Diz a lógica da terra que se semeia o grão para colher o sustento. Mas, nas margens do sul de Moçambique, a gramática da sobrevivência é outra. Alguns semeiam bombas de perfuração para colher o lucro dos forasteiros; outros semeiam a surdez para colher o enfraquecimento do pacto com a terra.
A Kuphaya Editora, no entanto, decidiu revolver o húmus da memória e semear lágrimas. Não aquelas que escorrem efêmeras pelo rosto, pois se assim fosse, seriam insuficientes para a sede da nossa história; a Kuphaya semeou “As Lágrimas do Rio Chilovecane”.
Construída a partir de microcontos, esta obra de Azael Moiana sintoniza a frequência de uma nação ao permitir-nos percorrer o povoado de Taninga que surge como berço de Nwahulwana, o solo que salvaguarda o equilíbrio entre a essência do povo e o que o tempo insiste em soterrar. Ao situar nesta região o tempo sagrado e o mecânico, Moiana lembra-nos que a terra também fala, e que ignorar a sua linguagem tem custos espirituais, históricos e humanos.
Ao despir a narrativa de adornos excessivos, o autor estabelece uma economia verbal que transfere parte do trabalho narrativo para o leitor, permitindo que a experiência da leitura se complete no campo da imaginação.
A força dessa contenção literária torna-se evidente quando o autor tensiona o silêncio da tradição com o ruído da modernidade extractiva. Em “Chamado da Terra”, a natureza desloca-se da função cenográfica para uma posição discursiva, por conseguinte, o Rio Chilovecane é descrito como quem guarda um «sigilo sombreado que teima em aparecer», aludindo que a memória da terra não pode ser permanentemente aprisionada.
A crise de Taninga, portanto, é apresentada como uma falha de leitura da própria realidade, uma vez que, enquanto a comunidade se deslumbra com a «instalação da nova bomba de perfuração», ignora o facto de que «só os tolos dormem enquanto a terra chora». Como observa Zacarias Nguenha em Costurar a Linguagem, “as cicatrizes da terra não são visíveis”, lembrando que há na natureza uma força que opera à revelia do olhar humano.
Nesta perspetiva, a personagem Mamadzala opera como o contraponto ético ao “progresso” financiado por forasteiros. Ao sentenciar que «o pacto está a enfraquecer», a anciã não so faz um aviso místico, bem como um diagnóstico político sobre a vulnerabilidade de uma nação que troca os seus alicerces espirituais pelo lucro imediato.
Azael Moiana combina frases curtas e pausadas com recursos como personificação, metáfora e anáfora, criando uma cadência próxima da oralidade ritualizada. Esse ritmo se manifesta, por exemplo, na fala de Mamadzala a Maphalele: «Há muito, antes do mundo ter estradas e telefones, Nwahulwana selou um acordo com nossos antepassados…». A construção da frase, lembra o modo como histórias são contadas oralmente, à volta da fogueira.
Um dos aspectos mais significativos reside no diálogo entre o texto e as fotografias que permeiam a obra. São frequentemente, rostos, paisagens, texturas da terra e da água, que mais do que ilustrar, conduzem o leitor a percorrer caminhos de Taninga, a sentir o choro do rio, o murmúrio das montanhas e o eco das histórias que habitam cada pedra e cada folha.
Enquanto o autor constrói uma cadência próxima da oralidade, o diálogo entre texto e imagem nem sempre atinge o mesmo equilíbrio. Em certos momentos, as fotografias reforçam literalmente o que o texto já diz, em vez de tensioná-lo ou contradizê-lo. A fotografia, quando apenas confirma o discurso verbal, perde parte do seu potencial crítico e torna-se quase ilustrativa . Além disso, a ausência de um critério claro de transição entre texto e imagem pode quebrar o ritmo da leitura, gerando interrupções que nem sempre acrescentam ressonância analítica.
Em consonância com isso, as personagens são construídas menos como sujeitos de conflito humano e mais como elementos estruturantes do enredo. Maphalele, por exemplo, raramente é atravessado por dilemas internos concretos. Desde o momento em que recebe o aviso de Mamadzala “O vento trouxe um recado… o pacto está a enfraquecer” ele escuta, aceita e prossegue.
A sua jornada configura-se menos como um percurso de tensão e dúvida e mais como uma confirmação de um destino previamente inscrito. Essa escolha enfraquece o impacto dramático e restringe a empatia do leitor, que tem acesso limitado aos seus medos, desejos ou contradições quotidianas.
Trata-se de uma opção estética coerente com o horizonte ritual da obra, que, no entanto, implica uma certa rigidez narrativa, na medida em que as personagens tendem a servir ao mito, e não o mito a emergir da experiência das personagens.
Contudo, a força de As Lágrimas do Rio Chilovecane transcende essa rigidez, prolongando-se para além do seu próprio desfecho, permanecendo como um sedimento premente na consciência do leitor. Tal como insinua o título, o rio chora, e nessas lágrimas repousam ecos que perduram à erosão do tempo. Ler esta obra é, portanto, um exercício de escavação em que no ritmo das perfurações, irradia-se uma terra que lembra como o futuro de uma nação só é fértil quando suas raízes bebem da água da própria memória.

