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O País – A verdade como notícia

Zambézia recebe o testemunho dos jogos escolares em 2028

A XVI edição do Festival Nacional dos Jogos Desportivos Escolares terminou, este domingo, em Inhambane, deixando uma responsabilidade que ultrapassa as medalhas conquistadas durante seis dias de competição: garantir que os talentos descobertos não desapareçam quando os estudantes regressarem às suas províncias. O Governo quer criar uma ligação mais efectiva entre escolas, clubes, federações e selecções nacionais, melhorar infra-estruturas e formar treinadores. No encerramento, foi igualmente anunciado que a caravana dos Jogos Escolares seguirá para a Zambézia, que acolherá a próxima edição, em 2028.

Durante seis dias, Inhambane deixou de ser apenas uma das principais referências turísticas de Moçambique para se transformar num enorme palco do desporto escolar. Jovens provenientes de diferentes pontos do país entraram nos campos, pistas e outros espaços de competição carregando as cores das suas províncias, procurando medalhas, afirmação e, em muitos casos, uma oportunidade para mostrar um talento que até aqui era conhecido apenas na escola, no distrito ou na comunidade onde vivem.

Houve vencedores, derrotados, lágrimas, celebrações e novos campeões. Houve também jovens que não chegaram ao pódio, mas que podem ter feito, em Inhambane, a competição capaz de mudar o rumo das suas carreiras. É precisamente por isso que o encerramento da XVI edição do Festival Nacional dos Jogos Desportivos Escolares colocou uma questão que vai muito além da classificação final: o que acontecerá, a partir de agora, aos talentos descobertos durante a competição?

Para o Governo, o fim dos Jogos não pode significar o fim do acompanhamento dos atletas. A orientação deixada no encerramento é para que os estudantes que demonstraram talento ou capacidades excepcionais continuem a ser observados quando regressarem às respectivas províncias e encontrem mecanismos que lhes permitam desenvolver aquilo que revelaram em Inhambane.

A Primeira-Ministra, Benvinda Levi, defendeu que o potencial identificado durante a competição deve ser acompanhado através de uma ligação mais forte entre escolas, clubes, federações e selecções nacionais. A intenção é construir um sistema capaz de identificar os talentos ainda na base e conduzi-los progressivamente para outros níveis da prática desportiva.

O desafio recupera uma das principais mensagens deixadas pelo Presidente da República, Daniel Chapo, quando abriu a competição. Na altura, o Chefe do Estado defendeu que as escolas devem funcionar como um verdadeiro viveiro de talentos e como uma ponte para que clubes e federações consigam encontrar jovens com potencial nas diferentes modalidades.

Se na abertura a prioridade foi descobrir, no encerramento o discurso mudou para aquilo que talvez seja mais difícil: não perder aquilo que foi descoberto.

Caifadine Manasse, Ministro da Juventude e Desporto, considera que é precisamente nas escolas, comunidades e outros espaços onde crianças e jovens começam a praticar desporto que deve nascer o futuro da alta competição em Moçambique. É aí que, segundo o governante, podem ser identificadas vocações e criadas as primeiras condições para que aqueles que demonstram maior capacidade prossigam o percurso.

“Não devemos olhar para estes Jogos apenas como uma competição que termina hoje. Devemos encará-los como uma etapa de um processo mais amplo de desenvolvimento do desporto escolar e de construção do futuro do desporto moçambicano”, defendeu Caifadine Manasse.

A dimensão desta responsabilidade torna-se maior quando o próprio Governo admite que entre os estudantes que competiram em Inhambane podem estar futuros representantes de Moçambique nas grandes competições nacionais, regionais, continentais e internacionais. Mas chegar a esses palcos dependerá de muito mais do que o talento revelado durante os Jogos.

Caifadine Manasse defende que esse potencial terá de ser acompanhado por trabalho, disciplina, formação académica e apoio institucional. Para o ministro, uma medalha conquistada enquanto estudante não deve ser vista como ponto de chegada, mas como uma indicação de capacidades que precisam de continuar a ser trabalhadas.

É justamente neste ponto que o Festival deixa de ser apenas uma competição e coloca à prova o próprio sistema de desenvolvimento do desporto nacional.

Um estudante pode destacar-se numa pista em Inhambane e, poucos dias depois, regressar a uma escola onde não dispõe das mesmas condições de treino. Pode revelar enorme capacidade no futebol e voltar para um distrito onde não existe um clube capaz de o acompanhar. Pode conquistar uma medalha e, terminado o festival, deixar de ter acesso regular a um treinador. É para evitar que situações desta natureza interrompam a evolução dos jovens que o Governo coloca agora responsabilidade também sobre as estruturas locais.

Benvinda Levi chamou municípios e distritos a preservarem espaços destinados à prática desportiva nas comunidades. Defendeu igualmente que sejam planificados recursos para a reabilitação e manutenção das infra-estruturas e que se aposte na formação de treinadores e agentes desportivos em todo o território nacional.

A mensagem significa que o legado de Inhambane 2026 não será medido apenas pelo número de medalhas distribuídas ou pela capacidade demonstrada durante a organização. Uma das avaliações mais importantes deverá ser feita mais tarde, quando for possível perceber quantos dos estudantes identificados conseguiram continuar a treinar e quantos encontraram uma estrutura que os conduzisse para clubes, federações e eventualmente selecções nacionais.

Mas o Governo deixou também uma condição aos jovens que começam a olhar para o desporto como possível profissão: nenhuma carreira deve ser construída à custa do abandono da escola.

Caifadine Manasse advertiu que educação e desporto devem caminhar juntos. Mesmo os jovens que demonstrarem capacidade excepcional e perspectivas de chegar à alta competição devem manter a formação académica. Na visão apresentada pelo ministro, o país precisa de atletas que consigam transformar talento em competência, mas também de cidadãos preparados para servir a sociedade.

Benvinda Levi reforçou a mesma orientação. A Primeira-Ministra defendeu que Moçambique deve procurar campeões nas pistas e nos campos, mas também jovens capazes de pensar, inovar e participar no desenvolvimento do país. Para o Governo, a verdadeira excelência deverá resultar da combinação entre competência desportiva, conhecimento, disciplina e carácter.

A inclusão foi outro dos legados que o Executivo procurou colocar em evidência no balanço dos seis dias de competição.

A participação de estudantes com deficiência foi apontada pela Primeira-Ministra como demonstração de que o princípio de inclusão, que integra o lema desta edição, deve ultrapassar o discurso e materializar-se no acesso efectivo à prática desportiva. O XVI Festival decorreu sob o lema “Desporto Escolar inclusivo, promovendo o patriotismo, o talento e a solidariedade”.

Para Benvinda Levi, uma escola verdadeiramente inclusiva deve reconhecer o potencial dos estudantes independentemente do género, condição social, origem geográfica ou deficiência. Rapazes e raparigas devem igualmente encontrar oportunidades para competir e desenvolver as suas capacidades.

A concretização desta visão volta, porém, à mesma questão estrutural que atravessou parte importante do discurso de encerramento: condições.

Não basta identificar um jovem com talento se não existir onde treinar. Não basta abrir uma competição a estudantes com deficiência se, depois do festival, as condições para a prática desportiva desaparecerem. Não basta descobrir capacidades excepcionais se treinadores, escolas, clubes e federações não tiverem mecanismos para continuar a desenvolvê-las.

É por isso que o Governo reiterou o compromisso de melhorar infra-estruturas, valorizar professores de Educação Física, aperfeiçoar treinadores e desenvolver mecanismos mais eficazes de acompanhamento dos talentos. Benvinda Levi reconheceu, contudo, que essa responsabilidade não pertence exclusivamente ao Executivo e chamou escolas, famílias, clubes, federações, sector privado, parceiros e os próprios jovens a participarem no processo.

O encerramento dos Jogos serviu também para colocar sobre a mesa problemas que aparentemente estão distantes dos resultados desportivos, mas que afectam directamente a vida e o futuro dos estudantes.

A Primeira-Ministra defendeu que a escola deve ser um lugar seguro e de realização dos sonhos das crianças e jovens e chamou os diferentes intervenientes do sistema educativo a prevenir e combater formas de violência que atingem os alunos.

Benvinda Levi apontou especificamente o assédio e abuso sexual no meio escolar e familiar, os casamentos prematuros e o consumo de álcool e drogas como problemas que devem merecer atenção. Alertou igualmente para a necessidade de prevenir o vandalismo e a destruição das infra-estruturas.

Ao dirigir-se directamente aos estudantes, a governante deixou uma das mensagens mais incisivas da cerimónia.

“O talento é um bem precioso. Protejam-no com estudo, carácter e valores. Não troquem a vossa dignidade por promessas fáceis. O sucesso verdadeiro constrói-se com trabalho, nunca com atalhos”, afirmou Benvinda Levi, desafiando os jovens a continuarem a estudar e treinar.

A mensagem acrescenta outra dimensão ao conceito de campeão que o Governo procurou defender ao longo do festival. Ganhar continua importante, mas a formação do jovem não pode terminar na capacidade de superar adversários dentro do campo.

Caifadine Manasse lembrou aos medalhados que a vitória deve ser recebida com orgulho, mas também com humildade e responsabilidade. Aos estudantes que não conseguiram alcançar os resultados pretendidos, deixou a indicação de que uma derrota não define o seu valor nem determina o seu futuro.

É uma leitura que ajuda a compreender outro resultado dos Jogos que não aparece no quadro de medalhas.

Durante seis dias, jovens de diferentes províncias partilharam espaços, competiram, conviveram e conheceram realidades diferentes das suas. Para Benvinda Levi, esta aproximação constituiu uma das principais conquistas do Festival porque contribuiu para consolidar a unidade nacional.

Os estudantes entraram nos campos representando as respectivas províncias, mas, fora da competição, conviveram como integrantes da mesma nação. Professores e treinadores tiveram também a oportunidade de transmitir princípios de ética, moral e fair play, enquanto os jovens reforçaram o sentimento de pertença ao país.

Caifadine Manasse considera que essa capacidade de aproximar jovens separados pela distância geográfica é uma das grandes forças do desporto. Em Inhambane, estudantes de diferentes pontos do país competiram uns contra os outros e, simultaneamente, construíram amizades e partilharam experiências.

Para uma província que teve de receber milhares de participantes, o desafio foi igualmente logístico e organizacional. No balanço do evento, o Governo considerou que Inhambane demonstrou capacidade para acolher uma competição de dimensão nacional.

A Primeira-Ministra destacou a hospitalidade das autoridades, comunidades e população e considerou que o legado da competição não se resume aos vencedores e às medalhas. Inclui estudantes que descobriram novas capacidades, professores que encontraram outras formas de motivar os jovens, treinadores que identificaram talentos e comunidades que viveram o desporto como espaço de união.

A organização em Inhambane chega ao fim, mas a história dos Jogos Escolares não termina aqui.

No encerramento, Benvinda Levi anunciou oficialmente que a província da Zambézia vai acolher a próxima edição do Festival Nacional dos Jogos Desportivos Escolares, em 2028. A província recebe, assim, o testemunho de Inhambane e o desafio de elevar os níveis de organização, participação, inclusão e valorização dos talentos da juventude.

Até lá, o maior desafio não estará na preparação da próxima cerimónia de abertura.

Estará nas escolas e comunidades para onde regressam os jovens que passaram por Inhambane. Estará na capacidade dos distritos e municípios de preservar espaços desportivos. Estará nos professores que terão de continuar a identificar capacidades, nos treinadores que precisarão de desenvolver os atletas, nos clubes e federações que deverão abrir portas e nas instituições que terão de garantir que um jovem não deixe de evoluir simplesmente porque nasceu longe dos grandes centros.

Os vencedores regressam com medalhas. Outros levam a experiência da derrota. Muitos carregam novas amizades e todos voltam às províncias depois de uma competição que lhes permitiu medir capacidades diante de estudantes de todo o país.

Alguns podem nunca voltar a disputar uma competição desta dimensão. Outros poderão estar apenas no início de um percurso que os levará aos principais palcos do desporto nacional e internacional.

É essa possibilidade que transforma o encerramento dos Jogos numa espécie de ponto de partida.

Inhambane descobriu talentos. Zambézia prepara-se para receber os próximos Jogos. Entre uma edição e outra, caberá agora ao país provar que consegue fazer algo ainda mais difícil do que encontrar jovens promissores: impedir que eles se percam pelo caminho.

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