Populares de quatro comunidades de Nguluzane, no distrito de Xai-Xai, província de Gaza, voltam a denunciar alegados esquemas de desvio e exclusão na distribuição de alimentos, envolvendo secretários dos bairros. A população diz que mais de 150 famílias carenciadas ficaram de fora entre Junho e Setembro. A administradora de Xai-Xai, Avelina Nhanzimo rejeita a existência de desvio de ajuda humanitária, mas admite má conduta de responsáveis locais e promete medidas caso as denúncias sejam comprovadas.
Populares de quatro comunidades de Nguluzane, no distrito de Xai-Xai, na província de Gaza, acusaram, esta segunda-feira, líderes locais de envolvimento em alegados esquemas de desvio de produtos alimentares destinados às populações carenciadas.
“A luta continua. Os líderes já não têm espaço nas suas casas devido à quantidade de produtos que recebem. São recipientes abarrotados. Nada lhes falta, enquanto a população morre de fome”, denuncia Lídia, residente de Chilaulene, em Nguluzane.
A denúncia é corroborada por Domingos Boca, líder em Nguluzane, que acusa responsáveis locais de beneficiarem de produtos alegadamente desviados.
“Toda a zona de Chilaulene sofre por causa disto. A comida foi desviada e, nos registos, houve roubo. Todos os dias há roubo aqui em Chilaulene. O camião foi desviado, os líderes sabem disso e beneficiaram-se”, afirma.
População de Nguluzane fala de exclusão
Segundo os residentes, a alegada irregularidade começa nas listas de beneficiários, onde secretários dos bairros terão incluído familiares e outras pessoas que, de acordo com a população, não residem nas comunidades abrangidas.
Sara, chefe de quarteirão em Nguluzane, descreve os produtos recebidos por algumas famílias.
“Receberam 25 quilos de arroz, 25 quilos de farinha, dois litros de óleo, feijão e três quilos de açúcar.”
Nora, residente do Bairro 3 de Nguluzane, questiona igualmente o processo de registo dos beneficiários.
“O registo é clandestino. Só vemos pessoas a receber alimentos.”
A população afirma que a alegada prática terá contribuído para a exclusão de mais de 100 famílias carenciadas nos últimos dois meses.
“A maioria da população não foi contemplada na distribuição”, diz Maria Jovete, residente do Bairro 3 de Nguluzane.
Governo de Xai-Xai admite irregularidades
Contactada pelo jornal O País, a administradora de Xai-Xai, Avelina Nhanzimo, rejeitou a existência de desvio de ajuda humanitária e explicou que a distribuição abrangia 620 famílias.
“E nos dias 16 e 17 houve a distribuição da comida, não houve confusão. São 620 famílias, cada família recebeu 25 quilos de arroz, recebeu 25 quilos de farinha, recebeu três quilos de feijão, três quilos de açúcar e dois litros de óleo, cada família. Lamentavelmente, tomamos conhecimento hoje, através de vozes e silêncios, que houve confusão.”
Apesar de afastar a hipótese de desvio de ajuda humanitária, Nhanzimo admite a possibilidade de má conduta por parte dos secretários dos bairros apontados pela população.
“Porque aqui não estamos a tratar de desvio, estamos a tratar de perceber que os chefes, os secretários dos bairros, não são tão honestos como nós podemos pensar. Como se comportam? Acabam beneficiando algumas pessoas que nem sequer deviam estar naquelas listas.”
A administradora diz que a situação deverá ser apurada para determinar quem recebeu os produtos e em que circunstâncias.
“O chefe da secretaria, com mais tempo, poderá apurar o que aconteceu, quem são as famílias que receberam, mas, no meio disso, para ver aquela insurgência por parte daquelas populações, alguma coisa aconteceu”, sublinhou.
Perante as denúncias, a população exige a intervenção das autoridades do Governo do distrito de Xai-Xai e o esclarecimento do processo de inscrição das famílias beneficiárias.
“Pedimos aos líderes que trabalham em conjunto que venham aqui para acabar com o esquema de fazer inscrições durante a noite. Afinal, onde irão comer aqueles que foram excluídos?”, questiona a população.
Assistência para 14 mil famílias continua incerta
Questionada sobre a dimensão das necessidades e a capacidade de resposta às populações de Nguluzane, Nhanzimo reconheceu limitações na assistência alimentar e apontou o Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD) como parceiro.
“Mas, como Governo, não podemos assumir que vamos conseguir. O INGD é o nosso parceiro, sim, está fazendo a sua parte, mas neste preciso momento também não garante esta assistência, porque fizemos há pouco tempo uma cobertura total do custo administrativo. Se não me falha a memória, foi no mês de Maio que fizemos a cobertura.”
Sem avançar uma data, a administradora de Xai-Xai garantiu que irá deslocar-se ao terreno para aferir a situação e prometeu medidas caso seja comprovado o envolvimento dos secretários dos bairros nas alegadas irregularidades.