Chalambe, um bairro pitoresco na cidade de Inhambane, que é também cenário de um drama humano profundo que se repete ano após ano. As águas do mar, implacáveis e indiferentes, invadem as casas, arrastam pertences e deixam atrás de si um rasto de desespero. A cada inundação, a comunidade de Chalambe enfrenta um teste de resiliência, vivendo numa batalha constante para proteger o pouco que possuem.
A situação em Chalambe já não é novidade. A localização do bairro, próxima à costa, torna-o extremamente vulnerável ao avanço das águas do mar, particularmente durante a época das marés altas. Este fenómeno, intensificado pelas mudanças climáticas, transformou a vida de centenas de famílias num ciclo de perdas e reconstruções. Apesar disso, as histórias que emergem deste bairro são um testemunho da força e coragem de quem enfrenta o poder implacável do oceano.
Amélia Saiwane, uma das residentes mais antigas, descreve o sofrimento causado pelas constantes enchentes:
“Sempre que o mar sobe, as nossas casas ficam debaixo de água. Tudo molha, desde móveis a roupas, e, mesmo assim, continuamos a viver aqui. É o nosso lar, mas o custo emocional é muito alto.”
No último domingo, Lita Langa foi acordada pela água a invadir o seu quintal.
“Quando dormi a meia noite, estava tudo bem, mas por volta das duas da madrugada, o que eu vi foi assustador. A água já estava no meu quintal e quando percebi, já não havia nada que pudesse fazer, se não ficar acordada a assistir tudo.”
Esta não é apenas uma questão de prejuízos materiais. O impacto psicológico de viver sob a ameaça constante das inundações pesa muito sobre os moradores, especialmente nas crianças, que crescem num ambiente de insegurança e instabilidade.
Embora previsíveis, as enchentes continuam a apanhar os moradores desprevenidos. António José, que vive em Chalambe há mais de 15 anos, aprendeu a lidar com a situação de forma arriscada.
“Quando a água sobe, tenho de atravessá-la com o carro para chegar a casa. Sei que isso está a estragar o veículo, mas não há outra maneira. É um risco que sou obrigado a correr.”
Alguns moradores tentam construir barreiras improvisadas com sacos de areia, na esperança de conter a força das águas. No entanto, estes esforços são insuficientes, pois a força das marés é avassaladora e as estruturas caseiras rapidamente cedem, deixando as casas vulneráveis.
Além disso, a água do mar traz consigo problemas adicionais. Ao invadir as ruas e quintais, mistura-se com lixo e esgoto, criando um cenário insalubre e perigoso. Atravessar aquelas águas significa expor-se a doenças e infecções, aumentando ainda mais a carga de sofrimento das famílias.
Chalambe tem um histórico de vulnerabilidade às inundações. Em 2021, as autoridades realojaram cerca de 80 famílias para áreas mais seguras, numa tentativa de mitigar o impacto das enchentes. Contudo, esta solução temporária não abrangeu todos os moradores, muitos dos quais permanecem no bairro, enfrentando as mesmas dificuldades.
As causas do problema são tanto naturais quanto humanas, pois a proximidade ao nível do mar e as marés altas fazem parte da realidade geográfica de Chalambe. Mas a falta de infraestruturas adequadas de drenagem e a ocupação desordenada do território agravam significativamente a situação. As mudanças climáticas, que aumentam a frequência e intensidade de fenómenos como tempestades e marés altas, só vieram intensificar este desafio.
Os impactos das enchentes vão muito além da perda de bens materiais, pois As famílias enfrentam uma série de consequências devastadoras, desde o constante recomeço após cada inundação que afeta os rendimentos das famílias, muitas vezes já limitados, aliado a exposição a águas contaminadas que aumenta os casos de doenças como diarreia e infecções de pele.
Além disso, os esforços de assistência por parte das autoridades têm sido insuficientes, com os moradores a reclamarem a ausência de medidas estruturais que possam oferecer uma solução duradoura para o problema.
A situação em Chalambe exige mais do que medidas paliativas. É necessário um plano abrangente e sustentável que aborde as causas do problema e minimize os seus efeitos, que passam pela construção de sistemas eficazes para escoar a água que poderiam reduzir significativamente o impacto das inundações, a proibição de construções em zonas de risco e promoção o realojamento de famílias em áreas seguras.
Outro factor passa por ensinar práticas de construção resilientes e sensibilizar para os riscos das inundações, criação de barreiras naturais, como mangais, que podem ajudar a proteger a costa contra o avanço das águas.
Apesar de tudo, os moradores de Chalambe continuam a demonstrar uma resiliência notável. Cada enchente é enfrentada com coragem e determinação, mesmo que as soluções pareçam distantes. Mas esta resiliência não deve ser vista como uma justificativa para a inação. Pelo contrário, deve servir como um lembrete de que aquelas famílias merecem uma vida digna e segura.
Chalambe é um microcosmo dos desafios enfrentados por muitas comunidades costeiras em Moçambique e em todo o mundo. A sua história não deve ser ignorada, mas sim encarada como um apelo urgente à ação. A cada maré alta, os sonhos de uma vida melhor são arrastados pela força das águas.