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Carta póstuma ao meu Irmão José Sixpence

Meu querido irmão José Sixpence,

Escrevo estas palavras com o coração apertado, ainda sem conseguir compreender como a vida pode ser tão breve e, ao mesmo tempo, tão profunda.

Na sexta-feira (05/06/2026) estive contigo no teu local de trabalho, numa ocasião especial. Estavas feliz. Estavas animado. Celebravas aquele momento como se fosse teu. Aliás, eras assim: genuíno, verdadeiro, simples, amoroso e extraordinariamente humano.

Enquanto muitos vivem procurando defeitos, diminuindo os outros ou amargando-se com as vitórias alheias, tu escolheste outro caminho. Escolheste celebrar os teus, espalhar alegria e amar.

Quando a ocasião terminou, pediste-me a palavra. Quiseste deixar dois conselhos. Falaste com a serenidade de quem deseja genuinamente o bem dos outros. E, no final, disseste:“Faço questão de registar este momento. Irmão, estou muito feliz. Tenha sucesso. Tenho certeza que será bem-sucedido porque o teu sucesso é nosso e acima de tudo vai beneficiar o país.

Hoje essas palavras ecoam dentro de mim de uma forma diferente.Tirámos uma fotografia. Despedimo-nos. E eu disse-te:“Para a semana falamos. Eu, tu e o José Luís vamos sentar para conversar.”

Mal sabia eu que aquela seria a nossa última conversa presencial. Às 13h58 enviaste-me as fotografias da ocasião e uma mensagem. Curiosamente, não enviaste a fotografia que tirámos juntos. Respondi agradecendo. E a tua última mensagem para mim foi simples, como era simples o teu coração:“Disponha, irmão.”

Não imaginava que essas seriam as últimas palavras que receberia de ti. No sábado, às 17h59, recebi a chamada do Mano Nhacota Jr., nosso colega e amigo comum. A notícia caiu sobre mim como uma tempestade inesperada:“O José Sixpence partiu para a glória.”

Naquele instante vieram-me à memória as palavras da minha mãe:“meu filho, a vida é efémera. Não faças mal a ninguém. Na tua peregrinação terrena deixa um legado.” E tu deixaste, meu irmão.

Deixaste um legado de bondade, simplicidade, amizade sincera. Deixaste um legado de alguém que encontrava felicidade no sucesso dos outros. Só é assim quem tem valores nobres. Eras um homem que se batia por valores numa sociedade em que combatem-se cidadãos que se batem por valores nobres.

Há uma lição poderosa que a tua vida nos deixa. 

Vivemos numa sociedade onde muitos esperam pela morte para falar bem dos outros. Esperam pelo silêncio do túmulo para reconhecer méritos. Esperam pelo funeral para exaltar qualidades. Esperam que alguém parta para então lhe colocarem coroas, quando em vida foram incapazes de lhe oferecer uma palavra de encorajamento, um gesto de reconhecimento ou um abraço de gratidão.

Tu eras diferente.

Escolheste celebrar os vivos em vida, reconhecer os méritos das pessoas quando elas ainda podiam ouvir, incentivar quando muitos preferiam criticar e construir quando muitos escolhiam destruir.

Hoje essas palavras ganham um significado ainda maior porque foram palavras de um homem que nunca teve medo de reconhecer o valor dos outros.

De um homem que compreendeu que as flores devem ser oferecidas em vida, os elogios devem ser feitos em vida, a amizade deve ser demonstrada em vida e o amor deve ser praticado em vida.

Sinto pena daqueles que passam pela vida incapazes de celebrar as conquistas dos outros, consumidos pela inveja, pela crítica fácil e pela amargura. Pessoas que encontram defeitos em tudo e em todos, mas que raramente encontram motivos para agradecer, reconhecer ou encorajar.

Tu eras o contrário disso. Eras amor em forma de gente, simplicidade em forma de gente, fraternidade em forma de gente.

Tu eras daqueles seres humanos raros que iluminam os lugares por onde passam sem fazer barulho, sem procurar protagonismo e sem esperar recompensa. Pudera esta sociedade ter muitos José Sixpence.

Pudera os nossos jovens aprenderem contigo que o verdadeiro sucesso não está apenas naquilo que conquistamos para nós, mas sobretudo na capacidade de nos alegrarmos genuinamente com as conquistas dos outros.

Hoje choramos a tua partida, mas celebramos a tua vida porque há pessoas que, mesmo partindo, permanecem vivas nos valores que transmitiram, nos afectos que construíram e nas marcas que deixaram nos corações daqueles que tiveram o privilégio de as conhecer.

E como nos ensina a Palavra de Deus: “Irmãos, não queremos que sejais ignorantes acerca dos que já dormem, para que não vos entristeçais como os demais que não têm esperança.” (1 Tessalonicenses 4:13)

Não tenhamos ilusão quanto aos que dormem. Para aqueles que viveram fazendo o bem, amando o próximo e espalhando luz à sua volta, a morte não é o fim. É apenas a passagem para a eternidade prometida por Deus.

Vai em paz, meu irmão José Sixpence. Obrigado pela amizade, pelos conselhos, pela autenticidade e por nos teres ensinado, através do exemplo, a celebrar os vivos em vida.

A tua memória permanecerá viva entre nós.

 

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