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Jogos escolares: o primeiro passo para a alta competição

Cerca de 1.500 estudantes-atletas das 11 províncias do país estão em Inhambane para disputar a XVI edição do Festival Nacional dos Jogos Desportivos Escolares. Entre a pressão por resultados, os sonhos de chegar aos grandes palcos e a procura de novos talentos, os jogos transformam Inhambane e Maxixe numa montra do futuro do desporto nacional. O Governo garante que há olheiros no terreno e revela que parte dos atletas para os Jogos da Região 5, marcados para Dezembro, em Moçambique, poderá sair desta competição.

Para alguns, é apenas mais uma bola que entra em campo, uma corrida contra o cronómetro ou uma disputa entre duas equipas. Para os cerca de 1.500 estudantes-atletas que chegaram a Inhambane provenientes das 11 províncias do país, porém, estes dias podem significar muito mais. Entre eles há quem queira regressar a casa com uma medalha, quem procure colocar a sua província no lugar mais alto do pódio e quem olhe para estes Jogos Escolares como o primeiro grande palco de um sonho que pode terminar, um dia, numa selecção nacional ou mesmo nos Jogos Olímpicos.

É esta mistura de competição, ambição e descoberta de talentos que movimenta a XVI edição do Festival Nacional dos Jogos Desportivos Escolares. Este ano, a organização teve de montar a operação em duas cidades, Inhambane e Maxixe, onde estão distribuídas as seis modalidades em competição. A dimensão do evento impôs desafios que começaram muito antes de os atletas entrarem nos campos: foi necessário garantir alojamento, colchões, alimentação, transporte e condições para receber delegações provenientes de todo o país.

SAMARIA TOVELA: “A ALIMENTAÇÃO ESTÁ GARANTIDA”

Para a Ministra da Educação e Cultura, Samaria Tovela, a realização da competição em duas cidades representa uma operação logística exigente, mas as condições essenciais para receber os estudantes estão asseguradas.

A governante reconhece que, no arranque do festival, ainda decorria o reforço de algumas condições nos centros de alojamento, incluindo a disponibilização de colchões, mas garante que os estudantes estão instalados e que a alimentação foi uma das prioridades da organização.

“Estamos todos organizados. Os nossos meninos estão nos nossos centros de internamento e também nas nossas instituições. Equipámos e ainda estamos a completar o que falta em termos de colchões”, explicou Samaria Tovela.

Para a ministra, entretanto, a organização material é apenas uma parte da dimensão dos Jogos Escolares. O encontro de estudantes provenientes de todas as províncias representa também uma oportunidade de convivência e fortalecimento da unidade nacional.

“Acima de tudo, é a alegria que as nossas crianças têm. Este é um momento-chave para elas, essa unidade nacional”, afirmou, acrescentando que a alimentação dos participantes “está toda garantida” e que houve um investimento significativo para assegurar refeições em horários adequados.

Resolvido o desafio de receber e acomodar cerca de 1.500 participantes, começa aquele que, para os estudantes, é o verdadeiro teste: o que acontece dentro do campo.

MADALENA MATOS: GAZA QUER DEIXAR O NOME NA HISTÓRIA

Madalena Matos chegou de Gaza para competir no andebol. Como muitos dos estudantes que participam nesta edição, carrega consigo mais do que a responsabilidade individual. Quando entra em campo, diz representar a família, aqueles que acompanham a competição e a própria província.

O andebol é a modalidade que escolheu e é através dela que pretende afirmar-se nesta edição dos Jogos Escolares.

“Estando aqui hoje, a minha função como atleta é porque eu quero mesmo poder orgulhar a minha família, orgulhar aqueles que nos assistem e deixar o nome de Gaza na história”, afirma.

A ambição de Madalena resume parte do ambiente vivido entre as delegações. Para estes jovens, vencer significa representar uma escola e uma província, mas a competição oferece também uma oportunidade rara de serem observados fora dos lugares onde habitualmente treinam.

E alguns sonhos já ultrapassaram as fronteiras provinciais e nacionais.

IVAN ANTÓNIO SONHA COM OS JOGOS OLÍMPICOS

Ivan António pratica atletismo e representa a província de Maputo. O seu horizonte, porém, está muito para além de Inhambane.

Tem como referência Lurdes Mutola, o maior nome do atletismo moçambicano, e não esconde o tamanho da ambição: quer chegar aos Jogos Olímpicos representando Moçambique.

“O meu sonho também é ser o próximo moçambicano a representar Moçambique nas Olimpíadas no atletismo”, afirma.

Para Ivan, os Jogos Escolares representam, por isso, uma etapa de um percurso que espera levar muito mais longe. E é precisamente nesta idade que muitos dos sonhos que mais tarde chegam ao desporto de alta competição começam a ganhar forma.

Mas enquanto uns encontram nos Jogos Escolares um palco para mostrar aquilo que sabem fazer, outros continuam do lado de fora.

TAEKWONDO TAMBÉM QUER ENTRAR NA FESTA

O Taekwondo não integra as seis modalidades em disputa nesta edição. Ainda assim, os seus praticantes acompanham a competição com uma reivindicação: querem que a modalidade passe a fazer parte dos Jogos Escolares.

Evaristo Mabote, treinador de Taekwondo em Inhambane, sustenta que a expansão da modalidade pelo país e a existência de estudantes que já a praticam justificam a sua integração.

“Esperamos que nas próximas edições o Taekwondo possa fazer parte dos Jogos Escolares, porque a nível nacional já se pratica Taekwondo. Basta ver que em todas as províncias e em vários distritos há praticantes”, defende.

Segundo Mabote, existem atletas em escolas públicas e privadas que conciliam os estudos com a prática da modalidade, razão pela qual considera haver uma base para levar o Taekwondo à maior competição nacional do desporto escolar.

“Esperamos que um dia o Taekwondo possa fazer parte deste leque de modalidades dos Jogos Escolares”, acrescenta.

Enquanto algumas modalidades procuram espaço para entrar, nas que já estão em competição começa outra corrida: encontrar quem pode chegar mais longe.

FÉLIX QUEHA: “TEMOS MUITOS JOGADORES BONS”

Félix Queha acompanhou o processo desde as fases anteriores até chegar à competição nacional. Treinador de futebol da selecção de Inhambane, diz ter identificado jogadores com qualidade desde a fase distrital, passando pela provincial, até ao festival.

“Tem bons talentos, tem muitos jogadores bons. Eu pude ver isso desde a fase distrital até à fase provincial e, até este momento, estamos a ter bons jogadores”, afirma.

Para o treinador, aquilo que está a acontecer dentro dos campos demonstra que existe matéria-prima que pode ser trabalhada para alimentar níveis superiores do futebol moçambicano.

Depois de acompanhar os jogos desta fase, Queha destaca a intensidade da disputa e acredita que os jovens encontrados nestas competições podem, com acompanhamento, chegar a patamares superiores.

A existência do talento, porém, levanta uma questão que acompanha quase todas as competições juvenis: o que acontece aos melhores depois de terminarem os Jogos Escolares?

Desta vez, o Governo diz que não quer deixar a resposta para depois.

 

CAIFADINE MANASSE: HÁ OLHEIROS À PROCURA DE TALENTOS

O Ministério da Juventude e Desportos garante que os Jogos Escolares não estão a ser acompanhados apenas como uma competição. Há olheiros, representantes das federações e técnicos do sector à procura de atletas que possam continuar o percurso para outros níveis.

Caifadine Manasse, Ministro da Juventude e Desportos, diz que esta competição tem sido historicamente um espaço de surgimento de novos talentos e defende a continuidade da aposta nos Jogos Escolares.

“Daqui sempre nascem vedetas e, para nós, é importante continuarmos a acarinhá-los, porque estes jogos juntam crianças de todo o país, unem as crianças, unem o país e aqui vamos forjar cada vez mais talentos para fazerem parte do desporto nacional, internacional e de alta competição”, afirma.

Mas, desta vez, a observação dos jovens tem um objectivo ainda mais imediato.

Moçambique deverá acolher, em Dezembro, os Jogos da Região 5 e o Ministério pretende aproveitar o festival para identificar potenciais atletas para a competição.

“Estamos aqui com olheiros, estamos em peso com toda a equipa do Ministério da Juventude e Desportos e das federações, porque vamos ter os Jogos da Região 5, em Dezembro, em Moçambique, e é daqui onde vamos tirar os talentos para estes jogos”, revelou Caifadine Manasse.

A afirmação aumenta o peso competitivo desta edição. Uma boa prestação pode significar mais do que uma medalha escolar: pode colocar um estudante no radar de quem decide os próximos passos da sua carreira.

Durante os próximos dias, atletas de seis modalidades vão competir entre Inhambane e Maxixe. Haverá vitórias, derrotas, medalhas e campeões. Mas o resultado mais importante desta XVI edição poderá não aparecer no quadro de classificações.

Estará no que acontecer aos jovens depois de regressarem às suas províncias.

Para Madalena, pode ser a oportunidade de deixar o nome de Gaza na história. Para Ivan, um passo num sonho que aponta aos Jogos Olímpicos. Para os treinadores, uma oportunidade de mostrar que há talento por lapidar. E para o Governo, uma montra onde já procura atletas para representar Moçambique.

Porque, para muitos dos 1.500 estudantes que hoje competem em Inhambane e Maxixe, a maior vitória poderá não ser aquilo que conquistarem nestes Jogos Escolares, mas o caminho que conseguirem abrir quando eles terminarem.

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