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As contas do oxigénio que mantêm a chama da vida acesa

O “O País” traz as contas por detrás dos milhares de pacientes que superaram dias de internamento e venceram a COVID-19. Para salvar vidas, de Janeiro a esta parte, o Estado já gastou mais de 80 milhões de meticais em compra de oxigénio medicinal. Apesar do tratamento ser gratuito, um paciente em estado grave chega a gastar cerca de 200 mil meticais em consumo de oxigénio em apenas 15 dias.

Um elemento abundante e que justifica a nossa presença na terra – o oxigênio. Graças a este elemento, conseguimos respirar e cumprir as nossas tarefas diárias…E por ser tão abundante e gratuito, são muitos os que pontapeiam as medidas de prevenção contra a COVID-19, esquecendo que um exercício tão simples quanto respirar pode tornar-se tão difícil.

Quando invade o corpo humano, o vírus ataca os pulmões, causando insuficiência respiratória, fazendo com que o paciente precise de meios alternativos para respirar e se manter vivo. Entretanto, esses meios alternativos têm custos, um deles tem a ver com a compra de oxigênio medicinal.

Antes da eclosão da COVID-19, o país contava com apenas quatro tanques grandes para depósito de oxigénio, sendo dois no Hospital Central de Maputo, um no Hospital Provincial de Chimoio e outro no Hospital Central de Quelimane. Mas, com o aumento de internamentos pela doença, foram montados dois, no Hospital da Polana Caniço, e dois, no hospital de Mavalane, o que custou ao Estado 22 milhões de meticais. Esse valor é apenas referente à montagem de toda a canalização nos dois centros de saúde, sendo que os tanques são cedidos pela empresa fornecedora do oxigénio. Mais do que os custos de montagem, há gastos mensais referentes ao abastecimento do oxigénio nos hospitais.

“Antes da doença, gastávamos aproximadamente 12 milhões de meticais por mês, e agora com a COVID-19, gastamos em média 29 milhões de meticais mensais. No caso da Polana Caniço, em todo o ano de 2020, gastámos cerca de 47 mil metros cúbicos de oxigénio, mas só no mês de Janeiro, em que houve registo de muitos casos de pacientes internados gastou-se 48 mil metros cúbicos, isto é, em um mês gastou-se mais do que se consumiu em um ano”, revelou António Hassane, Director Nacional da Central de Medicamentos.

Segundo dados do Ministério da Saúde, um paciente, em estado grave, e que precise de alto fluxo de oxigénio pode gastar até 200 mil meticais em apenas 15 dias de internamento.

Uma botija de 8 metros cúbicos, com oxigénio enchido, custa ao Estado 15 mil meticais. Antes da pandemia, o país contava com um pouco mais de duas mil botijas, mas, devido à pressão imposta pela COVID-19, houve necessidade de se adquirir mais 590 botijas. “O custo do oxigénio por metro cúbico depende de região para região, tomando em conta os custos de transporte. Na região de Maputo, por exemplo, um metro cúbito custa 138 meticais e para encher uma botija de 8 metros cúbicos são necessários 1 104 meticais”, explicou o dirigente que também fez saber que um paciente internado em estado grave chega a consumir 12 botijas de 8 metros cúbicos em apenas 24 horas, o que quer dizer que, por cada dia de internamento, o paciente pode gastar mais de 13 mil meticais só de consumo de oxigénio.

MISAU DESACONSELHA USO CASEIRO DE OXIGÉNIO PARA PACIENTES COM COVID-19

Face às informações segundo as quais há pacientes com COVID-19 que fazem tratamento caseiro e que usam botijas de oxigénio, o Ministério da Saúde desaconselha tais procedimentos que podem ser fatais. “Temos informação de que há muitos pacientes a comprar botijas de oxigénio para tratar a COVID-19. É preciso que se saiba que os pacientes de COVID-19, além do oxigénio, necessitam de outro tipo de medicação. No maneio das botijas, tem uma parte complexa que é o da substituição do equipamento quando o conteúdo acaba. A pessoa deve ter uma chave para desmontar os manómetros e esse processo pode ser o que pode determinar a vida ou a morte da pessoa”, alertou Abubacar Sumalgy, Chefe de Departamento de Infra-estruturas no MISAU.

MAZIBUCO: UM HERÓI DESPONTADO PELA COVID-19

Além dos médicos, na luta para salvar vidas, há heróis anónimos…é o caso de Raimundo Mazibuco. Antes da COVID-19 estava afecto à Direcção de Saúde da Cidade de Maputo, mas, com o aumento de internamentos, foi alocado ao Hospital da Polana Caniço como técnico de manutenção. “Recebi esta missão com maior orgulho, porque sabia que são nesses momentos em que mostramos o nosso valor.”

Responsável por controlar e garantir a manutenção do sistema de fornecimento de oxigénio na Polana Caniço, Mazibuco já viveu momentos intensos naquele hospital. À nossa reportagem contou um episódio em que evitou uma tragédia. “Foi num dia como hoje em que recebi uma ligação a dizer que o oxigénio não chegava aos pacientes. Visto que vivo nas proximidades, destacaram uma ambulância para me buscar. Quando cheguei, todos os médicos estavam cá em baixo – os pacientes ficam internados numa estrutura com mais de um piso – preocupados. Rapidamente equipei e subi e vi que, de facto, algo não estava bem. Fui analisando a instalação e ouvi um gás a escapar. Rapidamente, arranjei uma borracha e fechei a fuga e o oxigénio começou a chegar a enfermaria e os médicos alegraram-se”, contou o técnico, para, depois revelar que “depois desse dia, os médicos começaram a respeitar-me mais e sinto-me mais valorizado”, destacou.

No seu dia-a-dia, Mazibuco entra nas enfermarias e vê o sofrimento vivido pelos pacientes com COVID-19, e por isso, deixou uma mensagem à sociedade. “Nunca oiça que a COVID-19 não existe, porque não gostaria de vos levar para presenciar o que se passa dentro das enfermarias. Esta doença existe e mata e oro todos os dias para que ninguém da minha família tenha esta doença”, concluiu.

Para garantir oxigénio em quantidade para os internados, o Ministério da Saúde pretende montar, ainda este ano, mais 10 tanques como aqueles nos principais hospitais provinciais do país.

Só de Janeiro a esta parte, o Estado já gastou mais de 80 milhões de meticais apenas na compra de oxigénio medicinal, o que seria suficiente para construir três centros de saúde tipo II, equipados com maternidade, seis camas e casas para funcionários.

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