estado chinês, incluindo autoridades provinciais. Os encontros permitiram uma revisão do estado da cooperação bilateral e a definição de novas áreas de expansão económica e institucional.

Segundo o Presidente da República, as relações entre os dois países entram, agora, numa fase mais profunda de cooperação. “Assinámos instrumentos de cooperação que vão dinamizar e aprofundar a relação entre os nossos povos”, afirmou Chapo, acrescentando que a parceria contribui para “consolidar o caminho rumo à independência económica”.

A nova vaga de acordos assinados entre Moçambique e a China deverá acelerar o processo de transformação económica do País, com enfoque na criação de bases mais sólidas para a autonomia económica nacional.

A avaliação foi feita após o encontro entre Daniel Chapo e Xi Jinping, no quadro da visita oficial que culminou com a formalização de vinte e três instrumentos de cooperação.

Os entendimentos abrangem sectores como infra-estruturas, energia, agricultura e economia digital, sendo interpretados como parte de uma estratégia de diversificação económica e modernização produtiva. O objectivo central passa por reduzir a dependência estrutural de sectores tradicionais e impulsionar novas áreas de crescimento.

Do lado chinês, o Presidente Xi Jinping destacou a complementaridade económica entre os dois países e apontou novas oportunidades de investimento conjunto, num quadro de reforço da cooperação bilateral. “A China está pronta para reforçar o alinhamento das estratégias de desenvolvimento com Moçambique e promover uma cooperação de alta qualidade”, afirmou Xi Jinping, sublinhando o compromisso de Pequim com o aprofundamento das relações económicas.

O líder chinês anunciou ainda medidas de facilitação comercial, incluindo a introdução de tarifas zero para produtos africanos no mercado chinês, uma decisão que poderá abrir novas oportunidades para as exportações moçambicanas e reforçar o equilíbrio das trocas comerciais.

A visita de Estado insere-se numa tendência crescente de reposicionamento da política externa moçambicana, com maior enfoque na diplomacia económica e na captação de investimento produtivo. 

Segundo os dois países, o relacionamento foi elevado ao nível de “comunidade com futuro partilhado na nova era”, sinalizando uma fase mais avançada da cooperação política, económica e social, com maior alinhamento estratégico entre Maputo e Pequim.

Este novo enquadramento inclui também o reforço da coordenação em fóruns internacionais, com defesa do multilateralismo e maior articulação entre países do Sul Global, numa lógica de cooperação mais horizontal e menos dependente dos centros tradicionais de poder económico.

Para o reforço  do plano de modernização do corredor da Beira e expansão logística, os acordos assinados com a China incluem um memorando de entendimento com duas empresas chinesas, nomeadamente a Zhongmei Engineering Group e a Union Portlink Capital, para a viabilização dos projectos de construção da estrada de acesso do Porto da Beira e do Terminal Logístico de Dondo.

Segundo o ministro dos Transportes e Logística, João Matlombe, este acto revela que o corredor da Beira faz parte das prioridades do Governo e deve maximizar o potencial que a zona possui, para desenvolver economia, bem como melhorar o atendimento dos países vizinhos, nomeadamente Zimbabwe, Zâmbia e Malawi, que dependem daquela infra-estrutura. “Esta é uma forma de dar uma grande contribuição para que a cidade possa funcionar de forma normal. Tem sido essa a nossa preocupação, como Governo, e temos trabalhado com o Conselho Municipal da Beira, sobretudo por causa dos serviços e das infra-estruturas que vão ser afectadas no âmbito da construção da nova estrada de acesso ao porto”, diz Matlombe.

O governante aponta que uma das principais intervenções em preparação diz respeito à construção de uma estrada de acesso ao futuro porto seco da região, que incluirá um viaduto para atravessar a Estrada Nacional Nº 6 (EN6), evitando interferências no fluxo normal de tráfego.

A EN6, considerada uma das principais artérias logísticas do País, liga a fronteira de Machipanda ao Porto da Beira, desempenhando um papel central no escoamento de mercadorias para o interland e países vizinhos. No entanto, segundo o governante, o actual nível de funcionamento da via é preocupante. “O nível de desempenho da EN6, no geral, desde a fronteira de Machipanda até ao Porto da Beira, é péssimo. Temos longas filas, tanto na fronteira como no Porto da Beira, e para garantir essa eficiência é preciso intervir nas infra-estruturas, e é o que estamos a fazer”, afirmou Matlombe.

A construção do acesso ao porto seco com viaduto é apresentada como uma solução técnica para melhorar a circulação de cargas, reduzindo os actuais pontos de congestionamento que afectam directamente o desempenho logístico da região.

O ministro explicou ainda que o plano de intervenção está estruturado em fases, sendo que a segunda etapa prevê obras no interior do Porto da Beira, sob responsabilidade da empresa Portos e Caminhos de Ferro de Moçambique (CFM). O objectivo é reforçar a capacidade operacional do terminal de combustíveis e melhorar a eficiência global do porto.

Paralelamente, o Governo está a trabalhar em coordenação com a Companhia do Pipeline Moçambique-Zimbabwe (CPMZ), com vista à duplicação da capacidade do gasoduto que liga Moçambique ao Zimbabwe. Esta infra-estrutura é considerada estratégica para o transporte de combustíveis e para o reforço da posição do País como plataforma logística regional.

“Ao longo deste ano, vamos anunciar o início das obras. Assim, poderemos maximizar o potencial existente e aumentar a contribuição económica para o nosso país”, garantiu Matlombe, sublinhando que o objectivo é transformar o corredor num eixo logístico mais competitivo e eficiente.

O governante reconheceu ainda os desafios existentes ao nível dos terminais de carga e contentores, referindo que o Executivo está a trabalhar com diversos parceiros para optimizar o funcionamento da cadeia logística. “Estamos cientes dos desafios que temos ao nível dos terminais de carga e de contentores e estamos a fazer um trabalho com todos os parceiros envolvidos, por forma a ver como é que podemos maximizar isso”, afirmou.

No quadro das soluções em análise, o ministro dos Transportes destacou a necessidade de reduzir os tempos de espera actualmente registados. “É o que estamos a tentar estimular ao nível do Porto da Beira, pois acreditamos que é possível atender à demanda, reduzir o tempo de espera, que, neste momento, no terminal de cargas, chega a ser acima de 60 dias, e nos combustíveis são cerca de 90 dias”, concluiu o ministro.

Matlombe referiu ainda que a experiência internacional observada recentemente pela delegação moçambicana na China trouxe lições relevantes para o sector. Durante a visita, foi observado um canal com cerca de seis metros de profundidade, capaz de movimentar mais de 20 milhões de toneladas por ano, resultado de elevados níveis de eficiência operacional e investimento contínuo na cadeia logística. 

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