Caiu de uma varanda em 2002, sua mandíbula deixou de movimentar-se e a boca ficou fechada por 23 anos. Não comia coisas sólidas e não falava. Graças aos “anjos brancos” voltou a falar
Calado Hermínio Júlio Lino, 30 anos, falava normalmente até 2002 quando sofreu um acidente que mudaria por completo a sua vida.
“Caí de uma varanda em 2002, dali, fiquei dois dias sem conseguir abrir a boca”, explicou Calado em entrevista que aconteceu nos corredores do Hospital Central de Nampula onde está internado, sozinho, desde Outubro do ano passado.
O que parecia uma simples consequência da queda tornar-se-ia no mais longo silêncio daquele jovem natural do distrito de Mecula, província do Niassa. “Ficava assim mesmo, calmo. Nem para alimentar-se, falar (…)”.
Foram mais de duas décadas sem conseguir abrir a boca porque a mandíbula perdeu os movimentos, impossibilitando o abrir e fechar da boca. Com efeito, não tinha como alimentar-se de comidas sólidas, por isso sobreviveu de coisas líquidas.
A sua condição social lhe valeu discriminação e isolamento. A sua família já havia perdido esperança até ao dia em que uma associação de pendor religioso decidiu criar condições para Calado viajar para uma consulta no Hospital Central de Nampula.
“Calado é um doente que foi internado na nossa enfermaria em Outubro e chegou aqui com uma condição de saúde muito rara e complexa. Não conseguia abrir a boca nem um milímetro. Era uma limitação de abertura da boca severa. Não conseguia abrir a boca e nem movimentar a mandíbula para a frente nem para os lados”, precisou Alexeis Alarcon Amita, médico cirurgião maxilo-facial de nacionalidade cubana que liderou a equipa que cuidou de Calado desde o primeiro momento.
Depois de várias consultas para estudar o problema, os médicos entraram em acção para uma cirurgia complexa. “Conseguimos abrir e tirar aquele bloco de consolidação que tinha ali desde 2002. A cirurgia foi feita com sucesso”.
De Outubro a esta parte, o paciente faz regularmente um exercício de abrir e fechar a boca para treinar as articulações da mandíbula. Um caso raro, com final feliz, que entra no currículo dos profissionais de saúde que recuperaram a fala do jovem Calado.
“Foi o primeiro caso que nos apareceu com este historial de trauma e anquilose”, reconheceu Sabina Nemane, médica dentista.
Dentro de dias, Calado voltará a Mecula a falar e já se advinha a recepção apoteótica.