Sete grupos armados etíopes formaram uma aliança com o objectivo de derrubar o Governo federal e facilitar a criação de um Governo de transição, anunciou este domingo um representante da Frente de Libertação do Povo Tigray (TPLF).
Segundo o vice-presidente da TPLF, Amanuel Assefa, a aliança reúne as forças tigrínias, as milícias nacionalistas Amhara Fano e o Exército de Libertação Oromo (OLA), entre outros quatro grupos armados. A liderança da coligação ficará a cargo de Zemene Kasse, dirigente do Fano.
“Acabamos de formar uma aliança. Estamos a colaborar com vários grupos e os nossos objectivos são derrubar o regime e facilitar a formação de um Governo de transição”, declarou Amanuel Assefa à agência AFP.
A formação da aliança ocorre num contexto de crescente tensão militar no norte da Etiópia. De acordo com a União Africana, o Governo federal e a TPLF têm concentrado tropas ao longo da fronteira da região do Tigray nos últimos meses, aumentando os receios de um possível regresso ao conflito que devastou a região entre 2020 e 2022 e provocou cerca de 600 mil mortes.
Amanuel Assefa afirmou que os grupos envolvidos mantêm contactos há mais de um ano e manifestou confiança na capacidade da nova aliança para alcançar os seus objectivos.
As autoridades federais etíopes ainda não tinham reagido publicamente ao anúncio até à publicação da informação.
DÚVIDAS SOBRE CAPACIDADE MILITAR
O especialista em assuntos regionais Kjetil Tronvoll, da Oslo New University College, na Noruega, questiona, contudo, a capacidade da aliança para derrubar o Governo federal, que dispõe de meios militares, incluindo drones. Segundo Tronvoll, uma coordenação efectiva entre os diferentes grupos poderia criar dificuldades às forças governamentais, ao obrigá-las a enfrentar várias frentes de combate em simultâneo.
O especialista alerta, porém, para as divergências ideológicas e territoriais entre os grupos, que poderão dificultar a governação no caso de uma eventual mudança de poder.
GRUPOS JÁ ESTIVERAM EM LADOS OPOSTOS
A Etiópia enfrenta há vários anos conflitos armados nas regiões de Oromia e Amhara, duas das áreas mais populosas do país. O OLA combate as forças federais desde 2018, na região de Oromia. O Governo etíope classificou o grupo como organização terrorista.
Já as milícias Fano, tradicionalmente associadas à autodefesa da comunidade Amhara, pegaram em armas contra o Governo em Abril de 2023, depois de as autoridades federais terem iniciado medidas para desarmá-las. A anunciada aliança reúne, assim, grupos que já estiveram em lados opostos. Durante a guerra do Tigray, as forças Fano combateram ao lado do Exército federal etíope contra a TPLF.
Persistem igualmente disputas territoriais entre as comunidades envolvidas. Um dos principais pontos de tensão é o Tigray Ocidental, território reivindicado tanto por amharas como por tigrínios e actualmente administrado por nacionalistas amharas. Apesar das divergências, Amanuel Assefa afirmou que as questões territoriais e políticas entre os grupos poderão ser resolvidas através do diálogo.
“Vamos sentar-nos à mesa mais tarde para resolver os nossos problemas pacificamente”, afirmou.